Os BRICS e o Mundo de Múltiplas Ordens

José Filipe Pinto, Professor Catedrático em Ciência Política na Universidade Lusófona

1. Quando em 2001 um economista britânico, Jim O’Neill, ex-secretário do Tesouro do Reino Unido e membro da Câmara dos Lordes, criou o acrónimo BRICS para designar aquelas que identificava como potências emergentes – Brasil, Rússia, Índia e China – o Mundo era unipolar, devido à recente implosão da União Soviética e ao consequente desmoronar do Bloco de Leste. Nessa conjuntura, a hegemonia norte-americana era uma realidade e a ordem liberal ditava a lei.

Porém, a crise económica e social iniciada nos Estados Unidos, decorrente do rebentamento da bolha imobiliária com a consequente falência de instituições bancárias até então consideradas sólidas, por força da globalização, não tardou a espalhar-se e a colocar em causa o modelo norte-americano. Por isso, não causou perplexidade que, em 2009, os quatro países emergentes tivessem resolvido dar corpo ao acrónimo ao criarem uma plataforma de cooperação numa reunião realizada em Ecaterimburgo, na Federação Russa. Uma revisitação da estratégia que já vinha sendo seguida por outros países depois da II Guerra Mundial, e da qual a União Europeia representa o exemplo mais aprofundado, uma vez que não se quedou pelo elemento económico e evolucionou para uma entidade política para-supranacional.

Foi a esta plataforma cooperativa que aderiu, em 2010, a África do Sul sem que, no entanto, o acrónimo sofresse alteração.

2. Como o tempo é mestre na arte de confirmar ou desmentir os cenários traçados, uma vintena de anos após a previsão de O’Neill, constata-se que a mesma apenas foi parcialmente cumprida. Na verdade, a China, ao ousar mergulhar resolutamente no oceano da globalização, logrou um nível de crescimento económico – coisa diferente de desenvolvimento – incomensuravelmente superior aos restantes membros dos BRICS enquanto o Brasil, muito por força dos escândalos políticos e financeiros que têm marcado as sucessivas governações populistas, ainda que de modalidades diferentes e a África do Sul, a conviver com a insegurança e a corrupção decorrentes de uma transição que ainda não superou as reminiscências do passado recente, ficaram muito aquém daquilo que os seus recursos naturais permitiam antever. Quanto à Índia, a elite decisora viu a China que, em 2001, tinha uma economia semelhante, afastar-se progressivamente, enquanto se entretinha a desatar as mãos, ou seja, indecisa sobre como atualizar o exemplo de Pequim.

3. Quando, entre 22 e 24 de Agosto de 2023, a cidade de Joanesburgo acolheu a XV Cimeira dos BRICS, a designação do evento – BRICS and Africa: Partnership for Mutually Accelerated Growth, Sustainable Development and Inclusive Multilateralism – deixou claro que a plataforma estava a apostar numa estratégia mais abrangente e aprofundada. Algo previsível, uma vez que era extensa a lista de países que se tinham aproximado da organização, ao ponto de mais de uma vintena já ter solicitado a adesão.

Como os vizinhos acontecem, mas escolhemos os amigos, a cimeira resolveu dar luz verde a apenas seis dos candidatos: Argentina, Egito, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Uma escolha evidenciando que a amizade sabe ser interesseira, porque com as novas entradas a organização, de acordo com o Centre for Strategic and International Studies (CSIS), contará, designadamente, com três dos cinco maiores produtores de lítio e com mais reservas minerais de terras raras[1].

Porém, o interesse não decorre apenas do elemento material, pois há que contar com as dimensões geopolítica e geoestratégica. Para reflexão – e preocupação – da Ordem Liberal convirá ter em conta que a China já tinha logrado sentar à mesma mesa o Irão xiita e a Arábia Saudita sunita e que ambos os países integrarão os BRICS a partir de 1 de janeiro de 2024. Um fator que deverá ser tomado em linha de conta no que concerne à nova ordem mundial em construção. Uma realidade que, na minha ótica, andará próxima daquilo que designo como um Mundo de Múltiplas Ordens.

4. O acrónimo BRICS, em língua inglesa, significa tijolos. Uma coincidência feliz porque os tijolos, a exemplo da organização, têm caraterísticas diferentes. Assim, existem diversas variedades de tijolo sendo as mais comuns o tijolo compacto, o denominado tijolo de burro, e o tijolo cerâmico, que contém furos e espaços vazios no seu interior. Ora, por um lado, os BRICS também são compactos e falam a uma só voz no que concerne à condenação da ordem mundial vigente. Recusam, em bloco, a hegemonia norte-americana e acusam o Ocidente e a Ordem Liberal de continuarem a apostar em políticas extrativas ou neocolonialistas e de quererem impor às outras partes do mundo normativos em que estas não se reveem, uma vez que não participaram, de forma ativa, na sua elaboração.

Por outro lado, tal como o tijolo cerâmico, os BRICS têm muitos espaços ocos ou descontinuidades no que concerne não apenas ao grau de crescimento, mas sobretudo no que diz respeito ao relacionamento entre eles. De facto, a unanimidade cessa quando se passa da identificação do inimigo comum para o plano dos interesses individuais. Aí surgem os inevitáveis focos de conflito, como a recente apresentação por Pequim de um mapa da China englobando territórios que a Índia considera sua pertença. Uma conflitualidade que não demorará a envolver também a Rússia, quando se chegar ao armistício no atual conflito militar que grassa na Ucrânia, e o Kremlin se virar para a Ásia Central onde a China tem feito avultados investimentos. Sem contar que a paz entre os sunitas maioritários e os xiitas minoritários será sempre precária, malgrado a divindade em comum.

5. Face ao exposto, a XV Cimeira dos BRICS confirmou aquilo que já era possível inferir depois do posicionamento dos seus membros em relação à anexação russa da Crimeia e à invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, ou seja, que a construção de um Mundo de Múltiplas Ordens está em andamento. Num primeiro momento, a estratégia dos BRICS, tal como o tijolo compacto, aposta no fim da hegemonia da Terra do Tio Sam, mas não em nome daquilo que a China tenta vender como um Mundo Harmonioso pós-hegemónico porque, num segundo momento, depois dos altamente previsíveis desalinhamentos internos, será tempo do tijolo cerâmico, com cada ordem a estabelecer os seus próprios princípios. Então, a Rússia vai impor a Ordem Eurasiana e a China expandirá a Ordem da Rota da Seda. Quanto à Índia, as elites terão de optar entre liderar a sua própria ordem ou tentar tirar proveito de alinhamentos pontuais e interesseiros com as outras ordens, enquanto o Brasil de Lula da Silva teimará na utopia de revisitar o espírito de Bandung e reunir o denominado «Sul Global», antes de se contentar com a condição de potência regional dominante. Finalmente, a Ordem Islâmica continuará à procura de uma potência liderante. Talvez por isso, a Turquia não tivesse passado a fazer parte dos BRICS.

Em conclusão, o recente alargamento, sem aprofundamento, por parte dos BRICS não passa de uma fase transitória a caminho do Mundo de Múltiplas Ordens. Os interesses individuais a impedirem a construção de um verdadeiro projeto coletivo.

Seja Apoiante

O Estado com Arte Magazine é uma publicação on-line que vive do apoio dos seus leitores. Se gostou deste artigo dê o seu donativo aqui:

PT50 0035 0183 0005 6967 3007 2

Partilhar

Talvez goste de..

VINHO A EXPORTAR

Jack Soifer,
Consultor internacional nas áreas da gastronomia e vinhos

Apoie o Jornalismo Independente

Pelo rigor e verdade Jornalistica