Um dia, os nossos filhos vão perguntar-nos quem foi Cristiano Ronaldo. E vai ser difícil explicar-lhes que não foi apenas um dos melhores jogadores do mundo. Foi uma presença. Esteve lá enquanto nós crescíamos, amávamos, perdíamos pessoas, construíamos famílias e aprendíamos, aos tropeções, a viver.
Nunca fui muito de futebol. Talvez por isso não estivesse preparada para as lágrimas que me caíram enquanto ouvia Cristiano Ronaldo ler a sua carta de despedida.
Não era por ele que eu chorava. Era por mim. Pela súbita certeza de que também a minha juventude começa a pertencer ao passado.
Há pessoas que entram nas nossas vidas sem nunca nos conhecerem. Ficam tanto tempo que deixamos de imaginar o mundo sem elas. Estão lá, simplesmente, como a luz de uma casa que sabemos que está acesa.
Lembro-me de uma praia em Punta Cana, de um vendedor de cocos que me perguntou de onde eu era. Respondi «Portugal» e ele encolheu os ombros, sem saber onde ficava. Arrisquei: «Cristiano Ronaldo.» E o rosto dele iluminou-se. Abriu os braços, repetiu o nome duas vezes e chamou os amigos. De repente, eu já não era uma turista qualquer. Passei a ser de algum sítio.
Nunca me esqueci dessa sensação.
Um rapaz nascido numa ilha, num país pequeno, levou o nosso nome a lugares onde muitos de nós nunca chegarão.
E agora, ao ouvi-lo despedir-se, percebo que não são só os grandes nomes que vão ficando para trás. Somos nós que envelhecemos com eles.
Um dia, os nossos filhos vão perguntar-nos quem foi Cristiano Ronaldo. E vai ser difícil explicar-lhes que não foi apenas um dos melhores jogadores do mundo. Foi uma presença. Esteve lá enquanto nós crescíamos, amávamos, perdíamos pessoas, construíamos famílias e aprendíamos, aos tropeções, a viver.
Talvez tenha sido isso que mais me custou naquela carta.
Perceber que, enquanto ele corria atrás de uma bola, a vida também corria por nós.
E que nenhum de nós pode voltar atrás.


