A comunicação do governo falhou em todas as frentes: no tempo; na clareza e na eficácia. Os esclarecimentos do Primeiro-ministro sobre a sua empresa Spinumviva deveriam ter sido realizados imediatamente após a divulgação da notícia com uma lista de justificações alicerçadas num eficaz spin de mea culpa. A única estratégia de comunicação que se verificou foi a da espiral do silêncio que, apesar de muitas vezes constituir uma boa técnica de contenção mediática, desta vez foi uma mola autofágica sem retorno possível.
O plano de comunicação de crise e gestão reputacional foi pobre e pouco imaginativo. Resumiu-se a: há dúvidas sobre a idoneidade do líder do governo? Então vamos a votos. E foi arriscado. Só uma comunicação transparente e inequívoca teria clarificado a legalidade de todo o processo: existiu ou não incompatibilidade de funções? Era legalmente possível a Montenegro regressar à política continuando com a empresa que tinha criado nas mãos do seu núcleo familiar, com sede na sua própria casa? Era possível ao seu núcleo familiar continuar a receber avenças mensais de grupos empresariais com interesses diretos em futuras decisões do governo? Que serviços a empresa prestava, exatamente, e quem os realizava? Estas e outras questões ficaram por responder e todos beneficiávamos com o seu inequívoco esclarecimento.
Colocar nas mãos dos cidadãos o poder de “fiscalização” da legalidade dos atos praticados pelos políticos pode ser perigoso já que o voto tem também um elemento de “paixão” que pode cegar o discernimento. A sociedade civil e os meios de comunicação social têm a nobre missão de tornar o poder e os seus protagonistas responsivos e responsáveis, mas não devem ser chamados para a “validação de procedimentos” e da sua legalidade.
A fita do tempo desta crise é cheia de acontecimentos e cenários previsíveis. O parlamento chumbou duas moções de censura ao governo: uma apresentada pelo CHEGA e outra pelo PCP. Ainda assim, permanecem as dúvidas sobre o Primeiro-ministro e, perante o cenário de ingovernabilidade, o governo responde com uma moção de confiança a ser apresentada ao parlamento nos próximos dias.
Pelos prévios anúncios dos partidos da oposição, a moção de confiança será chumbada e o governo ficará refém da decisão do Presidente da República que não hesitou em colocar já na sua agenda as datas possíveis para as próximas eleições legislativas. E assim parece que não restam quaisquer dúvidas: a comunicação do governo falhou e nós vamos a votos.


