Janete Cravino. A Inteligência Artificial como Instrumento de Influência: Os Interesses Estratégicos dos Estados Unidos no Continente Africano

Janete Cravino, Investigadora de Relações Internacionais, especialista em Assuntos Africanos

Apresentação da Investigadora em Relações Internacionais, especializada em assuntos Africanos, Janete Cravino, na Talk ” Democracia e IA: Desafios na era Digital”, este sábado no Óbidos Parque – Hub Tecnológico. Uma organização do Magazine Estado com Arte.

 

A crescente centralidade da Inteligência Artificial (IA) na economia global, na segurança internacional e na competição tecnológica entre as grandes potências está a redefinir profundamente as dinâmicas do sistema internacional. Longe de constituir apenas uma inovação tecnológica, a IA emerge como um fator estruturante do poder contemporâneo, influenciando a capacidade dos Estados para produzir conhecimento estratégico, exercer influência política, proteger interesses económicos e assegurar vantagens militares.

África assume hoje uma relevância acrescida enquanto espaço de competição tecnológica e geopolítica, marcado pela crescente presença da China e da Rússia e pela disputa em torno do controlo de infraestruturas digitais, cadeias de abastecimento de minerais críticos e fluxos de dados.
Este artigo pretende defender que a IA não deve ser entendida apenas como um instrumento tecnológico, mas como um multiplicador de poder estratégico. A sua integração nas políticas externas e de segurança transforma os mecanismos tradicionais de influência internacional, permitindo aos Estados reforçar a capacidade de antecipação, melhorar os processos de tomada de decisão e consolidar posições de vantagem na competição global.

África como espaço de competição estratégica

A posição geográfica de África, localizada na interseção das principais rotas marítimas entre o Atlântico, o Índico e o Mediterrâneo, continua a conferir ao continente um elevado valor geoestratégico. Contudo, a sua importância ultrapassa hoje a dimensão geográfica, sendo igualmente determinada pela concentração de recursos minerais indispensáveis às tecnologias emergentes, pelo crescimento demográfico e pela expansão dos mercados digitais.

A intensificação da presença chinesa através de investimentos em infraestruturas, telecomunicações e mineração, bem como o reforço da influência russa em matéria de segurança e cooperação militar, conduziram Washington a redefinir a sua estratégia para África. Neste quadro, a IA constitui um instrumento privilegiado para reforçar a capacidade norte-americana de recolha e análise de informação, antecipação de crises, monitorização de riscos e apoio à formulação de políticas estratégicas.

A Inteligência Artificial como instrumento de projeção de poder

A aplicação da IA ultrapassa largamente os domínios tecnológicos, assumindo-se como um elemento transversal das políticas de segurança, diplomacia e desenvolvimento económico.
No plano político-diplomático, sistemas baseados em IA permitem analisar tendências eleitorais, identificar campanhas de desinformação, avaliar riscos de instabilidade institucional e apoiar processos de decisão através da análise de grandes volumes de informação. Estas capacidades reforçam a eficácia da ação diplomática e contribuem para uma atuação internacional mais rápida e informada.

No domínio militar, a IA potencia sistemas avançados de vigilância, reconhecimento, logística e comando operacional, permitindo integrar informação proveniente de satélites, sensores e comunicações em tempo real. Esta capacidade aumenta significativamente a eficácia operacional das forças armadas e melhora a resposta a ameaças híbridas, terrorismo e ataques cibernéticos.

Na dimensão económica, a IA desempenha igualmente um papel determinante na otimização das cadeias de abastecimento, na exploração sustentável de recursos naturais, na previsão de riscos de mercado e na melhoria da produtividade industrial. O acesso a minerais críticos — como cobalto, lítio, cobre e terras raras — assume uma importância estratégica acrescida, uma vez que estes recursos constituem a base material para o desenvolvimento das tecnologias digitais e da própria Inteligência Artificial.

A nova geopolítica da dependência tecnológica

A crescente incorporação da IA nas estratégias internacionais também coloca relevantes desafios para os Estados africanos. O risco de uma nova forma de dependência deixa de se limitar à exploração de matérias-primas, passando a incluir o controlo de infraestruturas digitais, plataformas tecnológicas, dados, algoritmos e capacidade computacional.
Consequentemente, o debate estratégico africano deve deslocar-se da simples adoção da IA para a construção de autonomia tecnológica. Tal implica investir na formação de capital humano, desenvolver centros nacionais de investigação, criar infraestruturas digitais próprias e estabelecer modelos de governação capazes de proteger os dados e os interesses estratégicos nacionais.
Sem estas condições, existe o risco de que o continente permaneça numa posição periférica na economia digital global, fornecendo recursos naturais e dados enquanto importa tecnologia, conhecimento e capacidade de inovação.

