Inteligência Artificial

Nuno Lumbrales, Advogado

E a questão que se coloca é: se não treinarmos os júniores de hoje, quem serão os séniores de amanhã?

Muito se tem escrito sobre a inteligência artificial (IA), e é indiscutivelmente uma revolução que vai alterar substancialmente o ritmo de evolução tecnológica, aumentando-o ainda mais, e a forma como se exercem muitas profissões.

São evidentes tanto os benefícios como os riscos desta rapidíssima evolução tecnológica.

No entusiasmo com esta nova tecnologia, tendem no entanto a desconsiderar-se as respectivas limitações.

No seu estado actual, a IA já pode substituir vários profissionais, nomeadamente nas profissões ligadas à consultoria. Não pode ainda, e talvez nunca venha a poder, substituir profissionais séniores e experientes, mas pode substituir consultores júniores de vários tipos.

Nas maior parte das áreas, a IA consegue dar respostas em geral correctas, e com uma enorme económica de tempo de pesquisa, no entanto, são conhecidos os casos de erro e até de «alucinação», ou seja, de respostas incorrectas, porque o modelo não admite não saber a resposta, e por isso apresenta como correcta uma resposta que deduziu por meio de probabilidades ou interpretações duvidosas, a partir da informação incompleta de que disponha. O trabalho da IA não dispensa, por isso, a revisão de uma profissional qualificado e experiente.

De certa forma, a IA ainda é mais artificial do que inteligente, sobretudo nos modelos generalistas. Nos modelos profissionais e especializados, o grau de segurança é superior.

Este estado de coisas levanta várias das questões, das quais quero salientar as seguintes:

Em primeiro lugar, a perda de confiança dos clientes nos seus consultores, que  passam a questionar as respostas que lhes são dadas com base em pesquisas que fizeram em modelos de IA, geralmente gratuitos e generalistas. Isto pode por vezes ajudar a que o consultor, questionado e forçado a verificar aspectos ou questões colocadas pela IA, acabe por apresentar um trabalho final com maior rigor ou qualidade. Mas também pode colocar em crise a relação de confiança entre o consultor e o cliente, se este acabar por confiar mais na IA do que no consultor. Além de encarecer o serviço por forçar o consultor a gastar mais tempo a rebater as críticas, muitas vezes infundadas, da IA… até porque muitas vezes o cliente não consegue colocar a questão à IA correctamente, deixando de fora factos ou elementos relevantes para análise do seu caso.

Em segundo lugar, como cima já se referiu, a IA está a pôr em causa os empregos de consultores júniores, cuja procura começa a descer. Além disso, a formação destes profissionais começa a ser substancialmente alterada, passando a incluir o uso intensivo de IA, levando à potencial perda de competências a curto-médio prazo. Não estamos  a falar de tarefas mecânicas como o cálculo aritmético, questão que se colocou quando foram inventadas as máquinas calculadoras. Estamos a falar de pesquisa, análise, interpretação e selecção de informação, definição de estratégias, e outras tarefas essenciais à condução das empresas e instituições. E a questão que se coloca é: se não treinarmos os júniores de hoje, quem serão os séniores de amanhã?

Por último, o advento da IA veio alterar o «equilíbrio de forças» entre generalistas e especialistas dentro de determinadas áreas profissionais. Nas últimas décadas, tem-se dado primazia à ideia de que é necessária uma elevada especialização dos técnicos e consultores, para se poderem diferenciar da concorrência no mercado, por serem mais rápidos e eficientes nas suas áreas de especialização. Só que com a utilização criteriosa da IA, um generalista com uma formação sólida consegue encurtar em muito o tempo de pesquisa para chegar à mesma solução que um especialista… sem perder a vantagem de ter uma visão mais abrangente dos vários aspectos do problema em análise.

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