Para Ana Cavalieri, investigadora e especialista de política americana no Instituto de Estudos Políticos ( IEP) da Universidade Católica ( UCP), Kamala Harris parece ser a “hipótese mais acertada em termos logísticos e legais” para os democratas, porque outro candidato não conseguiria reunir toda uma estrutura de campanha com o staff necessário em tempo útil das eleições americanas de novembro. Mas o histórico de Kamala Harris como procuradora da Califórnia “não abona a seu favor”, segundo a comentadora de política americana da SIC Notícias.
“Conseguir o número suficiente de voluntários dispersos por vários estados, era algo muito difícil de conseguir em poucos meses, uma vez que falta pouco tempo para as eleições”, adianta a investigadora que se encontra em Nova York em declarações ao Estado com Arte Magazine.
Kamala era a escolha “mais evidente” dos democratas, em termos financeiros para que o dinheiro da campanha pudesse ser transferido de forma automática. “É certo que os republicanos movam processos contra esta transferência automática de Biden para Harris,” diz a docente da UCP.
Numa das sondagens ainda antes da saída de Biden, Harris continuava a registar um dos piores índices de popularidade de qualquer vice-presidente a esta altura de um primeiro mandato. Com Biden a ter índicies de popularidade a rondar os 32%, a administração Biden é avaliada negativamente por uma parte significativa do eleitorado Americano.

Algumas administrações norte-americanas dão muito poder ao vice- presidente, mas não foi este o caso de Kamala Harris. Dick Cheney é exemplo de um vice-presidente, da adminitração Bush, com muito poder e uma “influência proeminente. Neste caso não é verdade, sabe-se que o staff de Biden e o staff de Kamala Harris não tinham uma relação harmoniosa. Mesmo que agora queiram dar essa imagem,” segundo a investigadora.
Na única pasta que lhe foi dada, a Imigração, é considerada uma pasta falhada, ao nível da performance dos democratas, justifica a especialista em política americana, que diz que “não vai servir a seu favor”.
Acresce o facto de Kamala Harris ter histórico como procuradora da Califórnia, nas últimas presidenciais em 2020, em que disputou primárias contra Biden, Tulsi Gabbard uma congressista do Havai, com um perfil muito sonante, conseguiu destruir a campanha da Kamala Harris num minuto num debate nas primarias. Quando disse que Harris era muito dura por ter um histórico de instaurar processos criminais contra afro-americanos com posse de droga leves, e por não ter, alegadamente, partilhado voluntariamente com a defesa provas que inocentavam um homem que estava no corredor da morte, tendo-o apenas feito quando foi obrigada pelo tribunal.
“É algo que num eleitorado que pode ter algum peso, e espera-se que Kamala Harris consiga seduzir este eleitorado, por ter origens afro-americana por parte do pai,” explica.
Moralmente e legalmente esta sua prestação como procuradora neste caso “pode ser algo que pode chocar com a sensibilidade de muita gente”, comenta Cavalieri, resta saber como se consegue defender destas acusações.
Os swing states da vitória de Kamala
Biden tinha facilidade maior no rust belt, a cintura industrial americana, porque Biden é da Pensilvânia, tem alguma relação com a classe trabalhadora e operária americana, já Kamala Harris não tem. Por outro lado, pode movimentar com mais entusiasmo o eleitorado feminino e das minorias étnicas, esta coligação deu a vitoria ao Obama.
Significa que provavelmente o caminho para a vitoria de Kamala Harris não vai ser o rust belt, os três estados da Pensilvânia, Winsconsin e Michigan, mas vai antes ganhar devido aos swing states do sun belt, neste caso Arizona, Nevada e Georgia. “Sendo que em Arizona e Nevada o tópico da imigração vai ser muito importante”, defende a especialista.
A encruzilhada de Biden e do partido democrata
A desistência de Biden parecia inevitável pelas más sondagens nos swing states, e também por sondagens que indicavam que ⅔ dos democratas não queriam que ele fosse candidato de novembro, acredita Ana Cavalieri.
Em novembro para além das presidenciais, vão haver eleições para o Senado e Câmara dos representantes, que estão muito concorridas e os democratas que estão a concorrer a esse lugares podiam sofrer se Biden não desistisse.
O partido Democrata estava numa encruzilhada e decidiu agir com as figuras de topo com os nomes mais influentes, justifica Ana Cavalieri, depois da performance de Biden ter ocorrido e” juntamente com as sondagens resolveram tornar publico aquilo que privadamente estavam a dizer, através de fugas de informação ao Washington Post”.
“A narrativa de que Biden é um homem que se está a sacrificar com um puro espírito de abnegação, de quem põe o partido e o país à frente, não parece coincidir com a realidade, Biden é um homem que não queria sair e que foi coagido a desistir pela cúpula de poder do partido democrata e por pressão dos grandes financiadores da campanha democrata, que começaram a por duvidas e a congelar os fundos fundamentais para a campanha,” diz Cavalieri.
Biden chegou a um ponto que “não tinha hipótese”, não tinha viabilidade como candidato e teve de sair. A pressão foi tanta que era impossível manter toda a estrutura de campanha.
Os líderes do partido fizeram uma avaliação da situação que estava desastrosa para os democratas, e tentaram agir antes da Convenção Democrata em agosto.
A Declaração eletrónica ( virtual call) que vai decorrer na 1 semana de agosto, antes da Convenção Democrata, vai servir para garantir o nomeado democrata que aparece em alguns boletins de voto.


