O encontro ao almoço Conversas no D. Carlos no dia 10 de Julho contou com especialistas de topo da área de energia. O evento marcou os dois anos de almoços temáticos, uma organização de Luís Gagliardini Graça. Sampaio Nunes, antigo director da Comissão Europeia de novas tecnologias de energia, e ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação de Pedro Santana Lopes, João de Jesus Ferreira, engenheiro electrotécnico do Instituto Superior Técnico e Mira Amaral, antigo Ministro da Energia de governos PSD foram os oradores do ultimo encontro Conversas no D. Carlos.
Sampaio Nunes continua a defender como garante da autonomia energética nacional a construção de quatro centrais nucleares, num “pacote” que inclui outras fontes de energia, nomeadamente solar, eólica e hídrica. O especialista em energia discorda da actual ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, para quem o problema energético de Portugal se resolve “com as renováveis”.
A política europeia de energia evoluiu de uma enfase na segurança de abastecimento e na competitividade, para uma enfase na redução de emissões; no entanto essa evolução assentou numa premissa falsa e cientificamente errada, inspirada na Energiewende alemã, de que redução de emissões e independência eram sinónimo de energias renováveis; Com esse objetivo gastaram-se 700 mil milhões de euros de incentivos e subsídios e continua-se a gastar cerca 60 mil milhões por ano.
Enquanto se apoiam as renováveis com subsídios, penalizou-se a energia nuclear com impostos. As consequências desta conjugação de más políticas são custos muito elevados para os consumidores, sistemas mais frágeis e vulneráveis, e riscos acrescidos de apagão. E uma dependência excessiva de países terceiros em gás natural e matérias críticos. Isto é, o que aconteceu na Alemanha, Dinamarca, Texas ( USA), Sul da Austrália e na Califórnia ( USA). Só um estudo TSC (total system costs) nos poderá dar um retrato exato do que nos espera. “Temos que procurar um sistema seguro, estável, previsível, que dê as condições de necessárias de inércia. Calcular os custos dessa solução, o prazo para a alcançar e então planear a transição da situação atual para essa solução.”
A China aprovou a construção de 10 novos reatores nucleares, um investimento de de US$ 27,7 bilhões, (2 500€/kW) com o objetivo de se tornar o maior produtor de energia nuclear do mundo até 2030. Os reatores serão construídos em regiões costeiras. Este investimento faz parte da estratégia de longo prazo para fortalecer a autonomia energética da China.
O Parlamento sueco aprovou uma lei que incentiva a construção de novos reatores nucleares através de empréstimos estatais e garantias de preços, com o objetivo de reforçar a segurança energética e alcançar a neutralidade climática até 2045. A medida prevê o financiamento de até quatro grandes reatores, com uma capacidade total de 5 000 megawatts, ou o seu equivalente em pequenos reatores modulares (SMR). O Estado sueco concederá empréstimos em condições favoráveis que cobrirão cerca de 75% do custo estimado entre 37 e 55 mil milhões de euros.
É ainda estabelecido um contrato por diferença (CfD) que garante às empresas um preço mínimo de 0,07 euros por quilowatt/hora durante 40 anos, partilhando os riscos e os benefícios com o Estado. Dois reatores de 1 200 Mwe podem assim custar entre 3000-4000 €/kW, e durarem 6 anos de construção, ocupando 10 000 trabalhadores.
Um sistema energético seguro, fiável e competitivo
O Governo português, à imagem do que fazem vários dos seus parceiros, “deve exigir a alteração da atual política europeia de energia, no sentido de promover a segurança energética, a competitividade da economia e a diminuição das emissões, sem forçar um meio, mas respeitando a neutralidade tecnológica”, defende Sampaio Nunes.
“Nesse caso, deveria preparar um programa estratégico de construção de 2 reatores de Ger. III+, para funcionar na base do diagrama, o que permitia uma fundação robusta permanente, com suficiente inércia e que evitaria persistir num modelo falhado e inviável, que vai originar custos exponencialmente crescentes. Esses reatores deveriam ser construídos em zona industrial na costa, implicariam um estaleiro de cerca de 10 000 trabalhadores em áreas onde Portugal é excelente (construção civil e metalomecânica)”, explica.
“Se o Estado reequilibrasse os apoios que deu às renováveis durante 20 anos, para agora ter que repetir (sem eficácia) os mesmos apoios, mas suportasse os custos financeiros a este projeto (com o compromisso de que o MWh produzido seria injetado no sistema a um valor máximo de 30-40 €/MWh) teríamos um sistema seguro, limpo, autónomo e capaz de atrair investimento estrangeiro em áreas críticas (datacenters, EVs, papel, cimento, etc.),” concluiram Sampaio Nunes e João de Jesus Ferreira.


