Celebram-se neste mês de setembro os 30 anos de uma das melhores e maiores séries de ficção científica que chegaram aos ecrãs, dentro e fora da televisão, durante mais de uma década. No dia 10 de setembro de 1993 estreava a série X-Files.
Originalmente exibida pela Fox nos Estados Unidos entre 10 de setembro de 1993 e 19 de maio de 2002, e duas temporadas adicionais exibidas entre 24 de janeiro de 2016 e 21 de março de 2018.
Criada por Chris Carter tem como principais protagonistas David Duchovny no papel do agente do FBI Fox Mulder e Gillian Anderson no papel da cientista Dana Scully, os x-Files foram um sucesso sobretudo devido à originalidade temática.
Estávamos nos anos 90, uma década que começava pouco depois da queda do muro de Berlim, e logo conheceu o fim da União Soviética em 91, assim perdia o seu lugar como face do Outro, do mal, do equilíbrio da paz armada que marcava os anos da guerra fria.
Assim os temas e histórias na cultura popular começaram a reflectir esses tempos de (aparente) paz que se vivia no seio da sociedade americana. Esses temas passaram do inimigo estrangeiro para a introspeção, a desconfiança, a paranoia e questões mais existenciais que anunciavam a fragmentação.
O final da década é já muito profícuo nestes temas. No cinema apareciam filmes como a Beleza Americana onde o protagonista tem uma crise existencial e começa a questionar a sua vida e o que é realmente importante. Fight Club é outro destes filmes que demonstra a ansiedade colectiva, onde se questiona o peso da sociedade no indivíduo.
American Psycho é outro destes exemplos onde o protagonista é mais um igual aos outros na escada corporativa, que desenvolve uma esquizofrenia psicopata contra o seu quotidiano. E finalmente The Matrix, um filme cuja simbologia é toda ela marcada por esta temática de introspeção, desconfiança, paranoia e fragmentação.
X-Files já em 93 vem trazer estes temas todos e mistura-os contando histórias do sinistro, do macabro, das lendas e folclore, com um pano de fundo de uma conspiração global das elites que desde o final da segunda guerra mundial, guardavam segredos, entre eles, o contacto e interação com espécies alienígenas.
A estrutura da série foi também um sucesso, uma vez que apelava a dois tipos de público, aquele que queria seguir a verdade das conspirações governamentais e o outro que queria ser entretido com o “monstro da semana”.
Assim, X-Files, podia desenvolver o arco da sua história principal de uma forma lenta em que Mulder e Scully pareciam estar um passo mais perto dos segredos e ao mesmo tempo dar liberdade aos escritores e ao storytelling, onde cada episódio levava os protagonistas a locais insólitos e histórias fantásticas.
Porém, apesar desta estrutura paradoxal, os temas alimentavam o sentimento americano do inimigo interno, do desconhecido rural, nos recônditos das comunidades que existiam fora das grandes metrópoles facilmente vigiadas.
X-Files consegue quebrar algumas convenções e expectativas nomeadamente no que toca às questões de género. Mulder é um agente do FBI, mas é visto como um excêntrico e não como o típico protagonista masculino. Alem disso, faz uso da sua intuição, e não cede ao cinismo racional, substituindo essa narrativa pela vontade da crença, popularizada no poster do seu gabinete.
Esse cinismo e ponto de vista racional é dado a Scully que é primeiramente céptica a tudo o que sejam os temas mais prementes e relevantes para Mulder. Aliás, ela é posta como colega, no início da série, para vigiar e desacreditar tudo o que Mulder queira investigar. Ao longo da série e da sua viagem como protagonista, Scully acaba a ser moldada pelas descobertas e pelas consequências dessas investigações.
Embora a química entre as personagens principais seja evidente, X-Files não comete o erro da convenção comum de juntar os protagonistas num romance que tenta sobreviver a tudo. O romance, em termos práticos acaba por acontecer já nas últimas temporadas, mas de uma forma pouco explorada e sem grande importância em termos de demonstrações físicas de cariz sexual ou mesmo romântico.
Esta decisão, não sendo inteiramente original, utilizada em séries como Moonlighting, foi importante para manter a audiência sempre a querer mais, mantendo o paralelo entre o mistério do mundo externo às personagens, como seja a conspiração global e o mundo interno das suas relações pessoais.
O sucesso desta série também se explica pelo sentimento descontínuo dos episódios. Se alguns episódios, mais sérios, onde o drama a acção e incerteza eram os ingredientes principais, outros houve em que o ritmo era mais pausado e as histórias podiam ter tonalidades de comédia ou por outro lado uma vertente mais política. A isso se deve a capacidade artística dos actores, mas também dos escritores da série como Alex Gansa e Howard Gordon que mais tarde participam na série 24, ou mesmo Vince Gillian, o criador da série Breaking Bad.
X-Files é também das poucas séries que conseguiu a proeza de aparecer no grande ecrã, com dois filmes que fizeram justiça aos dois públicos fiéis à série, sendo que o primeiro é inteiramente dirigido aos fãs dos temas extraterrestres e o segundo é sobre o macabro da natureza humana.
Existiu também um spin-off com menos êxito, chamado de The Lone Gunmen, cujo nome é extraído de uma das maiores conspirações do imaginário americano, concretamente o assassinato de JFK. A série era uma espécie de continuação temática, mas desta vez protagonizada por um grupo de Nerds, e aqui entra a convenção do tema sob um grupo de técnicos e hackers que em X-Files salvam a vida de Mulder e que continuam na senda de desocultar segredos, dentro do seu próprio anonimato.
X-Files começa em 1993 e acaba em 2018, num mundo onde as conspirações e a desconfiança sobre a classe governamental já não são um tema marginal para ver numa série à noite, mas sim logo de manhã no conforto desconfortável de uma rede social pronta a explodir nos nossos telemóveis.
Poderá haver debate sobre a relevância da longevidade desta série, se devia ter acabado mais cedo antes do seu declínio. Porém, não haverá debate sobre o sucesso que teve.


