A esquerda moribunda está em crise

Rui Gonçalves, Arquitecto

Mais de um milhão e cem mil portugueses puseram politicamente o país em alvoroço.

Já lá vai uma semana e em política, uma semana é imenso tempo, porque as coisas mudam a velocidade impressionante, tudo o que é hoje verdade, pode amanhã ser mentira, mas neste caso, nada mudou ainda, porque as feridas demoram a ser lambidas e os traumas a serem ultrapassados.

A esquerda está em transe absoluto, porque há muito tempo que não sofria um revés tão violento e quando pensavam ter abocanhado e estrangulado o Estado por completo, eis que o elefante entrou na sala e virou o jogo do avesso.

Eles perderam mais de 40 deputados, sim, quarenta e com eles, o sossego do bem bom em que estavam instalados há eternos nove anos, com maiorias de esquerda, a assassinar a nossa matriz identitária e a sociedade em geral, com a esquizofrenia ideológica que os caracteriza.

Mas afinal o enguiço quebrou-se, o país acordou, tomou consciência do caos e disse, (C)chega, a anos de decadência política, das instituições, da democracia e acima de tudo decadência da qualidade de vida e virou à direita, sem fazer pisca e pior, eles perceberam que aquelas tais maiorias de esquerda, foram perdidas por muitos anos. Como se não bastasse aquela desgraça e um mal nunca vem só, aquele que eles consideram como um “antro” de fascistas, xenófobos, racistas e homofóbicos, que é o CHEGA, teve mais de um milhão e cem mil votos, assim sem mais menos, aos quatrocentos mil que já existiam no dia nove de março à noite e que eles, na verdade, tinham a secreta esperança de que não seria possível aumentar, juntaram-se mais setecentos mil no dia dez à noite.

E foi assim que de repente, aquela gente foi invadida como que por ataques de caspa e escarlatina e uma semana depois ainda se coçam que nem tontos e trepam paredes, perdidos pela angústia e desespero em que mergulharam e não sabem agora o que fazer.

Estão literalmente desorientados, porque o orçamento do Estado que lhes servia de manjedoura, escapou-se e eles não sabem viver sem o dinheiro dos outros. Agora tentam todos os artifícios para darem sinais de vida, até aqueles grupelhos marxistas extremistas, de quatro ou cinco deputados cada, outrora partidos políticos, parecem baratas tontas e de facto não são baratas, são só tontas, uns em bicos de pés, a convocarem reuniões e cimeiras da tribo, outros a anteciparem moções de censura a “programas” de governo que não existem, nem ninguém conhece, outros ainda a vaticinar que talvez com os quatro deputados eleitos pelos círculos da Europa e Fora da Europa, possam inverter tudo isto e dar uma maioria de esquerda, pensando a matemática como parte integrante das receitas programáticas deles. Enfim, ninguém quer perceber o que lhes aconteceu.

O PS lá continua em profunda introspeção, saindo da toca só para cumprir os serviços mínimos e a tentar perceber as razóes de tudo isto, porque eles têm dificuldade em examinar a consciência, qual consciência? Se terá sido pela prova de incapacidade e incompetência que deram ao mundo, por terem caído pelo próprio pé, mesmo com uma maioria absoluta, ou por terem um vendaval de quase duas dezenas de casos de corrupção e afins, só dentro do governo, que os fizeram apodrecer de ganância, ou ainda porque degradaram os serviços públicos de forma tão profunda e vergonhosa, como nunca se viu em cinquenta anos de democracia, ou porque elegeram um secretário geral sem o mínimo jeito para o ofício, mas que um dia sonhou que tinha que ser primeiro ministro.

Eles não sabem, nem nunca vão perceber que o problema deles, são eles, a incapacidade deles, as ideias deles, a incompetência deles e não haveria nenhum problema se tudo isso não se refletisse de forma tão dramática na vidas dos portugueses.

É bom que fiquem afastados do Estado por muitos e longos anos, porque o povo e a democracia agradecem e, entretanto, que se cocem uns aos outros.

Mas note-se, os outros, que não se dizem de esquerda, os comentadeiros e a comunicação social em geral, não estão melhores, mas deixo para outro dia, porque vamos ter muito tempo.

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