A revolução da linguagem

Susana Mexia, Professora de Filosofia

Os pensadores e as obras mais influentes nas atitudes da Nova Esquerda são submetidos a uma rigorosa análise no livro de Roger Scruton ” Tolos, impostores e incendiários – Pensadores da Nova esquerda, da Quetzal Editores, que analisa as mudanças do pensamento da Nova Esquerda desde 1989, e desconstrói alguns dos mitos do pensamento politicamente correto dos nossos dias.

Devemos o termo “Novilíngua” ao arrepiante retrato de George Orwell de um Estado totalitário ficcionado. Mas o aprisionamento da linguagem pela esquerda é bem mais antigo. Começou com a Revolução Francesa e os seus slogans. O que mais fascinou Orwell foi a Internacional Socialista e o ansioso envolvimento da intelectualidade russa. Desde o início que o movimento comunista tem lutado pela linguagem, apreciando as teorias marxistas porque, em parte, estas ofereciam rótulos para moldar as ideias de amigo e inimigo e dramatizar os conflitos entre ambos.

Os rótulos eram necessários para estigmatizar os inimigos internos e justificar a sua expulsão: os revisionistas, esquerdistas infantis, socialistas utópicos, sociais-fascistas e por aí em diante. O sucesso de tais rótulos a marginalizar e a condenar os opositores fortaleceu a convicção comunista de que podíamos mudar a realidade se mudássemos as palavras».

Hoje o “politicamente correcto” que invadiu a nossa realidade é a imagem da novilíngua do romance 1984, de George Orwell. Este livro descreve profeticamente um novo mundo submetido a um governo autoritário, onde as intervenções de caráter psicológico sobre os indivíduos são feitas pela criação de uma realidade fantasiosa, através de palavras com significados distorcidos originando uma nova linguagem para manipular consciências.

Dominar politicamente a linguagem é dominar o pensamento e escravizar a sociedade. Assim, através desta alteração, as palavras ganham novos sentidos, com uma carga emocional mais forte, colocando as pessoas em posições contraditórias e polarizadas, levando mesmo a conflitos irreconciliáveis.

A adulteração das palavras com a criação de novos sentidos, procura contornar a ética e o entendimento, tornando aceitáveis condutas, procedimentos ou acções que seriam prontamente repudiadas.

Género, comportamento, etnia, família e moral são os grandes alvos para a imposição de novos sentidos à linguagem. Género, que na gramática significa se uma palavra é masculina ou feminina, substituiu no “politicamente correcto” a palavra sexo, para desconstruir a ideia de sexo biológico masculino e feminino, cujo objetivo é descaracterizar a família tradicional. Assim nasceu a ideologia de género ligada a uma forte imposição e intervenção do Estado.

Naturalmente esta ideologia detesta toda a cultura, tende a apagá-la e a cercear a liberdade de pensamento, sabendo que têm a capacidade de desmascarar mentiras. A Verdade foi ocultada ou retirada, para só haver opiniões relativas.

Mudando os paradigmas, urgia mudar também a sua linguagem, diz-nos Marguerite Peeters, no seu livro “A Globalização da Revolução Cultural Ocidental”, dando alguns exemplos que nos podem ajudar a compreender melhor os conceitos que devem ser suprimidos nesta estratégia: Verdade, amor, caridade, marido, mulher, esposo, esposa, pais, pai, mãe, filho, filha, família, pudor, castidade, razão, inteligência, decência, esperança, fé, pecado, bem, mal, etc.

Assim, paulatinamente, fomos assistindo a uma vertiginosa transformação da linguagem, através da difusão instantânea e planetária dos meios de comunicação que, prepara a emergência do poder dos “engenheiros sociais”, passando a controlar e a manipular todos os indivíduos.

Mas será assim tão apocalíptico o cenário? Os filósofos protagonistas deste excesso laicista utópico, originaram também uma reação positiva na humanidade, ao regresso a uma sociedade menos egoísta, mais solidária, e consciente, de que o seu sentido de vida não é horizontal, mas vertical, não é imanente, mas transcendente, num apelo divino para ser mais e melhor.

O Homem sabe-se criado e amado, reconhece que não é um meio, mas um fim, não é um “que”, mas um “quem”, recusa ser uma marioneta nas mãos dos globais poderes invisíveis, mas pode exercer a sua liberdade e lutar por aceder aos valores transcendentes e magnânimos que lhe assistem.

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