A IA tem vindo a transformar diversos setores em todo o mundo, oferecendo novas oportunidades de desenvolvimento económico, inovação e melhoria dos serviços públicos. No entanto, em vários países africanos, a utilização destas tecnologias também tem gerado consequências negativas a nível político (desinformação), económico e estratégico, sobretudo quando não existem mecanismos eficazes de regulação e supervisão.

No plano político, a Etiópia constitui um dos exemplos mais significativos. Durante o conflito em Tigray (2020–2022), os algoritmos das redes sociais contribuíram para a amplificação de discursos de ódio, desinformação e propaganda, favorecendo a polarização entre grupos étnicos e dificultando o acesso da população a informação fiável. Esta situação, não só agravou as tensões sociais como enfraqueceu a confiança nas instituições públicas.
Também na Nigéria, a utilização de conteúdos gerados por inteligência artificial, como vídeos manipulados (deepfakes), levantou preocupações durante processos eleitorais uma vez que estes materiais influenciavam a opinião pública, comprometendo a credibilidade dos candidatos e reduzindo a confiança dos cidadãos na transparência das eleições.

Outro aspeto preocupante prende-se com a utilização da IA para fins de vigilância. No Zimbabué, a implementação de sistemas de reconhecimento facial suscitou críticas por poder facilitar a monitorização de opositores políticos e restringir direitos fundamentais, como a privacidade e a liberdade de expressão. Situação semelhante verificou-se no Uganda, onde tecnologias baseadas em IA foram utilizadas para reforçar a vigilância das comunicações e das atividades de jornalistas, ativistas e membros da oposição, aumentando a capacidade do Estado para controlar a sociedade.

No domínio estratégico e da segurança, a Líbia representa um caso relevante devido à utilização de drones e sistemas militares com elevados níveis de autonomia durante o conflito armado. A integração de tecnologias de IA nestes equipamentos levanta questões éticas e jurídicas relacionadas com a responsabilização pelas decisões tomadas em contexto de combate e com o risco de intensificação dos conflitos.

De igual modo, no Sudão, a guerra civil tem sido acompanhada pela disseminação de propaganda e desinformação, produzidas ou amplificadas por ferramentas de inteligência artificial, dificultando o acesso da população a informação credível e condicionando a atuação das organizações humanitárias.

O conflito em Cabo Delgado, Moçambique, iniciado em 2017, resulta da conjugação de fatores políticos, económicos, sociais e religiosos. A insurgência é amplamente identificada como um movimento de inspiração jihadista, conhecido localmente por Al-Shabaab e posteriormente associado ao Estado Islâmico na África Central (ISCAP). A sua liderança e discurso assentam numa ideologia extremista, embora muitos dos seus membros tenham sido recrutados num contexto de pobreza, desemprego, exclusão social e falta de oportunidades económicas (coação).

Por outro lado, o Governo de Moçambique, perante a dificuldade em conter a insurgência, recorreu em diferentes momentos ao apoio de empresas militares privadas, frequentemente designadas como mercenárias. Entre elas destacam-se o Grupo Wagner, de origem russa, e a empresa sul-africana Dyck Advisory Group (DAG), que prestaram apoio militar ao Estado moçambicano.

Posteriormente, estas foram substituídas, em grande medida, por forças militares do Ruanda e da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), que atuam ao abrigo de acordos entre Estados.
Assim, quando se analisa o conflito em Cabo Delgado, é incorreto reduzi-lo a uma única explicação. A insurgência caracteriza-se essencialmente por uma matriz de radicalismo islamista, embora também explore as fragilidades económicas e sociais da região para recrutar combatentes.

Há ainda analistas que defendem que os interesses económicos ilícitos são uma parte importante do conflito e que este mais não será do que uma forma de se esconder o trafico de recursos naturais (madeira, rubis, ouro, marfim, entre outros) e o trafico de droga (Moçambique é atualmente uma rota de trânsito para drogas, sobretudo heroína proveniente da Ásia com destino a outros mercados.)
Estes exemplos demonstram que, embora a inteligência artificial ofereça inúmeras oportunidades para o desenvolvimento de África, a sua utilização sem regulamentação adequada pode produzir efeitos profundamente negativos.

Conclusão

A IA representa uma das principais variáveis estruturantes da competição internacional no século XXI. Para os Estados Unidos, constitui simultaneamente um instrumento de segurança nacional, de projeção de influência política e de consolidação da liderança tecnológica global. Neste contexto, África assume uma importância crescente não apenas pelos seus recursos naturais, mas também pelo seu potencial demográfico, económico e digital.

Todavia, a relevância estratégica do continente dependerá, em larga medida, da capacidade dos próprios Estados africanos para transformar os seus recursos em instrumentos de desenvolvimento, inovação e autonomia estratégica. A verdadeira questão já não consiste em determinar se África participará na revolução da Inteligência Artificial, mas sim em definir em que condições o fará: como mero fornecedor de recursos essenciais à economia digital ou como ator capaz de influenciar a governação tecnológica internacional e participar ativamente na construção da ordem global emergente.

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