No atual cenário político no Brasil é legítimo recear ameaças à liberdade de expressão, aos direitos individuais e à democracia. No entanto, a desinformação alimenta esses receios, transformando acontecimentos em supostas provas e interpretações em certezas. Uma cor de roupa, uma declaração ou até um silêncio podem adquirir significados desproporcionados quando observados através de uma lente ideológica.
O povo brasileiro precisa de voltar a pensar.
O Brasil tem vivido a política de uma forma cada vez mais fanática, como se a escolha de um candidato fosse uma questão de identidade, fé ou pertença, e não uma decisão consciente sobre o destino do país. Muitos parecem ter esquecido que a democracia não se resume ao voto, nem à figura de um Presidente. Nenhum político está acima das instituições, das leis ou do interesse público.
Hoje, o debate político deu lugar à hostilidade, a divergência passou a ser tratada como uma ofensa e a crítica a um candidato tornou-se, para muitos, um ataque pessoal. A sociedade divide-se por ideologias, enquanto a avaliação de propostas, a procura de alternativas e o confronto de diferentes modelos de governação perdem espaço para a propaganda, o marketing pessoal e a imagem dos seus representantes.
Os brasileiros parecem lutar menos pelos seus direitos do que pela defesa dos seus líderes, como se fossem ídolos ou representassem a sua própria identidade. Quando isso acontece, a razão perde espaço e a verdade passa a ser aquilo que melhor serve as convicções de cada um.
Deixamos de procurar compreender os acontecimentos e passamos a procurar neles argumentos que confirmem aquilo em que já acreditamos. Assim, torna-se cada vez mais difícil distinguir a crítica fundamentada do alarmismo, a informação da manipulação e uma ameaça real à democracia de uma interpretação alimentada por convicções ideológicas.
No atual cenário político no Brasil é legítimo recear ameaças à liberdade de expressão, aos direitos individuais e à democracia. No entanto, a desinformação alimenta esses receios, transformando acontecimentos em supostas provas e interpretações em certezas. Uma cor de roupa, uma declaração ou até um silêncio podem adquirir significados desproporcionados quando observados através de uma lente ideológica.
O fanatismo político não pertence exclusivamente a um lado. Manifesta-se sempre que a lealdade a um grupo se torna mais importante do que os factos e os princípios. O problema não está em ter convicções, mas em perder a capacidade de as questionar.
Uma democracia saudável precisa de cidadãos capazes de discordar sem desumanizar o adversário e que não entreguem a nenhum líder o direito de pensar por eles. É preciso coragem para defender aquilo que nos incomoda, escutar o que nos contraria e colocar as nossas próprias convicções à prova.
O Brasil tem pessoas inteligentes, preparadas e capazes de construir um país mais justo e desenvolvido. A mudança depende de novas escolhas nas urnas, mas também de uma sociedade disposta a rever as suas posições ideológicas e a exigir mais dos seus representantes.
Governar não é possuir o país. Nenhum candidato merece uma lealdade que dispense os princípios fundamentais da Constituição. O poder deve servir os cidadãos, nunca transformá-los em instrumentos de quem o exerce.
Antes de anunciar a próxima ditadura ou o fim da democracia, é preciso analisar os factos com lucidez, distinguir ameaças reais de receios alimentados pela desinformação e compreender os fundamentos de cada situação.
Menos idolatria, menos certezas cegas e menos discursos de catástrofe. Mais leitura, mais pensamento crítico e mais responsabilidade democrática.
O Brasil não precisa de escolher um salvador. Precisa de recuperar a capacidade de pensar, de exigir e de ser democraticamente governado.


