A “prosa lenta” de Jon Fosse

Susana Mexia

Nascido em 1959, em Haugesund, no Norte da Noruega, Jon Fosse, o Prémio Nobel da Literatura de 2022, cresceu em contacto com a Natureza – o mar, o vento, as montanhas, a luz ou a falta dela. Aos sete anos, sofreu uma queda, hospitalizado, pela primeira vez, foi confrontado com a ideia de morte, a qual percorre muitos dos seus livros, incluindo Septologia I-II. Talvez aí tenha encontrado a sua vocação artística e semeado um certo misticismo que viria a envolve-lo na sua ligação à escrita.

Formou-se em Literatura Comparada na Universidade de Bergen, e publicou o seu primeiro livro em 1983, Vermelho, Preto, o qual foi um marco no seu percurso e o início de uma série de romances e novelas que o notabilizou no seu país. Também fez poesia, a partir de 1986 e, na década seguinte dedicou-se ao Teatro. A peça Alguém vai Chegar, foi encenada pela primeira vez em 1996.

Se o teatro já havia consagrado este escritor norueguês como uma das vozes mais singulares da literatura europeia das últimas décadas, este seu novo projeto literário reforçou esse estatuto, com elogios da crítica e inúmeros prémios. Na Noruega, o Rei Harald V atribuiu-lhe o usufruto de uma residência junto ao Palácio Real, uma das maiores honras concedidas a um artista do seu país. Na Escandinávia, já recebeu os principais galardões literários.

Regressar à prosa significou para Jon Fosse, conceder-lhe tempo, até para as narrativas mais pequenas. Na verdade, afastar-se da dramaturgia, aprendendo a recusar os muitos convites que recebia, também representou outra mudança na sua vida: deixar o hábito boémio que sempre cultivou, às vezes para lá dos limites. Houve períodos em que bebeu excessivamente, andava de viagem em viagem, de festival em festival. Alimentando a ideia de uma mudança internou-se numa clínica para abandonar o vício. A sua conversão ao catolicismo data desta altura, por volta dos anos 2012, 2013. Divorciado, encontrou, no decorrer deste processo, a sua segunda mulher e mudou radicalmente.

Se a vida recatada o ajudou a ter uma nova disponibilidade para a escrita, socorreu-se também da sua enorme experiência. Dessa forma, conseguiu converter uma dramaturgia frenética num murmúrio que se prolonga pelos dias e pelas páginas. Sentiu-se mais seguro na sua intimidade, esse lugar dentro de si no qual se recolhia como num abrigo para escrever, como se voltasse a ser o jovem de 20 anos cheio das possibilidades que outrora tinha.

Mergulhado na sua escuridão brilhante, escrever era escapar-se das suas circunstâncias, e partir em busca de qualquer coisa que o superasse, que fosse maior do que a vida.

Na sua “prosa lenta”, como Jon Fosse gosta de lhe chamar, O Outro Nome desafia a velocidade de alguma ficção contemporânea.

Os protagonistas de O Outro Nome são pintores porque Jon Fosse procurava um artista, alguém que se confrontasse, como ele, com o acto criativo. Ser um criador. Mas esta escolha também se pode explicar pela sua paixão antiga pela pintura, nomeadamente a pintura a óleo. Em jovem, soube desde cedo que estaria ligada às artes, pintou intensamente, hábito que hoje tenta recuperar.

As 1300 páginas de Septologia começam aqui, na afirmação da lentidão, que emprestava aos seus dias outra velocidade. Claro que antes houve um período de silêncio, três ou quatro anos em que não foi capaz de escrever uma linha.

Para o autor, escrever é uma outra forma de conhecimento, como a filosofia, o que talvez explique a inclusão de várias passagens, pensamentos, notas e apontamentos de quem viveu mergulhado numa escuridão brilhante.

O Outro Nome é um romance que desafia o leitor pela essência da arte e do divino, que o embala e confunde, num encantamento que tem tanto de poético quanto de musical. É um livro diferente, uma nova abordagem, plasmada nestas duas primeiras partes do romance Septologia, recentemente publicadas em Portugal pela Editora Cavalo de Ferro.

Seja Apoiante

O Estado com Arte Magazine é uma publicação on-line que vive do apoio dos seus leitores. Se gostou deste artigo dê o seu donativo aqui:

PT50 0035 0183 0005 6967 3007 2

Partilhar

Talvez goste de..

VINHO A EXPORTAR

Jack Soifer,
Consultor internacional nas áreas da gastronomia e vinhos

Apoie o Jornalismo Independente

Pelo rigor e verdade Jornalistica