Crónica Pausa Mental. O pai ausente.

Bernardo Almeida

As consequências de um vazio nunca verdadeiramente preenchido.

Os pais são os nossos blocos edificadores, os primeiros modelos, primeiros pedestais idealizados e aqueles que nos orientam no rumo às nossas várias independências.

Porém, quando um destes criadores de alicerce diverso se abstém de manter esse papel, nós o futuro edifício, somos construídos de uma forma desequilibrada, e por isso cairemos, muitas vezes sem sequer nos apercebermos porquê.

A figura do pai ausente, aquele que trabalha e providencia, e que por essas razões está menos tempo na presença dos seus filhos, não se afigura como o modelo ineficiente se, quando está em família, imiscui-se nos processos de construção das personalidades dos filhos.

“Não há o pai ausente. Há o pai ausente dentro de uma série de variáveis à volta, como o tipo de mulher e mesmo o tipo de ausência”, diz a psicóloga Sara Lima de Barros, psicoterapeuta em Análise Bioenergética e terapeuta de família.

O meu pai era um misto entre o pai fisicamente ausente e aquele que quando estava em casa, era emocionalmente muito distante. Penso que, no seu entender, ele cumpria a função do “caçador” que vai buscar o sustento, deixando o “tira o cotovelo da mesa” ou o “come com a boca fechada”, para a minha mãe. E era normal.

No entanto, e como diz Sara Lima de Barros, “Há este sítio onde as crianças não se sentem gostadas, não se sentem importantes, e não são narcisadas de forma positiva”. Eu vivia muito neste espaço entre querer agradar o meu pai para que ele interagisse comigo, e para que em retorno eu me sentisse perto dele.

Este vazio era partilhado pela minha mãe, porque também com ela o meu pai tinha muitos momentos de distância emocional. Daí que muitas vezes, conforme esta dinâmica foi sendo vivida de forma normativa, nós filhos fomos sendo postos em papeis que não eram os nossos. Os filhos “são como que um bengala. É muito peso para os filhos, porque o pai não está”, atesta a psicóloga.

Havia sempre qualquer coisa em minha casa, uma espécie de silêncio pesado que a televisão ou os jogos de computador pareciam conseguir disfarçar, mas nunca apagavam, era como um quarto onde não se podia entrar e cuja chave não se podia pedir. “Há aquele pai que está em casa, mas está de trombas e cria alguma violência psicológica, onde nada chega e nada serve e a família está toda sempre em tensão”, clarifica Sara Lima de Barros. Ora bem, era isto.

Depois há esta questão da transferência da necessidade de um pai. Quando aquele que é o nuclear não preenche a sua quota-parte, a necessidade mantém-se, e claro que a procura por quem a preencha, também. Sara Lima de Barros sobre isso diz, “às vezes a necessidade de figuras de identificação é tão grande que as pessoas procuram modelos de referência grandes, tipo gurus, porque as pessoas precisam desses modelos”.

Eu tive vários. Procurei muitas destas figuras ou pais figurativos temporários. Tive sortes e azares nesses encontros. Dado a minha vulnerabilidade inconsciente, apareceram-me pessoas de todos os géneros.

Por vezes foram conversas curtas com desconhecidos cujas sabedorias me deram aprendizagens importantes. Outros houve que cortar devido à toxicidade envolvente. Um dos problemas dos “pais emprestados” é que eles ficam tão viciados nesses papeis, que também eles têm dificuldade em saberem o seu verdadeiro lugar, que no fundo é serem nossos amigos, não nos cortarem a nossa afirmação e pararem de nos tentar “salvar” de nós próprios.

A minha dinâmica de criança com o meu pai tinha ainda outro aspecto, que apesar das intenções, foi-me desastroso. Em tenra idade foi-me dito por vários adultos que eu era “mais qualquer coisa que as outras crianças” da minha idade. Até calhava bem porque, como o meu pai parecia que só me dava atenção se eu projectasse essa faceta, eu ficava feliz quando me diziam que eu era precoce. O problema era a consistência dessa faceta, que por um lado minava a infantilidade que era tão necessária, como criava expectativas impossíveis.

O exemplo mais paradigmático era a resposta do meu pai às minhas notas escolares. Eu era aluno de notas bastante elevadas, mas não tinha 20 em cada nota, ou 5, como era a classificação da altura. Na sabedoria que podia ter, o meu pai não celebrava a minha conquista, perguntava o porquê de, como eu era aluno para mais, onde estava o resto?

Lembro-me bem da minha crescente ansiedade ao receber notas de testes ou de período ou até de final de ano. Era dessa vez que eu ia finalmente agradar o meu pai e era nesse dia que ia dizer que gostava de mim. Por vezes consegui.

“O problema é que esse pai vai ficando dentro de nós”, diz Sara Lima de Barros. Essa internalização tornou-se, no meu caso, uma voz que eu infelizmente ouvi vezes sem conta. Essa voz, que é uma ressonância da minha relação com o meu pai, trouxe um problema ainda maior. É que eu estabeleci um vínculo totalitarista entre falhar e não ser digno de amor. O problema é que é impossível não falhar. A consequência maior deste vínculo é a que ainda hoje tenho muita dificuldade em tentar fazer coisas novas. O medo de não conseguir, ou seja, de falhar, foi por vezes tão forte que já desisti antes sequer de dar o primeiro passo.

Penso que num contexto terapêutico o objectivo, como que de um bom porto se tratasse, é chegar à conclusão simples (mas imensamente complicada) de quem eu sou, chega. Pelo menos para mim. “E com isso”, afirma a psicóloga, “eu posso tolerar que algumas pessoas possam não gostar de mim”. Eu acrescento que eu também poderei não gostar delas.

No fundo o que acontece é o resgate de nós que ficámos reféns dos vínculos que criámos, substituindo a nossa (minha) voz que nos atira para o chão das nossas imperfeições, por uma voz que nos cuida, que nos celebra e nos aceita.

E de repente, não era eu que não era o suficiente, e não sou eu que tenho de carregar o peso das vontades e ideias que outros fazem de mim.

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