A necessidade de defender um modelo de desenvolvimento económico menos dependente da intervenção e do controlo do Estado na economia, com uma carga fiscal menor e consequentemente menos castrante do investimento, da iniciativa privada e do crescimento, tem levado o centro-direita a descorar, no seu discurso político, a questão do combate à pobreza. E isso tem prejudicado gravemente a sua capacidade de penetração em franjas significativas do eleitorado.
Desde o início da democracia portuguesa, que o combate à pobreza é uma preocupação central na agenda política do nosso país, sendo um dos temas mais recorrentemente discutidos. Muito justificadamente, sobretudo tendo em conta os baixos rendimentos da maior parte da população, designadamente quando analisados à luz dos parâmetros dos países nossos parceiros na União Europeia.
Trata-se efectivamente de um dos mais graves problemas do nosso país, que merecerá por isso prioridade nas preocupações de qualquer dirigente político, independentemente do seu campo ideológico.
No campo do centro direita, o combate à pobreza está claramente inserido nas preocupações doutrinais quer da Democracia Cristã, quer da Social Democracia, em ambos os casos tendo como fonte da Doutrina Social da Igreja, que influenciou tanto o CDS como o PSD.
Embora o combate à pobreza e às desigualdades sociais faça inequivocamente parte do projecto político destes dois partidos, é um facto que não tem sobressaído com o necessário destaque e clareza no seu discurso ao longo dos últimos anos.
A necessidade de defender um modelo de desenvolvimento económico menos dependente da intervenção e controlo do Estado na economia, com uma carga fiscal menor e consequentemente menos castrante do investimento, da iniciativa privada e do crescimento, tem levado o centro-direita a descorar, no seu discurso político, a questão do combate à pobreza. E isso tem prejudicado gravemente a sua capacidade de penetração em franjas significativas do eleitorado.
Essa dificuldade de penetração é agravada pelo facto de o último governo PSD-CDS ter ficado com a triste fama de ter aumentado impostos e cortado benefícios sociais. Muito embora todos os eleitores saibam que tal só aconteceu na sequência da situação de bancarrota em que o anterior governo PS deixara o país – e foi ainda o governo do PS, demissionário, que teve que formalizar o pedido de assistência financeira à Troika – a recordação que ficou foi a de quem executou e deu a cara pelas medidas difíceis que nessa sequência tiveram que ser tomadas.
É por isso urgente para o centro-direita «completar» o seu discurso, abordando de forma directa o combate à pobreza, que é uma das principais preocupações de muitos eleitores, que enfrentam dificuldades. E deve fazer isso explicando-lhes o que poderá ser feito por eles no curto-médio prazo.
De sublinhar que a pobreza não consiste apenas nos seus exemplos mais graves, antes abrangendo uma larga parcela da população, que embora empregada, ganha menos do que o necessário para fazer face às despesas de uma vida condigna. Situação essa agravada pelos significativos aumentos de preços que se iniciaram com a pandemia, continuaram com a guerra na Ucrânia, e não parecem ter fim à vista.
Não basta dizer que se tomarão medidas para promover a recuperação da economia e que, uma vez feita essa recuperação, haverá mais dinheiro para distribuir; é necessário explicar ao eleitorado o que, de concreto, se fará entretanto para minorar as dificuldades que muitos portugueses atravessam.
O discurso político do centro-direta é, em suma, verdadeiro mas incompleto: muito embora seja verdade que Portugal tem muito a ganhar com o desenvolvimento económico e financeiro que adviria de um modelo de desenvolvimento baseado num maior dinamismo da iniciativa privada e num menor peso do Estado e dos impostos na economia, é preciso explicar também aos eleitores o que se fará no imediato, para ajudar a resolver os seus problemas presentes, que para muitos são prementes.


