O escritor português Valter Hugo Mãe esteve este domingo no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos à conversa com a autora brasileira Ana Maria Gonçalves sobre mulheres, escravidão e racismo, com a presença do Presidente da República, António José Seguro, e o Secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos.
“Há uma corrupção completa do sentido da humanidade”, defendendo que esta tem como premissa “o esforço
de quem faz, e não quem manda fazer”, disse o escritor Valter Hugo Mãe durante a Mesa “Mãe”, no último dia do festival literário, a 18 de outubro em Óbidos.
“Historicamente, as mulheres são epifânicas no poder. Estou em crer que a humanidade terá futuro se
dermos lugar às utopias femininas”, afirmou Valter Hugo Mãe, a propósito de “O Século dos Imbecis”. “O
livro mostra como o poder masculino é pomposo, está assumido e legitimado, mas parece embocar em
coisa nenhuma, e as mulheres resistem como fazedoras”, explicou.
Foi por esse motivo que o escritor optou por não atribuir nome às personagens femininas da obra, mas
tratá-las como “a criada”, “a marquesa”, “a pasteleira”, “a coveira”. “Há uma condição
masculina de existir que é muito mais mediana. A condição da mulher é muito mais extrema: é mais intensa
na felicidade e no amor”, justificou. “As mães que fabricam os filhos pagam o amor extremo que nunca mais
é curável”.
Apesar de não ter tido filhos por opção, Ana Maria Gonçalves publicou o livro “Um Defeito de Cor”, há 20
anos no Brasil, que chegou apenas este ano ao mercado português, em que retrata a vida de uma criança
negra africana, vendida como escrava e levada para a Baía, separada mais tarde do filho, a quem deixa
como “herança” a narração da sua história. A obra recebeu o Prémio Casa de Las Americas, e foi
recentemente eleita como “o melhor livro de literatura brasileira do século XXI”, por leitores e críticos do
jornal “Folha de S. Paulo”.
Literatura e liberdade
Com uma t-shirt vermelha estampada com a raiz quadrada de 169, cujo resultado dá 13, em alusão ao
número com que Lula da Silva concorre às eleições, a escritora contou que, há dois anos, recebeu um
bilhete “extremamente importante” do presidente do Brasil. “Leu o meu livro em seis dias, quando estava
na prisão. E disse que, se o tivesse lido antes e a vários outros de uma lista de 40 livros que leu na prisão,
teria feito dois governos diferentes, porque ficou com um entendimento diferente do Brasil”, contou. “A
literatura tirou-o lá de dentro. É isso que a literatura pode fazer pela gente”, considerou a primeira mulher
negra eleita para a Academia de Letras e a 13ª mulher. “Número 13”, sublinhou.
Identificando-se como “reescritora”, Ana Maria Gonçalves garantiu que reescreveu “Um Defeito de Cor” 19
vezes do zero, porque “a história não fluía”. Após dois anos de pesquisa, um ano de escrita, e dois anos de
reescrita, o livro ficou com mil páginas, após ter cortado 400, a pedido do editor Millôr Fernandes. “Disse-
me para tirar fora tudo o que achasse que estava lindo e perfeito”, recordou. A obra tem como personagem
principal Kehinde, do Benin, sequestrada aos 8 anos para ser escrava. “A protagonista negra é uma forma de
combater o silêncio que foi imposto às minorias”, desvendou, apelando ao questionamento.
“O Brasil foi o último país das Américas a acabar com a escravidão. A maternidade durante a escravidão era
um processo impossível. O ventre da mulher gerava mais escravidão”, comentou a autora. “Foi um processo
de violência extremo. Narrar essa violência é também narrar a violência quotidiana”, afirmou. Aludiu ainda
a um trecho de uma música do grupo brasileiro O Rappa, que guardou na memória: “Todo camburão tem
um pouco de navio negreiro”, em alusão ao compartimento das viaturas dos polícias que, segundo a banda,
“transporta de forma desproporcional a juventude negra e periférica, evidenciando o racismo estrutural e a
violência policial no país”.
Valter Hugo Mãe considerou a leitura da obra da autora brasileira “obrigatória”, como se se tratasse de uma
prescrição médica. “Este livro é uma vitória literária. Escreveu mil páginas, mas ainda assim foi preguiçosa.
Queremos saber mais e detalhes sobre algumas figuras que vai deixando cair”, afirmou, que ultrapassam as
450. “São poucos os livros que ao fim de 150 páginas não nos aborrecem. A urgência de saber mais é muito
rara”, lembrou.
“Parece parente de Dostoievski, Tolstói, Victor Hugo ou Marcel Proust. Como é que conseguiu erguer sozinha um livro da dimensão dos [Mosteiro] Jerónimos?”, questionou.
“Imbecis” são os outros
“Os meus editores não conseguem negociar comigo nada. Será que estou errado? Eu escuto os editores,
mas não ligo nada”, confessou o autor português. “Não consigo mudar os títulos. Mudar um título meu era
como mudar o nome aos meus filhos”, observou. A propósito da escolha do título “O Século dos Imbecis”,
ironizou, dizendo que “imbecis” não é uma ofensa, porque as pessoas pensam que imbecis são as pessoas
que estão ao lado. “Quem comprou o livro não vai perceber que estou a escrever sobre elas, mas sobre o
vizinho”, afirmou.
À pergunta, onde é que falhámos para o mundo estar partido ao meio, Valter Hugo Mãe respondeu: “Eu
não falhei. Voto sempre certo. Se pudesse, votava 13 vezes”, em alusão a Lula da Silva. “As pessoas estão
emotivas e cada vez mais irracionais. Substituiu-se a ciência pelo achismo. Estou farto de sentimentos. Isso
é para os psicólogos e psiquiatras. Votar e ser cidadão tem de ser mais racional. Temos de ouvir quem sabe
e temos de ser consequentes”, sustentou.
A propósito do racismo, considerou que “o preconceito está enraizado na forma de as pessoas sentirem”,
repetindo que “se forem estúpidas, exercem a estupidez mesmo perante a ciência”.


