O PSD não precisava de ter apresentado uma moção de confiança. E o PS, se ao contrário do que diz não quisesse eleições, podia ter-se abstido nessa moção, e teria tido a Comissão Parlamentar de Inquérito que tanto ambicionava, sem qualquer negociação ou condicionante. Ambos são, pois, responsáveis pela ida precoce a eleições.
Vamos novamente para eleições, sem necessidade, e por culpa dos dois partidos de quem se esperaria maior sentido de estado e de responsabilidade.
Os pretextos são quase anedóticos:
Primeiro, tentaram lançar-se suspeitas sobre os governantes que tivessem sociedades dedicadas à compra e venda de terrenos, tentando dizer que esse era um factor de conflito de interesses ou de alguma forma de abuso de informação privilegiada, em face lei dos solos e da prevista possibilidade de construir em terrenos rústicos. Como se essa questão não tivesse tido debate prévio, e não fosse do conhecimento público.
Como essa primeira tentativa não pegou, passou-se à empresa de serviços de protecção de dados da família do Primeiro-Ministro, criando um clima de suspeita relativamente a independência do mesmo relativamente ao Grupo Solverde, seus clientes de longa data.
É obviamente bom que essa ligação tenha sido tornada do conhecimento público, e que o potencial conflito de interesses relativamente à específica questão da renovação de concessões do jogo a este grupo económico esteja identificado – o que só por si resolve esse problema.
Mas vale isto a queda do Governo e o arrastamento do País para eleições antecipadas? Claramente que não.
Só o facto de estarmos numa fase crítica da execução do PRR, e numa situação internacional igualmente crítica, em que está em causa a redefinição da arquitectura de segurança da Europa, exigia que os dois principais partidos portugueses percebessem que não é altura de ir a eleições.
A isto acresce que as sondagens nem sequer indiciam que haja uma discrepância significativa entre as actuais representações parlamentares e as intenções de voto. Ou seja, tudo para nada.
O PSD não precisava de ter apresentado uma moção de confiança. E o PS, se ao contrário do que diz não quisesse eleições, podia ter-se abstido nessa moção, e teria tido a Comissão Parlamentar de Inquérito que tanto ambicionava, sem qualquer negociação ou condicionante. Ambos são, pois, responsáveis pela ida precoce a eleições.
Os assuntos têm a sua importância relativa. A renovação das concessões do jogo deve ser tratada com atenção, transparência e rigor, quando chegar a altura de tratar desse assunto.
Nesta altura, porém, o Estado português deveria estar focado em reforçar as suas forças armadas, sobretudo a marinha, seguindo os passos dos nossos parceiros e aliados europeus, de modo a poder proteger o seu território marítimo, que é vasto e está muito desguarnecido.
Não pega a desculpa habitual de que somos demasiado pequenos para fazer diferença. Primeiro, por que isso pura e simplesmente não é verdade, pois à escala europeia, e por vários critérios, Portugal não é um país pequeno, mas médio. E sobretudo porque a nossa zona económica exclusiva e a nossa plataforma continental são vastas e ricas.
Caso o PS vença as eleições e necessite do apoio da extrema-esquerda para governar, poderá esse governo tomar as medidas necessárias, quando em parte da sua base de apoio militará o habitual anti-ocidentalismo disfarçado de pacifismo?


