1. O ataque perpetrado pelo Hamas no sul de Israel apanhou de surpresa os serviços secretos israelitas, algo que era considerado impossível face ao prestígio de que a inteligência israelita, especialmente a Mossad, gozava na arena internacional. As atrocidades cometidas pelo grupo terrorista, tal como o elevado número de reféns, deixaram em choque o mundo ocidental, enquanto eram celebradas em países que se recusam a reconhecer a existência de Israel.
Uma revisitação da situação vivida na sequência do 11 de Setembro de 2001. Daí que o líder iraniano, Al Khamenei, tenha mostrado o seu júbilo e afirmado que beijava as mãos daqueles que planearam o ataque ao regime sionista. Uma saudação que talvez também tenha destinatários internos, conhecido que é o apoio do Irão ao Hamas, tanto no que concerne ao financiamento, como no que diz respeito ao elemento bélico: treino militar, armamento e capacitação para a produção de arsenal.
2. Na visão ocidental, ou melhor, dos países que pertencem à ordem liberal, o ataque foi classificado como um ato de terrorismo religioso, anátema recusado pelos países muçulmanos e árabes que continuam a dar crédito à afirmação proferida por Yasser Arafat, segundo a qual não é terrorista quem luta por uma causa justa.
Uma posição que, na ótica desses países, encontra respaldo na Resolução 46/51 da Assembleia-Geral da ONU, datada de 9 de dezembro de 1991. Porém, no que concerne à visão assumida por Israel e pelos seus aliados, parece pertinente referir que não existe terrorismo religioso, mas sim terrorismo de motivação religiosa, uma vez que a finalidade do terrorismo é sempre do foro político. A regra das quatro fases do terrorismo global: anarquista, anticolonial, da extrema-esquerda contestatária e de motivação religiosa. Os detentores do poder – reis, colonizadores, líderes democraticamente eleitos e defensores do modelo de vida ocidental – vistos como os rostos de um sistema que os terroristas querem destruir.
3. A retaliação de Israel foi rápida e muito dura, como comprovam os constantes bombardeamentos, cerca de seis mil bombas em seis dias, o cerco a Gaza, nova revisitação, desta vez da tática medieval, com o corte de água, eletricidade e combustível, a proibição de entrada de qualquer ajuda humanitária e a exigência da retirada dos civis da parte norte para a sul da faixa, naquilo que os palestinianos – e não apenas o Hamas – e os seus aliados classificam como a terceira Nakba.
Uma retaliação que, nas duas primeiras semanas, não incluiu a invasão por terra, mar e ar da faixa de Gaza devido à existência de mais de duzentos reféns de duas dezenas de nacionalidades e à pressão exercida pelos aliados, com os Estados Unidos à cabeça, receosos do alastrar do conflito a nível regional e internacional. Um temor que explica as viagens oficiais a Telavive de Biden, Blinken, von der Leyen, Metsola, Sunak….
Uma ‘peregrinação’ destinada a reconhecer in loco o direito de Israel se defender, mas aconselhando a moderação necessária para não passar de vítima à condição de agressor acusado de crimes de guerra e de genocídio. Uma acusação que, no entanto, já é feita em praticamente todo o mundo árabe e muçulmano, por conta das medidas colocadas em prática do lado israelita.
O Hamas e os seus aliados têm revelado uma assinalável perícia no que concerne à difusão de desinformação, contribuindo para o aumento do ódio de uma opinião pública que já se sabia muito adversa a Israel. Uma opinião pública disponível para acreditar na autoria israelita do ataque ao hospital Al Ahli, mesmo que as imagens e as perícias técnicas apontem noutro sentido.
4. A realização da cimeira do Cairo, uma iniciativa do Egito depois de o mencionado ataque ao hospital ter inviabilizado o encontro de Biden com os líderes desse país e da Jordânia e com o representante da Autoridade Palestiniana, contou com a presença de vários primeiros-ministros, designadamente de Espanha, Itália, Grécia e África do Sul, e de chefes da diplomacia de países ocidentais, como os Estados Unidos e o Reino Unido, orientais, como o Japão, e, como era óbvio, de muitos países árabes e muçulmanos.
Talvez não seja abusivo afirmar que, mais do que um esforço no sentido de encontrar uma solução definitiva para o conflito, a cimeira representou uma via para que a ajuda humanitária começasse a entrar, ainda que a conta gotas, em Gaza, através da fronteira de Rafah, e uma oportunidade para o estabelecimento de laços ténues no sentido de abrir campo para negociações envolvendo as partes direta e indiretamente interessadas.
Partes que não incluem o Hamas, mas sim a Autoridade Palestiniana. Negociações difíceis, pois há apoiantes do Hamas, designadamente o Irão, que não apoiam outra solução a não ser a destruição de Israel. Um desejo que também colhe junto de parte da opinião pública dos países árabes/muçulmanos e das respetivas diásporas que se manifestam no Ocidente. Aliás, também em Israel há forças da extrema-direita que se opõem a essa solução e convém recordar que Netanyahu, então na oposição, não concordou com os Acordos de Oslo.
5. Voltando à cimeira do Cairo, a reunião terminou, como era expectável, sem qualquer declaração conjunta. Os dois lados permaneceram colados às suas posições de partida. Cruzando essas posições com o conflito na Ucrânia, percebe-se que os países ocidentais e da ordem liberal estabelecem um paralelo identificativo entre Israel e a Ucrânia, pois consideram ambos os países vítima de agressão externa, e entre a Rússia e o Hamas, vistos como agressores.
Porém, do lado árabe e muçulmano, a leitura é completamente diferente ao apontar para que Israel seja o agressor enquanto o povo palestiniano é visto como o irmão no sofrimento do povo ucraniano. Um diálogo de surdos. A regra habitual no início de qualquer processo visando a resolução de conflitos. A Diplomacia tem uma longa estrada e muitos túneis para percorrer.
6. Face ao exposto, não é pelo facto de os hebreus e os árabes serem povos semitas e de as três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – terem raízes semitas, que o conflito no Médio Oriente pode ser explicado por motivação religiosa. A causa é política e, evitando uma grande analepse, remonta ao não cumprimento da decisão da Assembleia-Geral da ONU, em 1947, da criação de dois Estados, um árabe e outro judaico, com administração internacional de Jerusalém.
A criação do Estado de Israel em 1948 e os vários conflitos que decorreram desde então, e que também incluíram países vizinhos, encarregaram-se de criar um campo fértil para a contestação a Israel, visto como potência ocupante da Palestina, até pela circunstância de contar com o apoio sistemático dos Estados Unidos.
A construção de colonatos israelitas sem enquadramento legal e a falta de condições de vida, tanto a nível das infraestruturas básicas como da economia, exponenciaram o desagrado e alimentaram a revolta sobretudo da faixa etária mais jovem. Num cenário de futuro incerto a curto prazo, no qual a invasão israelita de Gaza se apresenta como altamente previsível, ao contrário da certeza israelita do aniquilamento total do Hamas, pois a História mostra que os grupos terroristas se assemelham à hidra de Lerna, o que se vai passar em Gaza não fica em Gaza e acabará por ter repercussão a nível regional e internacional. Um dado a ter em conta no Mundo de Múltiplas Ordens que está em formação.


