LEONOR NUNES. A odisseia de um coração solidário

Pedro Gaspar

«Passava muito tempo como os meus avós maternos no Alentejo. Meses inteiros. Ganhei carinho pelas pessoas mais velhas que têm claramente mais sabedoria e experiências de vida fantásticas. Foi isso que me levou até à minha profissão», diz a jovem assistente social de 25 anos com um brilho nos olhos.

Leonor Nunes confessa que os maiores desafios que tem pela frente são a falta de recursos, gerir emocionalmente as histórias de vidas e «o preconceito que as pessoas mais novas têm pelas mais velhas».

Organizou um grupo de voluntários com os seus amigos. Entre 5 a 7 voluntários que adoraram a iniciativa e aderiram logo. “Íamos aos pares ao médico com quem precisasse. Infelizmente uns já faleceram.”

Leonor Nunes nasceu a 21 de Outubro de 2001. Considera-se extrovertida, sorridente e comunicativa. É licenciada em Serviço Social pela Universidade Católica e tem uma pós-graduação em Psicogerontologia no ISPA. Tem um cão chamado Tobias e adora passar temporadas no Alentejo. Trabalha na IPSS “Mais proximidade”, associação que acompanha cerca de 130 pessoas idosas em situação de solidão e isolamento social, onde “tem o privilégio de fazer a diferença na vida das pessoas”.

Fala-nos sobre ti desde o berço até aqui
Passei quase toda a minha vida a estudar no Sagrado Coração de Maria, em Lisboa. Entrei no primeiro ano e sai no 12º. Foi aqui onde fiz maior parte das minhas amizades. Comecei a jogar vólei com sete anos até ao 9º ano, onde comecei depois a jogar pelo SLB. Confesso que tanto o vólei como a minha profissão são os pilares mais importantes onde assetam a minha felicidade. O vólei porque me trouxe muito espírito de equipa e muita organização na minha vida de estudante.
O tempo dividia-se entre o estudo e o treino. Os jogos eram ao fim de semana. Tiraram muito tempo aos meus pais, mas eles ganharam com isso preenchendo-lhes o coração. Eles confessam-me isso com alento.
Sempre gostei muito de jogar, mas a uma determinada altura da minha vida, comecei a trabalhar e era difícil gerir o tempo. Como tudo na vida um dia tem um fim.
O meu trabalho é muito físico, ando muito de um lado para o outro
Um dia senti aquela saudade inexplicável, então fui para o clube Tap, mas já não era federada. Durou pouco tempo, tenho pena de ter sido efémero, mas tento gerir a parte do desporto substituindo com corridas e ginásio.

Fui para a Católica onde tirei o curso de Serviço Social. Escolhi o curso e a minha profissão dada a relação especial que tinha com os meus avós, sempre tivemos uma relação excelente e exemplar. Apesar do tratamento ser o mesmo não haver distinção entre os avós maternos e paternos, a verdade é que passava muito com os maternos, no Alentejo. Meses inteiros.
Acabei por desenvolver uma relação com pessoas da mesma geração o que me levou até à minha profissão. Ganhei carinho pelas pessoas mais velhas que claramente tem muita sabedoria e experiências de vida fantásticas.

Leonor Nunes, o desporto levou-a a ter desejo por chegar mais longe, tendo escolhido a profissão de assistente social.

Os idosos estão mais desamparados?
Sim. Foi um sonho de infância entrar nesta área e conseguir trabalhar com idosos. Já no Sagrado fazíamos voluntariado, em diversas áreas. Com idosos, pessoas com deficiência, ou crianças em situações mais vulneráveis. Serviço social na área do envelhecimento, porque sempre me disseram ao ouvido que tinha muito jeito para tratar de pessoas mais velhas.
O primeiro estágio foi na freguesia de Moscavide e Portela. foi muito especial. Muito acolhedor e divertido, pois tínhamos muitas atividades como praia, campo, passeios.
Desenvolvi o meu projeto Coração Solidário”. É muito parecido com o que estou a fazer agora e a minha ideia era há muita gente aqui que não tem ninguém para ir ao medico, por exemplo. Eram muito autônomos, mas depois nas pequenas coisas como compras, finanças ou médicos não tinham ninguém. E normal os familiares terem a vida muito ocupada. Os voluntários eram amigos meus e dinamizámos atividades de animação sociocultural e de estimulação cognitiva.

Pensei: o que esta Junta precisa aqui? Alguém que vá com as pessoas idosas ao medico. Organizei um grupo de voluntários todos meus amigos. Entre 5 a 7 voluntários que adoraram a iniciativa e aderiram logo. Íamos a pares ao medico com quem precisasse. Infelizmente uns já faleceram.
Estou numa associação com pessoas que moram na zona de Alfama, Mouraria, que estão em situação de solidão e de isolamento e procuramos aligeirar e evitar essas situações. visitas domiciliarias. Contactos telefónicos. Por ser a parte da saúde onde temos mais pessoas a solicitar.

