Mas neste momento, triste para a nossa história democrática, não posso deixar de expressar o maior reconhecimento a António Costa, secretário-geral do meu Partido, que governou o país em condições adversas e críticas e que conseguiu o que todos diziam ser impossível.
Tenho um acordar difícil. Gosto de ter paz de manhã e tempo para ir acordando. Nem sempre é possível! Foi o caso de ontem. Acordei com as notícias das buscas na residência oficial do primeiro-ministro.
A manhã foi passando e o telefone começa a vibrar com alguma frequência. São as mensagens de muitos e muitas que não percebem o que está a acontecer. Na altura, dei por mim a pensar que, independentemente do que que resultasse das buscas na sua residência oficial, o primeiro-ministro iria encontrar-se sob um manto de suspeição sobre o seu nome.
Dá-se a reunião com o senhor Presidente da República. Segue-se a ida da Sra. Procuradora-Geral da República a Belém e, enquanto conversa com o PR, é emitido um comunicado do seu gabinete de imprensa.
Leram bem: emitido um comunicado do gabinete de imprensa.
Terei percebido bem? Como é que num momento destes, a Procuradora (que o é há tempo suficiente para ter a máquina oleada) tem uma atitude descuidada como esta. Descuidada, porque não percebeu que nada pode sair, num momento de extrema importância para a democracia portuguesa, sem a sua validação, ou seja com uma assinatura de quem é responsável pela instituição. Descuidada é o adjetivo mais simpático que encontro para este acontecimento.
E são as últimas duas linhas deste comunicado, que levam à demissão do primeiro-ministro que entendeu (e bem) que sobre o seu cargo não pode haver a mínima suspeição. E de forma brilhante, como sempre, atira para cima da justiça, da Sra. Procuradora e do Supremo Tribunal, a responsabilidade de provar que a frase, aquela frase, tinha ou tem, sentido.
E sobre isso vamos ver!
Claro que agora, em todos os cafés e em todas as conversas que se ouvem, vamos repetidamente ouvir que os políticos são todos uma vergonha, que todos roubam, blá, blá, blá.
A quem serve este discurso de lamaçal e de pântano político? À direita! Desejosa de se poder “vingar” do que António Costa propôs na sequência do ato eleitoral de 2015 em que, apesar de o PSD ter ganho as eleições, António Costa forma governo. Mas também, a uma certa esquerda… que, como sempre, não percebeu nada. Sempre no alto do pedestal, com a arrogância que os caracteriza, senhores da suprema sabedoria (temos disto no PS, também), julgam que agora chegou a sua vez.
O problema é que a chegar, chega o CHEGA (se tivermos eleições antecipadas), e os sindicatos e as confederações que tinham conseguido alguma paz social, que se “desembrulhem”! É a Vida!
Mas neste momento, triste para a nossa história democrática, não posso deixar de expressar o maior reconhecimento a António Costa, secretário-geral do meu Partido, que governou o país em condições adversas e críticas e que conseguiu o que todos diziam ser impossível.
Depois de os primeiros anos de reversão das políticas do “para além da troika”, o mundo foi assaltado por uma pandemia que obrigou o país a parar o tempo suficiente para empobrecer as famílias. Foram as suas decisões políticas que garantiram às pessoas, às famílias e às empresas, estabilidade. Foram dois anos de forte investimento público. Foram injetados milhões nas empresas (dinheiro dos nossos impostos) para garantir o pagamento dos salários às e aos trabalhadores! Essas decisões foram do primeiro-ministro.
Segue-se a guerra na Ucrânia. A subida dos juros pela política económica europeia. Mais recentemente, a guerra entre o Hamas e Israel. E ainda assim, um Orçamento de Estado que a direita não consegue desmontar, nem dizer que não cumpre a sua função.
Depois destes quase oito anos de enorme dedicação ao país, António Costa sai com a dignidade que o caracteriza. Sai demonstrando que no seu papel, mesmo de demissionário, a defesa das instituições democráticas, e a defesa do PS, partido fundador da democracia e que carrega o legado de garantir que a liberdade se continua a viver em Portugal, está acima do seu cargo!
Obrigada, António Costa!


