A Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 foi um enorme momento de graça. Importa não transformá-la num evento que dentro de uns meses se transforma numa memória mais ou menos longínqua, mas tem de ser um acontecimento de vida e de graça divinas na história pessoal de cada um que confere um novo rumo decisivo à história de cada pessoa. Bendito seja Deus por tudo o que vivemos estes dias!
O Papa Francisco trouxe uma mensagem importante para a vida cristã: a Igreja é mãe, é uma casa aberta para todos. Mas, temos de confessar, isto não é novidade nenhuma: também Jesus era conhecido por se dar com todos, e justamente por isso foi criticado (cf. Lc 15, 1-2). Como muitos criticavam Jesus, também muitos criticam o Papa, porque não entendem o que quer dizer com as suas palavras. Nesta Jornada, a ideia fundamental ficou sintetizada na expressão: «Todos, todos, todos» (Cf. Discurso, 03/08/2023). Algumas pessoas apressaram-se a querer entender nestas palavras do Papa um apelo a uma Igreja que abdica da sua própria identidade para se tornar numa ONG que não professa a presença de Deus na história e Cristo como caminho, verdade e vida, como se fosse uma religião global sem identidade própria. Obviamente, isso foi um abuso tremendo das palavras do Papa, que no voo de regresso a Roma o próprio Papa Francisco teve oportunidade de esclarecer.
A jornalista alemã Anita Hirschbeck perguntou ao Santo Padre como se podia entender a incoerência entre uma Igreja «aberta para todos» e uma Igreja «não igual para todos». Francisco começou logo por indicar uma questão metodológica fundamental nesta pergunta: «Faz-me uma pergunta de dois pontos de vista diferentes» (Texto da conferência de imprensa disponibilizado em italiano pelo serviço de imprensa do Vaticano: consultar aqui). Depois o Papa continua: «A Igreja está aberta a todos, depois existem leis que regulam a vida dentro da Igreja. E quem está dentro está de acordo com a legislação… O que me está a dizer é uma forma muito simplista de dizer: “Ele não pode fazer os sacramentos”. Isso não significa que está fechado. Cada um encontra Deus à sua maneira, dentro da Igreja, e a Igreja é mãe e guia cada um no seu caminho. Por isso não gosto de dizer: “Vem todo o mundo, mas você faz isso, você faz aquilo…” Todo mundo». Como com Jesus, as pessoas que se encontravam com Ele eram chamadas a várias formas de seguir a vida que Deus abre para cada um (cf. Lc 9, 57-62). Também hoje a Igreja é esta família aberta a todos em que cada um encontra o seu caminho, mas não se pode reduzir a pertença à Igreja à participação nos sacramentos. Esses são o grande dom de Deus, dom sagrado, para os quais se deve estar preparado para receber. Seria um erro colocar a moral acima da dogmática, assim os sacramentos têm valor por si, na medida em que são instrumentos de Deus para a vida da graça, e é necessário haver disposições pessoais para participar dos sacramentos.
Em seguida, continua o Papa Francisco: «Depois, cada um, na oração, no diálogo interior, no diálogo pastoral com os agentes de pastoral, procura o caminho a seguir. Por isso, fazendo uma pergunta: “por que os homossexuais?…“, não: todos. E o Senhor é claro: doentes e sãos, velhos e jovens, feios e bonitos, bons e maus – também a moral, é difícil, mas a moral também. Há como um olhar que não entende esse anúncio da Igreja como mãe e pensa nela como uma espécie de “empresa”, que para entrar tem de fazer isso, fazer desta forma e não de outra… Outra coisa é a ministerialidade na Igreja, que é o caminho para levar o rebanho adiante, e uma das coisas importantes é, na ministerialidade, acompanhar as pessoas passo a passo em seu caminho de amadurecimento. Cada um de nós faz esta experiência: que a Mãe Igreja nos acompanhou e nos acompanha no seu próprio caminho de amadurecimento. Não gosto de redução, isso não é eclesial, isso é gnóstico; é como uma heresia gnóstica, que hoje está um pouco na moda, um certo gnosticismo que reduz a realidade eclesial a ideias, e isso não ajuda. A Igreja é mãe, recebe todos, e todos entram na Igreja, sem publicidade, e isso é muito importante. Obrigado pela coragem de fazer esta pergunta. Obrigado». O Papa Francisco convida a ver a Igreja como sacramento de salvação, como sinal e instrumento de Deus para conduzir à vida divina. Há o caminho pessoal que cada um é chamado a percorrer para chegar a Deus e para conformar a sua vida com a vontade divina. Talvez para alguns seja mais rápido, para outros demorará mais tempo, mas a Igreja nunca pode abdicar de fazer esse caminho com cada pessoa.
Toda esta discussão mostra a força do que é a evangelização. O Papa Francisco desde o início do ministério petrino convida a Igreja a uma nova etapa evangelizadora. A Igreja é instrumento para conduzir a Deus pelo caminho da conversão, que só é possível com este acompanhamento pessoal. Se somos chamados a ser pescadores de homens, talvez hoje a pesca não se faça à rede, mas à linha. Pessoa a pessoa, coração a coração, para o encontro com Deus. E a JMJ é este acontecimento para o encontro com Jesus.


