Ao longo de três dias, o Chega realizou a sua convenção em Viana do Castelo. Uma cidade cuja parte final do nome era premonitória do que viria a acontecer na reunião de um partido que se considera em condições de proceder a um ataque visando a conquista do castelo do poder.
Por isso, a convenção, mais do que proceder à reeleição de André Ventura, o candidato único como é apanágio dos partidos populistas, serviu para o Chega tentar criar junto da opinião pública uma imagem de responsabilidade e credibilidade. Uma estratégia habitual desses partidos quando acreditam que é chegado o momento de abandonar a fase antissistema porque a chegada ao poder lhes parece possível.
Numa conjuntura de poder diluído, os populistas sabem bem a importância do tempo de antena em horário nobre e, como tal, nada na convenção do Chega foi fruto do acaso. Uma estratégia colocada em prática ainda antes do início da reunião. O anúncio de que o partido se preparava para dar guarida nas suas listas de deputados a nomes sonantes oriundos de outros partidos constituiu um terreno fértil para a curiosidade mediática. Uma curiosidade de que André Ventura soube tirar partido, optando por um desvendar do segredo a conta gotas. Uma tática destinada a capturar em permanência os holofotes mediáticos.
A forma mais segura de garantir o tempo de antena necessário para fazer passar a mensagem visando a responsabilidade e a credibilidade. Um desiderato que, no entanto, não seria atingido por inteiro.
Assim, numa conjuntura marcada pela reduzidíssima ou nula probabilidade de um partido vir a lograr a maioria absoluta, André Ventura ousou apresentar-se não como um possível parceiro minoritário num futuro Governo de direita, mas como candidato a primeiro-ministro.
Daí que tenha desvalorizado ou ignorado, sobretudo na segunda intervenção, o peso político do PSD e da ressuscitada Aliança Democrática ao optar por fazer de Pedro Nuno Santos – o neto do sapateiro – o seu adversário direto.
Uma ousadia excessiva tendo em conta que as sondagens conhecidas, malgrado reconhecerem ao Chega um assinalável crescimento nas intenções de voto, não são suficientes para que o partido melhore o terceiro lugar que atualmente ocupa. Um dado que não satisfaz André Ventura e, por isso, a análise das suas intervenções revelou uma aposta clara na identificação dos erros cometidos pelo partido ainda no poder. Uma forma de lograr credibilidade à custa da descredibilização alheia.
Mais uma prova de que Ventura domina na perfeição a estratégia do populismo cultural ou identitário: denunciar a corrupção e incompetência do sistema e aproveitar a onda do descontentamento social para se apresentar como o líder messiânico capaz de restaurar a normalidade governativa e recuperar o orgulho nacional nos seus símbolos e valores.
Daí a insistência nos problemas com que os portugueses se veem confrontados nas diferentes valências quotidianas, designadamente na saúde, no ensino, na segurança e na justiça, apesar de o Partido Socialista continuar a olhar para o país com lentes cor-de-rosa. Pelo meio, o nacionalismo fez questão de ir deixando várias marcas ideológicas. Aquelas em que os militantes presentes na convenção se reveem.
Assim, no que concerne à questão colocada no título, não restam dúvidas – que, aliás, nunca existiram – de que a convenção convenceu o eleitorado tradicional do Chega. A unanimidade da figura e do pensamento do líder é incontestável. A percentagem da reeleição de André Ventura – 98.9% – fará inveja a outros líderes populistas de maior nomeada internacional.
Porém, no que à opinião pública diz respeito, não é seguro que a convenção tenha convencido. Pelo menos na dimensão almejada pelo Chega e mesmo contando com o contributo de Pedro Nuno Santos que, a partir da Madeira, reagiu às propostas do Chega, classificando metade como impossíveis e a outra metade como inaceitáveis.
A colocação do enfoque no passivo da governação socialista, ainda que justificada pela realidade, não deixa de constituir uma marca do populismo antissistema. Mais grave ainda, várias promessas apresentadas denotam falta de reflexão que o realismo da respetiva exequibilidade exigiria. Se a nível interno do partido, as razões ideológicas dispensam as contas decorrentes da aposta numa alocação diferente de verbas, a nível geral, a coisa fia mais fino. A credibilidade não se reduz às contas certas, mas não as pode dispensar.
Encerrada a convenção, é tempo de André Ventura descer à realidade e tomar em boa conta as palavras daquele que é visto como o ideólogo do Chega, Diogo Pacheco Amorim.
De facto, o Chega não vai vencer as eleições e, como tal, na eventualidade de uma vitória da direita, a sua posição vai depender da diferença entre o peso eleitoral do PSD, ainda que rebatizado de AD, e do partido de André Ventura.
Uma realidade que vale também para o PSD. Independentemente das linhas vermelhas traçadas por Luís Montenegro antes do ato eleitoral. Depois de os portugueses se pronunciarem, caberá aos políticos dar cumprimento à vontade expressa nas urnas.


