Mas eis que o Governo resolve surpreender os portugueses com o anúncio de uma reforma profunda na organização da saúde em Portugal. Uma reforma cuja necessidade, segundo vários entendidos, há muito era reconhecida e cuja realização tem vindo a ser adiada por razões que o Governo certamente não vai explicar.
Até há poucas semanas atrás constava que o Primeiro Ministro era completamente avesso a reformas. Não era um pressentimento que tivéssemos, não era uma intuição que alimentássemos. Foi o próprio líder do Governo socialista que o afirmou de forma perentória com aquele ar jocoso em que enforma as suas declarações, e utiliza para dizer tudo o que lhe aprouver, evitando responder a toda e qualquer questão que lhe seja colocada por um jornalista. Aparentemente, só diletantes políticos ou adversários da oposição poderiam conceber que a solução dos graves problemas que afetam a sociedade portuguesa – na saúde, na justiça, nas finanças, na educação, na habitação – teriam de passar por reformas globais que só o Governo poderia iniciar e conduzir.
Das duas uma, ou o Partido Socialista desconhecia estes problemas, os quais, durante a sua governação, têm acantonado o país no grupo dos membros mais pobres da União Europeia, ou o PS acreditava que a forma de os resolver era governar o país em modo de gestão corrente, manobrando de fait divers em fait divers, de aparição mediática em aparição mediática, sem revelar o mínimo empenho em mudanças de fundo que permitam quebrar o ciclo vicioso da pobreza.
O próprio líder do PS, numa ocasião em que foi instado a explicar por que razão o país não sai da “cepa torta”, não hesitou em explicar: “É a história!” Ou seja, sempre foi assim. E pelos vistos com o PS assim continuará a ser. Portanto, é o destino de um país que o PS vai conduzindo de forma hábil e sonolenta evitando solavancos que possam por em risco a sua posição dominante. Dada a história do PS, este desalento do Governo socialista cria algumas perplexidades. O PS tornou-se um partido situacionista? Governa para que tudo fique na mesma … como a lesma? O PS não quer que o país progrida?
Mas eis que o Governo resolve surpreender os portugueses com o anúncio de uma reforma profunda na organização da saúde em Portugal. Uma reforma cuja necessidade, segundo vários entendidos, há muito era reconhecida e cuja realização tem vindo a ser adiada por razões que o Governo certamente não vai explicar. Enfim, mais vale tarde do que nunca.
Mas, admitindo que a repugnância do Primeiro Ministro por reformas era genuína, impõe-se a questão: “o que se passou?” Que epifania, que ocorrência súbita levou o Primeiro Ministro a tornar-se aficionado das reformas? Ou será que tinha esta reforma escondida no bolso e resolveu agora tirá-la para fora num exercício de psicologia invertida? Se queres que aceitem uma reforma, começa por dizer que não gostas de reformas!
Seja qual for a razão desta súbita mudança, o Governo parece querer trilhar um caminho novo. Mas a ideia de o fazer de forma isolada, sem mobilizar para a reforma os parceiros naturais da mudança – os profissionais, os utentes, os gestores, etc. – não auspicía um percurso sem atribulações.
Ainda assim, ao contrário do que aconteceu do domínio da habitação, a reforma da saúde pode ser uma oportunidade para ultrapassar os constrangimentos que afetam este setor. Constrangimentos com os quais todos os portugueses já se confrontaram em algum momento, ou em vários momentos, da sua vida e alguns com desfecho trágico.
Cabe ao Governo assegurar as condições para que uma iniciativa, que é amplamente reconhecida como necessária e urgente, não se esgote no fogacho de algo que se tira da algibeira para causar sensação, e seja uma reforma implementada de forma participada e cabal para benefício de todos os envolvidos e de todos os destinatários.


