ORFÃOS DE PAIS VIVOS OU FILHOS DESERDADOS?

Susana Mexia

O Dia Mundial dos Pais é celebrado anualmente a 1 de Junho, data proclamada através da Resolução 66/292 adoptada na Assembleia Geral das Nações Unidas de 17 de setembro de 2012. No dia 1 de Junho comemora-se também o Dia Mundial da Criança. Estas duas efemérides celebradas na mesma data levam a uma reflexão sobre a premência duma educação integral das nossas crianças e jovens.

François-Xavier Bellamy, um jovem filósofo francês, em 2014, publicou um ensaio sobre a crise da cultura e da sua transmissão intitulado “Os Deserdados”.  É um dos primeiros autores a denunciar uma “crise de transmissão cultural, de saber estar, de pertencer, de ser e de bem ser” na sociedade, lamentando que a Educação Nacional se tenha tornado “o sistema mais desigual de toda a OCDE”. Sendo um dos problemas mais graves da actualidade, os níveis de educação dos alunos estão a diminuir e alguns dos principais benefícios sociais que atribuímos à educação, como a paz social, a igualdade de oportunidades, o envolvimento e empenho cívico, um sentido de vida, de harmonia e integração social, vão escasseando anos após ano, dando lugar à violência, à desigualdade social e à anomia ou falta de objectivos e de regras com consequente perda de identidade.

Neste dia procura-se salientar o papel fundamental dos Pais na protecção, educação, desenvolvimento dos filhos e na formação da personalidade da criança. Como âncoras da família e base das nossas comunidades e sociedades, os pais têm o dever de proteger dos perigos, de cuidar das crianças, educá-las, formá-las e transmitir-lhes toda uma memória de família, de tradições, de bons costumes e de valores.

No dia 1 de Junho comemora-se também o Dia Mundial da Criança. Esta efeméride assinalou-se pela primeira vez em 1950 por iniciativa das Nações Unidas, com o objetivo de chamar a atenção para os problemas que as crianças então enfrentavam. Nesse dia, os Estados-Membros reconheceram que todas as crianças, independentemente da raça, cor, religião, origem social, país de origem, têm direito a afecto, amor e compreensão, alimentação adequada, cuidados médicos, educação gratuita, protecção contra todas as formas de exploração e a crescer num clima de Paz e Fraternidade.

Estas duas efemérides celebradas na mesma data despertaram em mim a reflexão sobre a premência duma educação integral das nossas crianças e jovens.

Sendo um dos problemas mais graves da actualidade, constatamos que os níveis de educação dos alunos estão a diminuir e alguns dos principais benefícios sociais que atribuímos à educação, como a paz social, a igualdade de oportunidades, o envolvimento e empenho cívico, um sentido de vida, de harmonia e integração social, vão escasseando anos após ano, dando lugar à violência, à desigualdade social e à anomia ou falta de objectivos e de regras com consequente perda de identidade.

Esta problemática tem sido objecto de muitas análises, mas não é fácil encontrar uma explicação ou solução que vá ao cerne do problema, identifique as suas causas e ofereça uma alternativa consciente e consistente.

François-Xavier Bellamy, um jovem filósofo francês, em 2014, publicou um ensaio sobre a crise da cultura e da sua transmissão intitulado “Os Deserdados”. Este livro teve um sucesso notável em França e foi traduzido em várias línguas, excepto em Portugal.

É um dos primeiros autores a denunciar uma “crise de transmissão cultural, de saber estar, de pertencer, de ser e de bem ser” na sociedade, lamentando que a Educação Nacional se tenha tornado “o sistema mais desigual de toda a OCDE”.

Ao questionar-se porque falha a educação Bellamy responde sem hesitação: porque se desistiu de transmitir a tradição cultural. “O ser humano é, por natureza, um ser de cultura, é através do encontro com o que o outro lhe transmite que realiza a sua própria humanidade”. Como a falta constitui a própria estrutura de nossa relação com o mundo, precisamos receber do outro aquilo que completa as nossas próprias faculdades. Sem os outros, nenhum ser humano pode realizar-se, ou sequer pensar. Assim, os pais, ao transmitirem valores e costumes aos filhos, não limitam a sua autonomia, mas “oferecem-lhes a condição essencial para que a sua liberdade nasça e cresça”.

O livro é claro, rigoroso e persuasivo. Pretende não apenas oferecer uma reflexão mais aprofundada sobre a crise da educação, mas uma alternativa inspiradora para pais, professores e responsáveis pelas políticas educacionais. É um dos livros mais valiosos sobre educação que foram escritos até agora neste século, é uma reflexão aguda sobre um fenómeno até então inédito na sociedade ocidental: a recusa em transmitir a própria tradição cultural às gerações futuras.

“É como se uma geração que se proibiu de transmitir não fosse capaz de entender que, ao recusar ter herdeiros, privando os seus filhos da cultura que recebeu, corre o risco de deserdá-los de si mesmos, de deserdá-los de sua própria humanidade.”

Os jovens precisam de verticalidade, algo que os eleve em relação à sua condição, que os ultrapasse, que seja maior do que eles”, e não de pretender ajudá-los com “a abolição da autoridade e tudo o que achamos que é demasiado difícil para eles”.

O autor, que pretende dar uma visão de cultura e educação e não dar conselhos pedagógicos, expõe as razões para o actual fracasso da educação: “há uma geração que desistiu de transmitir ao próximo o que lhe deveria dar, ou seja, todo o conhecimento, de pontos de referência, da experiência humana imemorial que constituem o seu património”.

François-Xavier Bellamy (Paris, 1985) completou os seus estudos secundários em Versalhes e dedicou-se à filosofia: em 2005 ingressou na École Normale Supérieure de Paris e em 2008 foi promovido ao concurso para a agrégation of philosophy.

Depois de ser membro de dois gabinetes ministeriais, voltou a leccionar em escolas secundárias, primeiro nos subúrbios de Paris e depois nas aulas de preparação para o concurso da Scuola Normale Supérieure.
Em 2013, fundou o Soirées de la Philo, em Paris, uma série de conferências de filosofia para o público em geral. Em 2008 foi eleito vice-prefeito (independente) de Versalhes e em 2019 membro do Parlamento Europeu, confirmado em 2024.

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