Aga Khan. Khalid Jamal: “Perdemos um grande homem e estadista e um amigo de Portugal”

Estado com Arte Magazine

 O líder espiritual dos muçulmanos xiitas ismailis morreu na terça-feira, 4 de fevereiro, aos 88 anos.  O filho, príncipe Rahim, de 53 anos, é o sucessor de Aga Khan, foi nomeado pelo pai em testamento, conhecido 24 horas após a morte do príncipe dos ismaelitas. As cerimónias fúnebres decorrem no sábado em Lisboa. No dia  9 de fevereiro, o corpo será transportado para o mausoléu da família, em Aswan, no Egito, onde está sepultado o antecessor, Aga Khan III.

Nasceu a 13 de dezembro de 1936 em Genebra. Era o filho mais velho do príncipe Aly Khan e de sua primeira mulher, Joan Yarde-Buller, passou a infância em Nairóbi, no Quênia, e frequentou o Institut Le Rosey, na Suíça, formou-se na Universidade de Harvard em 1959 com um diploma de bacharel em História Islâmica.

Fundou há mais de 50 anos a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento , com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos necessitados – independentemente de origem, raça, gênero ou religião – por meio de esforços em saúde, educação, habitat, cultura e criação de oportunidades econômicas, segundo noticia o site da comunidade ismaelita.

Khalid Jamal, membro do Observatório do Mundo Islâmico e Senior Advisor da Comunidade Islâmica de Lisboa diz que “perdemos um grande homem e estadista e um amigo de Portugal.”

Khalid Jamal, membro do Observatório do Mundo Islâmico e Senior Advisor da Comunidade Islâmica de Lisboa ao Estado com Arte Magazine diz que o falecimento do Hazar Imam “é uma triste notícia e motivo de profunda consternação para todos os homens e mulheres de boa vontade que viam em sua Alteza uma referência global de espiritualidade, elevação e humanismo.” A seu ver “perdemos um grande homem e estadista e um amigo de Portugal.”

O Imam deixa atrás de si um legado como patrono de educação dos mais pobres e mecenas das artes nos 5 continentes.

Aga Khan era o Imam dos muçulmanos xiitas ismaelitas. Os ismaelitas pertencem ao ramo xiita do Islão, uma das duas principais interpretações do Islão, sendo os sunitas a outra. Como todos os muçulmanos, os ismaelitas acreditam que o Profeta Muhammad foi o último Profeta de Allah, e que o Alcorão Sagrado, a mensagem final de Allah para a humanidade, foi revelada por meio dele.

Era “um líder inspirador, estadista talentoso e grande humanitário, o Aga Khan personificou a compreensão, a tolerância e o ecumenismo partilhados pelas grandes religiões do mundo,” em nota no site da comunidade ismaelita.

Os esforços pessoais do Aga Khan ao longo de seis décadas desempenharam um papel vital em trazer a paz a um mundo fragmentado, facilitou conversas diplomáticas em nível regional e global, incluindo a cúpula histórica de 1985 entre os presidentes Reagan e Gorbachev em Genebra.

Ao longo de sua vida defendeu a visão do Islão como uma fé espiritual e pensante: que ensina compaixão e tolerância e que defende a dignidade da humanidade. O pluralismo – a aceitação e celebração da diversidade – formou um pilar central do trabalho do Imamat Ismaili.

Em parceria com o Governo do Canadá, Aga Khan fundou o Centro Global para o Pluralismo em 2006. O Centro trabalha com líderes políticos, educadores e construtores de comunidades em todo o mundo para ampliar e implementar o poder transformador do pluralismo.

O avô foi duas vezes presidente da Liga das Nações e o seu tio foi um alto comissário da ONU para refugiados.  Aga Khan preocupava-se com o desenvolvimento contínuo de comunidades e sociedades, incluindo, mas não se limitando a, a sua própria. Isso resultou da responsabilidade do Imam, como ele a via, de ajudar a melhorar a qualidade de vida das populações mais vulneráveis.

A  saber a AKDN:  gera eletricidade anualmente para 10 milhões de pessoas, fornece assistência médica a 5 milhões, educa 2 milhões de estudantes e recebe 5 milhões de visitantes em seus parques e jardins. Com um orçamento anual de aproximadamente mil milhões de dólares para as suas atividades sem fins lucrativos, as agências da AKDN empregam cerca de 96.000 pessoas, a grande maioria das quais são asiáticos e africanos que vivem e trabalham nos seus países ou regiões de origem.

A AKDN está ativa em mais de 30 países, com um foco particular em algumas das partes mais pobres da Ásia e Africa.

Mecenas nas Artes

O Aga Khan estava profundamente envolvido nas questões artísticas e culturais e estabeleceu programas e iniciativas para apoiar a arquitetura, a música e a conservação. O Prémio Aga Khan para a Arquitetura – criado em 1977 e com um prémio de 1 milhão de dólares – é atribuído de três em três anos a projetos que estabelecem novos padrões de excelência em arquitetura, práticas de planeamento, preservação e arquitetura paisagística.

Enquanto o Programa Aga Khan para a Música promove o desenvolvimento do património musical em sociedades onde os muçulmanos têm uma presença significativa. O Programa Aga Khan para as Cidades Históricas apoia a execução de projetos de restauro e conservação e a criação de parques e jardins, como o Parque Al-Azhar no Cairo.

Sublinhando o seu compromisso com a preservação da herança muçulmana, em 2014 inaugurou o Museu Aga Khan em Toronto, que alberga mais de 1.000 obras-primas que mostram as artes das civilizações muçulmanas.

Títulos reais e honras

De acordo com o reconhecimento concedido aos três Aga Khans anteriores pelos monarcas britânicos, a Rainha Isabel II concedeu o título de Sua Alteza ao Aga Khan IV em 1957. Em reconhecimento às suas contribuições excepcionais para o desenvolvimento humano e para a melhoria das condições sociais das sociedades em todo o mundo,  Aga Khan recebeu distinções de honra da França, Portugal, Quênia, Canadá, Reino Unido, Irã, Índia, Paquistão e Senegal.

Recebeu 44 prémios internacionais, incluindo cidadania canadiana honorária e o Prémio Campeão da ONU para Mudança Global, e recebeu 24 títulos honorários de instituições importantes como Cambridge, Harvard e McGill.

As cerimónias fúnebres do príncipe Aga Khan IV serão realizadas no próximo sábado, 8 de fevereiro, em Lisboa. Apesar de ser um evento privado, espera-se a presença de centenas de convidados, entre os quais familiares, representantes da classe política portuguesa, chefes de estado e líderes da comunidade ismaili, adianta o Observador.

No dia seguinte, 9 de fevereiro, o corpo será transportado para o mausoléu da família, em Aswan, no Egito, onde está sepultado o antecessor, Aga Khan III.

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