Desde início da guerra da Ucrânia que foram sucessivas as esperanças de uma relativamente rápida derrota da Rússia, fosse pela força das armas, das sanções, de uma acção da oposição russa, ou de algum golpe palaciano. Essas esperanças têm vindo a gorar-se umas atrás das outras, sobretudo desde que os EUA, ao suspenderem o apoio militar á Ucrânia durante cerca de seis meses por força do bloqueio dos Republicanos, debilitaram gravemente o esforço de defesa ucraniano.
Uma das expectativas que se gorou foi a de isolar internacionalmente a Rússia. Importa tentar perceber porquê, uma vez que, aos nossos olhos ocidentais, à primeira vista não deveria ser difícil obter consenso internacional na condenação de um agressor.
Quer a África quer a América do Sul têm compreensíveis ressentimentos contra o Ocidente. Ambos se ressentem contra a Europa pela colonização, sendo que a América do Sul também tem ressentimentos contra os EUA por estes terem tido uma política intervencionista naquele continente durante a guerra fria, combatendo as revoluções de inspiração comunista que eclodiram em vários países locais. Moscovo e Pequim têm, por isso, influência sobre todos estes países, com quem mantêm laços desde a época da Guerra Fria.
Por outro lado, a India, para além das más memórias da era colonial, encontrou na Rússia um aliado em comum com a China (desde de que se deu a aproximação entre estes dois países), o que ajuda a minorar e mediar as tensões entre India e China, que são conhecidas.
Se os EUA nunca fizeram qualquer tipo de contrição ou reaproximação ao agora chamado Sul Global, a Europa, traumatizada pela descolonização e pelos sentimentos de culpa que sua esquerda continuamente lhe incute, tem ao longo das últimas décadas gasto rios de dinheiro em apoio aos países em vias de desenvolvimento, sobretudo em África. Atitude meritória, mas que tem surtido menos efeitos do que os que seriam de esperar, seja ao nível da melhoria de vida das populações africanas, seja ao nível das relações políticas entre os estados europeus e africanos.
Com efeito, apesar do investimento da Europa em apoio ao desenvolvimento de vários países africanos, muitos destes preferem aproximar-se da Rússia ou da China. Um dos motivos – para além das razões históricas já acima referidas – terá provavelmente que ver com o facto de que os apoios oferecidos por aquelas potencias não vêm acompanhados de cláusulas de boa governação, ou seja, de exigências relativas a democraticidade e direitos humanos, que costumam estar incluídas nos programas europeus de apoio ao desenvolvimento.
Em suma, ao contrário da Europa, a Rússia e a China não estão preocupadas com o tipo de regime ou com as questões internas dos estados com quem negoceiam. Consequentemente, não fazem exigências nesses domínios.
Ao invés, o Ocidente vive na ilusão de que os seus valores, centrados no respeito pela dignidade humana, são universais porque plasmados na Carta das Nações Unidas e noutros instrumentos de direito internacional. Mas embora tais valores não sejam exclusivos do Ocidente, existem muitos países no Mundo que não os partilham, ou que pelo menos não lhes atribuem o mesmo lugar cimeiro na escala hierárquica dos valores.
Por isso, quando a Europa inclui nos seus programas de apoio ao desenvolvimento exigências de boa governação, as mesmas são entendidas pelos estados destinatários como ingerências nos seus assuntos internos, que os mesmos interpretam como manifestações de neo-colonialismo.
Muitos estados do chamado Sul Global não estão especialmente interessados na melhoria do nível de vida das suas populações, ou na progressiva democratização dos seus sistemas políticos. Duas coisas que as «elites» – entre aspas, porque para merecer essa designação teriam que cumprir outros requisitos para além da ocupação de posições de autoridade ou domínio – desses países consideram contrárias aos seus próprios interesses.
Essas «elites» estão interessadas, pelo contrário, na preservação do status quo vigente, que as serve bem, o que implica a manutenção de uma população desprovida de meios ou de instrução. Quando têm que se preocupar com a sobrevivência, as pessoas têm menos propensão para pensar em política.
Como auxiliar as populações desses países nas suas legítimas aspirações a uma significativa melhoria das condições de vida é uma questão complexa: algo tem sem dúvida que ser feito, mas prescindir das cláusulas de boa governação não parece eticamente viável, sendo que por outro lado estará a ser contra-producente.


