É nos livros que se esconde a riqueza da linguagem, tanto a nível sintático como lexical. Quando falta a leitura a linguagem sofre, porque está na base de uma parte essencial da nossa capacidade de raciocinar, compreender, criticar, analisar e aprender.
A 18 de Julho de 1925, sete meses após a sua libertação da prisão de Landsberg, o líder nazi Adolfo Hitler publicou o primeiro volume do seu manifesto pessoal, Mein Kampf (A Minha Luta). Ditado por Hitler durante a sua estadia de nove meses na prisão, é uma narrativa amarga e densa, cheia de alusões anti-semitas, desdenho pela moral, veneração pelo poder e o esboço dos planos de dominação nazi do mundo. A obra autobiográfica tornou-se rapidamente a bíblia do Partido Nazi alemão.
«Durante séculos, os tiranos fizeram da destruição das obras literárias uma prioridade constante e absoluta. Os nazis são um triste exemplo disso. Só eles destruíram mais de cem milhões de livros. Oficialmente o objectivo era preservar o “espírito alemão”, impedindo, como escreveu Hitler em Mein Kampf, que através da “literatura barata e da imprensa de esgoto, dia após dia, embalagens inteiras de veneno fossem despejadas sobre o povo”. Obviamente, o objectivo era muito mais maquiavélico. O que se pretendia era nada menos do que a aniquilação dos instrumentos fundamentais do pensamento.
Neste contexto, a purificação do corpus literário consistia em assegurar o apagamento das âncoras memoriais, conceptuais e culturais, sem as quais nenhuma actividade reflexiva frutífera poderia ser conduzida. Este controlo é ainda mais fácil de estabelecer quando a destruição das obras é inevitavelmente acompanhada de uma pesada perda intelectual, sobretudo em termos de linguagem. É nos livros que se esconde a riqueza da linguagem, tanto a nível sintático como lexical. Quando falta a leitura a linguagem sofre, porque está na base de uma parte essencial da nossa capacidade de raciocinar, compreender, criticar, analisar e aprender.
Em Mein Kampf o ditador nazi procurou reduzir a língua a uma pobreza extrema de pensamento àqueles que ele apelidava “a grande massa”, uma espécie de multidão impressionável, crédula e imbecil, cuja capacidade de assimilação era muito limitada e a compreensão muito reduzida.
A esterilização do pensamento foi muito bem analisada por Ray Bradbury no seu livro Fahrenheit 451, publicado em 1953, onde os livros são sistematicamente queimados para sufocar qualquer indício de reflexão ou pensamento.
Também George Orwell na sua obra 1984, publicada em 1949 nos alerta para o despojo da capacidade de pensar como forma de mutilação da realidade, sem memória, sem raízes, sem linguagem. Todos os livros foram destruídos, falsificados ou reescritos novamente. Surgiu então a novilíngua cujo objectivo era restringir os limites do pensamento porque não havia palavras para o exprimir.
“Admirável Mundo Novo” uma fantasia escrita em 1932, na qual George Orwell, nos revela a monstruosidade a que se pode chegar, quando uma casta selecionada, escraviza um rebanho amorfo e intelectualmente amputado, saciando-o com divertimentos inúteis, privado de emoções pela força de uma droga artificial e incapaz de sentir e compreender o horror e a servidão em que a sua vida foi transformada.
Se à partida estas obras podem parecer distopias sinistras, um facto é que se nos dedicarmos a compreender e a compará-las com o presente, encontramos muitas semelhanças verdadeiramente preocupantes.
O fardo negro de ser sem pensar, de existir sem viver sofrendo nas mãos dos outros, torna-nos conchas vazias, seres degradados, privados de humanidade, vaticinava Victor Hugo…
As sociedades ocidentais devem o seu grande desenvolvimento aos livros. Os grandes tiranos pretenderam destruí-los, considerando-os uma ameaça à sua loucura pelo poder.
Hoje, porém, às nossas crianças e jovens é-lhes preparada uma forte privação de leitura, estrategicamente substituída pelas plataformas digitais, ecrãns gigantes, publicidades arrebatadoras, toda uma estratégia consumista com intenção de bloquear, anestesiar, embrutecer e dominar. Já não sendo apanágio das ditaduras estendeu-se com sucesso a outras formas de governos, que aparentemente neutros agem de forma semelhante… (texto inspirado em “Ponham-nos a Ler”, de Michel Desmurget).


