Cláudia Lucas Chéu, Dulce Garcia, Filipa Martins, Helena Magalhães, Joana Bértholo, Joana Kabuki, Maria Francisca Gama, Maria Isaac, Rita da Nova, Sara Rodi, Susana Amaro Velho, Susana Piedade, Tânia Ganho, Valentina Silva Ferreira são “um grupo de autoras portuguesas de ficção literária com os mais diversos backgrounds, ocupações, idades, estilos de vida e experiências pessoais”, que têm “em comum a paixão pela escrita e a convicção de que, juntas, podemos levar mais longe a literatura escrita por mulheres”.
O mote destas quase 40 escritoras “será sempre a divulgação e valorização da literatura portuguesa escrita por mulheres”. O eixo temático é a identidade do “Clube das Mulheres Escritoras”. É definido por uma reflexão crítica sobre cultura e consciência e, acima de tudo, sobre resiliência. Têm tido anos de trabalho e dedicação, nem sempre reconhecidos e com alguma incompreensão pelo meio, revelam elas.
De coração aberto e de alma carregada de orgulho criaram a CME, uma revista anual que celebra o aniversário do Clube e que reúne textos de várias autoras portuguesas contemporâneas de ficção literária. Vai na 3ª edição.
A 8 de março de 2025, a Fundação José Saramago apoiou e acolheu a conferência “A palavra escrita, a mulher e a paz”, organizada pelo Clube das Mulheres Escritoras. Têm uma missão inclusiva, aberta ao público e sem exclusão, sem restrições de género para quem queira acompanhar os livros recomendados ou participar nas divulgações das autoras. São estes os interesses comuns e o propósito claro à sua existência.
Quase quarenta escritoras, quase quatro anos depois. Qual o vosso caminho se o crescimento do “Clube” aumentar exponencialmente?
O nosso caminho será sempre o da divulgação e valorização da literatura portuguesa escrita por mulheres. Os nossos membros têm de ser autoras de nacionalidade portuguesa com obras de ficção para adultos publicadas por editoras tradicionais. Sabemos que há muitas autoras que ainda não se juntaram e outras que vão nascer. Estaremos cá para dar visibilidade a todas elas.
De onde partiu a ideia do “Clube das Mulheres Escritoras”?
Partiu de um encontro informal com 15 autoras, que supostamente era apenas para entreajuda e apoio mútuo. Só que depressa percebemos que todas sofríamos do mesmo mal: falta de visibilidade para os nossos livros, falta de acesso ao espaço mediático, inexistência de crítica literária às nossas obras, poucos ou nenhuns convites para eventos literários. Então percebemos que o problema não era de uma ou outra autora – todas sentiam o mesmo e os números de autoras nas estantes de livrarias e bibliotecas provavam que realmente havia uma desigualdade gritante entre autores e autoras. Foi aí que decidimos lançar o movimento para fora e fazer essa sensibilização juntos dos leitores e das instituições.
Como analisam o vosso impacto no universo literário?
Acreditamos que já é impossível ignorar o nosso trabalho. A nossa newsletter mensal tem mais de 12 mil subscritores e está sempre a crescer; os nossos eventos abertos ao público têm sempre casa cheia, como aconteceu no ano passado na conferência pela paz que fizemos com a Fundação Saramago; este verão tivemos uma parceria com a revista Visão, o que mostra que há interesse em saber mais sobre autoras portuguesas. E não é por acaso que, cada vez mais, há autoras a serem convidadas para eventos. Essa parte já conseguimos mudar. Agora falta o resto: os currículos escolares, o PNL, o espaço mediático, o espaço nas livrarias.
Existe uma estratégia hierárquica no “clube”?
Sim, existe um núcleo de 8 autoras que tomam as decisões mais estratégicas, mas tudo é apresentado aos outros membros para validação e para que possam integrar os diferentes grupos de trabalho e sentirem um envolvimento com as ações que promovemos.
Ponderam um espaço físico para que o “clube” tenha mais interação com o público?
Ainda estamos longe desse passo. É um sonho, sim, mas somos uma associação sem fins lucrativos que vive da contribuição das suas sócias e de simpatizantes. Ainda não temos uma estrutura financeira que nos permita dar esse passo.
Sentem algum tipo de discriminação? A luta pela igualdade conquista-se com advérbios de modo ou com adjetivos?
Claro que sentimos, senão não existiríamos. A luta faz-se dia a dia, leitor a leitor, com advérbios, adjetivos e todas as palavras que ajudem a passar a mensagem de que as mulheres portuguesas sempre escreveram e em todos os géneros literários, do terror, ao policial, da distopia à fantasia, do romance histórico à banda desenhada. Só falta serem descobertas.
Como chegou até vós a autora Ana Paula Tavares, vencedora do prémio Camões?
Foi um convite pessoal feito por mim quando estive com ela no Festival Utopia Açores. A Ana Paula aceitou de imediato, sem sequer questionar, o que mostra que até um prémio Camões se revê na nossa luta.
Quais as vossas referências feministas mais intrínsecas?
Essa é uma pergunta que deve ser respondida pessoalmente por cada autora. As referências são imensas, dentro e fora de Portugal. Teremos que responder com autoras portuguesas: Charneca em Flor de Florbela Espanca, Mátria de Natália Correia, As Novas Cartas Portuguesas das três Marias, Tanta Gente, Mariana de Maria Judite de Carvalho, Ela É Apenas Mulher, de Maria Archer e claro, Às Mulheres Portuguesas de Ana de Castro Osório, um dos primeiros textos feministas portugueses.
Que desafios têm pela frente? O céu será o eterno limite?
Queremos que seja implementado em Portugal um sistema de cotas para autores portuguesas nas bibliotecas publicas e nas livrarias, como foi feito com a rádio com resultados esmagadores. O desafio será convencer a DGLab e o governo para a importância do tema, num país em que a maioria dos livros vendidos são de autores estrangeiros e as novas gerações começam a ler em inglês. Queremos fazer um programa de residências literárias só para mulheres e muito mais. Não temos limites.