O que é preciso para o futuro?
Na nossa sociedade, temos um desafio muito grande que se chama preconceito. E a falta de recursos também. As pessoas mais novas têm preconceito pelas mais idosas. Começa quando somos mais novos. Nem que seja pela forma como olhamos para eles. Em casa é importante dar o exemplo, a maneira como os nossos pais tratam os seus pais e tios mais velhos. Sinto que, infelizmente, já não há muitas crianças com essa educação. Vinda de berço. Como eu acho que tive essa maravilhosa sorte. Sem dúvida, esse respeito começa em casa. Já nas escolas, nos livros e manuais escolares, os velhinhos são sempre mostrados como pessoas frágeis, quando temos anúncios sobre fraldas de incontinência, mostra que são mais debilitadas e não tem de ser assim. O desafio é tentar mudar a mentalidade das pessoas.
Acho fantástico a “Casa das Abelhinhas” no Parque das Nações misturar as pessoas idosas com as crianças, temos sempre muita coisa a aprender uns com os outros. Iniciativas brutais termos teatro e caminhadas para seniores aqui. Aumentar essas iniciativas, virar para as artes mais centros de convívio. Contacto humano. Desporto teatro, música, dança. Debater temas. Aprender cultura e informação pertinente. Um local para debater temas da atualidade e mais importante saber que depois tem condições para voltar para casa. Serem autónomos. Conseguirem envelhecer em casa. Aquele caminho ate ao centro de dia. Um transporte para a pessoas se deslocarem. O PN e um sítio bem atualizado que inclui as pessoas idosas, mas porque não ter mais iniciativa?
E porque não centros de noite? O pior amigo da noite é a solidão.
Tantas pessoas sós e isoladas nas próprias casas. As infraestruturas de Lisboa não são as mais indicadas para os idosos. As pessoas acabam por ter receio de sair de casa. Poderem cair e ficarem mais debilitadas. Alguém para tomar conta deles durante a noite. «e se vou à casa de banho sozinho e caio? Quem aparece e quando?» conheço muitas pessoas que caem e só quando ligamos e que sabemos da situação.

Voltarias a jogar agora?
É complicado porque o meu trabalho acaba por ser esgotante. E a relação entre jogadora e treinador por vezes é um pouco mais difícil. Não se trata de feitios, mas do compromisso que se assume e se falha alguma coisa, nós já não entramos em campo. Entendo. Quem treina mais e está mais presente e é mais assídua tem mais direito de ser titular ou estar mais tempo em campo, mas e verdade é que agora não há mesmo tempo para isso.
Tenho receio que a minha relação de jogadora com a equipa não esteja a altura de me comprometer-me tao bem como antes. Mas pelo jogo e pela adrenalina ia já. A cabeça parece que está noutro lado. Muita concentração para vencer. Um treino serve para conhecermos melhor as pessoas. As relações de amizade no vólei são muito bonitas. Partilhamos a mesma paixão. Espírito de equipa. Coesão. É importante ate paras as relações amorosas. O mesmo espírito, mas em família. É assim que eu imagino. É um dos meus valores que me dá mais alento. Levei esta aprendizagem para a minha vida toda em geral. A minha mãe sempre me disse «há tempo para tudo». Tens tempo para estudar, estar com os amigos, para namorar se quiseres.

O que te falta fazer ainda?
Tenho o sonho de ir a Nova Iorque. Adoro viajar. Estive de férias na Grécia este ano e foi incrível. A nível profissional queria ter o meu próprio Centro de Dia. Um lar é uma realidade mais dura. É uma grande responsabilidade. Sou uma pessoa muito ativa, muito conversadora e estou sempre a rir. Gosto de pensar que dou animo por ali.

Como é o teu dia-a-dia?
No escritório somos nove e no terreno somos cinco. Temos a sede em Alfama, em frente ao Museu do Fado com os utentes da Baixa de lisboa, Mouraria e Alfama.
Estamos juntos com outras associações como a Santa Casa da Misericórdia. Avaliamos as necessidades de uma pessoa se não consegue tomar banho sozinha ou já se não consegue fazer as refeições de forma autónoma. Contamos com a Santa Casa para ajudar e corre tudo bem. Eles fazem o serviço de apoio domiciliário que nos não temos. Damos um apoio mais de acompanhamento ou burocrático. A parte da higiene tem de ser ou com a JF ou Santa Casa. As pessoas veem-nos como um braço direito.
Ligamos para ouvir a voz de uma pessoa ou passamos para fazer uma visita, é isso que nos satisfaz e preenche. Falamos de tudo.
Só tenho pena de não ter ido mais cedo fazer voluntariado. É impecável. E, mais uma coisa: sem fins lucrativos. O dinheiro que recebemos são de donativos e de parcerias. Há dias que a única voz amiga, é a nossa.

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