O mais do mesmo

Miriam Assor, Jornalista

A queda é grande mesmo se a escada for pequena. Os alcunhados negócios do lítio e do hidrogénio verdinho e a construção de um megacentro de Dados em Sines darão enxaquecas a quem ainda tiver um pingo de vergonha. António Costa, justiça lhe seja feita, tem; pediu desculpa por ter tido um chico nada esperto a chefiar-lhe o gabinete.

Não tem amigos , fez saber o ainda primeiro-ministro. Lento. Levou oito anos para descobrir essa solidão. Corajoso; decidiu acumular o ministério das Infraestruturas. É uma pessoa sem estômago delicado. Pedro Nuno Santos e João Galamba foram os protagonistas do seu imenso desgaste político e aí, está, António Costa com uma pasta extra cujos ex-ministros (só) lhe trouxeram problemas, e dos esdrúxulos.

Os dois demitiram-se, embora Pedro Nuno Santos tenha tido superior responsabilidade. Saiu, logo, sai a bem e bem. João Galamba manteve-se no posto de forma obsessiva, apenas quando soube que ia de vela, e não falamos de barcos, apresentou demissão. Já foi tarde. A aderir ao meio milhão da Alexandra Reis, secretaria de estado do Tesouro, e ao computador do assessor de Galamba, que deu direito a polícia e ao SIS, o Ministério Público reservou uma sobremesa limão.

O caso Influencer, um caso sério que investiga o licenciamento do centro de Dados de Sines. Sem brincar o Ministério Público documentou uma sistematização de toda a indiciação que deu frutos com cianeto; buscas na residência do primeiro-ministro, a detenções na aorta do poder executivo e à formalização de arguidos entre um bouquet de pedregulhos: ministros, líderes de instituições administrativas e de empresas do sector e, para conservar a tradição, autarcas, no meio do ensopado.

António Costa aparece nesta história real como uma espécie de peça fundamental para desbloquear determinados procedimentos. Não era como Ricardo Salgado o dono disto tudo, era chamado de Deus, o Deus não sabemos bem de quê, com um chefe de gabinete que escondeu 75.800 euros em envelopes , livros e garrafa de vinho na residência oficial do Primeiro-ministro. Este não é amigo, não. Nem o compadre.

Os indícios de corrupção e de prevaricação na investigação ruíram pela conclusão do juiz Nuno Dias Costa, mas não deixou cair as suspeitas de tráfico de influência e de oferta indevida de vantagem. Os presos deixaram de ver o astro-rei ao estilo quadriculado porque o dinheiro, embora lhes salve da cela, não lhes devolve a reputação e a honra.

A queda é grande mesmo se a escada for pequena. Os alcunhados negócios do lítio e do hidrogénio verdinho e a construção de um megacentro de Dados em Sines darão enxaquecas a quem ainda tiver um pingo de vergonha. António Costa, justiça lhe seja feita, tem; pediu desculpa por ter tido um chico nada esperto a chefiar-lhe o gabinete.

O cheiro da flor não vinha desconhecido. Assessor económico no governo de Sócrates onde criou relações milionárias com a Venezuela do ditador Maduro, quando Costa ganha as eleições chama-o para ser assessor, no estoiro do Galpgate, essa coisa linda de ter ido, com a esposa, à borla a Paris com bilhete para ver a seleção, uma oferta que não teve a decência de recusar da Galp, Vitor Escária diz adeus ao lugar que ocupava, mas voltaria, feliz, para ser o homem da confiança do chefe do governo.

É motivo de vergonha, evidentemente, Costa está certo, 98 ordenados mínimos no esconderijo quase nos seus olhos, contudo, já sabia o perfil. É assim, um país pequeno com tanta gente a pôr as mãos nos pudins e para as grades vão menos do que dedos de uma mão.

Dizem que à terceira é de vez. António Guterres demitiu-se em 2001, também José Sócrates, em 2011 e, neste Novembro quente de escândalos, António Costa. Talvez seja inspirador este caso para ser resolvido a questão socrática na justiça. O julgamento deve estar previsto para 30 de Fevereiro.

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