AS FALSAS CRENÇAS SOBRE A LIDERANÇA III- Acredita que os líderes são pessoas carismáticas?

Luís Caeiro, Professor em Liderança na Catolica Lisbon School of Business and Economics

A liderança carismática pode ocorrer a todos os níveis das organizações, mas há lideranças eficazes que não se ajustam nem ao perfil dos líderes carismáticos, nem ao processo que tipicamente protagonizam.

O termo carisma, de origem grega, aparece nas Epístolas de S. Paulo para designar a graça divina que concedia autoridade aos primeiros líderes da Igreja. A palavra foi introduzida na linguagem científica pelo sociólogo Max Weber (“Economia e Sociedade: Esboço de uma Sociologia Compreensiva”, 1922) quando formulou uma classificação tripartida das fontes de autoridade dos líderes: autoridade tradicional, autoridade racional-legal e carisma pessoal.

Segundo Weber, o carisma é “a qualidade de uma personalidade extraordinária … pela qual a pessoa é considerada como possuindo poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanas ou, pelo menos, extraordinárias, não acessíveis a todos os outros … Como a qualidade em questão seria objectivamente avaliada … é completamente irrelevante: a única coisa que importa é como ela é realmente avaliada pelos seguidores.”

Na perspectiva de Max Weber, os líderes carismáticos desenvolvem o culto da personalidade e tendem a perdurar no poder porque inspiram a submissão e lealdade dos seus seguidores, e podem mesmo ser considerados infalíveis ou ter inspiração divina. A autoridade carismática põe muitas vezes em causa a autoridade tradicional e a autoridade legal, e por isso reveste com frequência um carácter revolucionário. Como a autoridade se baseia na pessoa do líder, a sua queda ou contestação pode levar à dissolução do poder. Ao contrário da ideia comum, Weber não concebe o carisma como um conjunto de traços pessoais isolados do contexto, mas como uma relação que se apoia no reconhecimento dos seguidores.

A liderança carismática tem sido investigada no âmbito da psicologia social, sob a designação de paradigma neo-carismático. Esta abordagem centra-se nos traços pessoais, nos comportamentos que determinam a adesão dos seguidores e na interacção dos traços do líder com variáveis situacionais que condicionam a sua eficácia, mas há pouco consenso quanto aos traços pessoais que definem as personalidades carismáticas.

Alguns autores veem a liderança carismática como uma forma de liderança transformadora caracterizada pelo visionarismo, a forte motivação de poder e a capacidade de mobilizar as emoções dos outros. Estes líderes exercem uma influência profunda sobre os seguidores, apresentam mensagens com forte impacto e constituem modelos com elevada capacidade de mobilização.

Para outros, o carisma está relacionado com o sentido de missão, com o magnetismo pessoal ou com a forma particularmente tocante como comunicam. João Paulo II, Luther King Jr., Hitler, Mahatma Gandhi, Margaret Tatcher e Fidel de Castro, são personalidades carismáticas, mas podemos encontrar também exemplos no mundo empresarial como Henry Ford, Steve Jobs, Jack Welsh e Oprah Winfrey.

Em termos gerais, os líderes carismáticos têm um sentido de missão que os leva a apresentar um projecto idealizado do futuro para melhorar a situação presente, reduzir a incerteza e concretizar expectativas. Esta visão é apresentada de forma articulada com o quadro psicológico dos receptores, de modo a ser percebida como satisfazendo as suas necessidades. Apelam aos valores e ao autoconceito dos seguidores propondo soluções radicais para os seus desafios. A articulação da mensagem com as necessidades, expectativas e identidade dos seguidores é o fator-chave para conseguirem a sua adesão.

Os líderes carismáticos utilizam uma comunicação directa, envolvente e persuasiva. Transmitem as ideias com uma energia e convicção que conquista a confiança dos outros. São capazes de perceber e interpretar o quadro psicológico dos potenciais seguidores. A forma autêntica (outras vezes, teatralizada) como exprimem as suas emoções ajuda-os a criar uma ligação emocional que reforça o compromisso com os objectivos.

São pessoas com uma elevada confiança nas suas capacidades e um forte compromisso com os seus projectos, mostrando espírito de sacrifício e capacidade de assumir riscos para alcançarem os objectivos, rompendo com normas e convenções se for necessário. Por isso, os seus comportamentos podem ser anómicos e radicais, o que pode contribuir para reforçar a percepção de autenticidade, determinação e capacidade para enfrentarem os obstáculos e protagonizarem a mudança.

As lideranças carismáticas estão associadas a conquistas sociais e morais importantes mas também à violência e à destruição com consequências catastróficas. É, pois, importante distinguir entre lideranças carismáticas personalizadas e lideranças carismáticas socializadas. As primeiras são protagonizadas por líderes com fortes traços de narcisismo, maquiavelismo e sociopatia: são frios e confrontativos, alimentam a polarização e o culto da personalidade. As segundas são desempenhadas por líderes que reconhecem e compreendem as suas próprias emoções e as dos outros, promovem relações pessoais positivas, agem de forma genuína e transparente, estimulam a cooperação, têm um desempenho ético e lideram pelo exemplo.

Nas organizações também são necessárias lideranças fortes cuja legitimidade seja aceite para fazerem mudanças estratégias, nas estruturas ou nos processos. Segundo Shamir e Colbs (“The motivational effects of charismatic leadership: a self-concept based theory”, 1993), há situações em que as lideranças transaccionais não resultam e é necessária uma forma de liderança mais radical e inspiradora. São casos em que a situação põe em causa valores importantes, existe uma crise existencial, são necessárias mudanças profundas, a situação é instável ou exige um esforço excepcional. São situações em que as pessoas estão dispostas a aderir à visão do líder e apoiar a sua concretização, porque este lhes oferece segurança, previsibilidade e assegura os seus valores e identidade.

Contudo, a existência de uma tal situação não significa que surja um líder carismático nem o aparecimento de uma personalidade carismática mobilizará seguidores se a situação não tiver as características descritas. Quando os três factores, personalidade carismática, situação e seguidores convergem e estão alinhados, estão reunidas as condições para ocorrer o processo de interacção social designado por liderança carismática.

Importa, pois, sublinhar que, ao contrário da ideia generalizada, a liderança carismática é um fenómeno complexo que não depende apenas das capacidades únicas de um líder extraordinário. Ela exprime um sistema de relações complexas que se estabelecem entre o comportamento do líder, o quadro psicológico dos potenciais seguidores e um contexto social concreto.

A metáfora do incêndio tem sido utilizada para descrever o fenómeno carismático. A liderança carismática é um fenómeno que, à semelhança de um incêndio, só ocorre na presença de três elementos. O primeiro é a existência de pessoas inseguras ou necessitadas de orientação, ansiosas acerca do futuro, com fortes ambições de mudança, carentes de um projeto coletivo que as una ou com elevadas expectativas em áreas com profundo significado para si. Este quadro psicológico constitui a matéria inflamável que favorece o aparecimento do fenómeno carismático.

Em segundo lugar, é necessário um contexto social de crise, instabilidade ou incerteza, que induza motivações de segurança e previsibilidade: é o oxigénio que torna possível a combustão. Finalmente, a existência de um líder com uma visão discrepante e radical, com elevada autoconfiança, espírito de missão, fortemente convencido do sucesso do seu projeto e que consiga articulá-lo com o quadro emocional dos seguidores: é a faísca que produz a ignição.

A relação que o líder carismático estabelece com os potenciais seguidores e com a situação objetiva, adequando de forma precisa a sua mensagem, mostra que o ponto de partida dos líderes com atributos carismáticos é a interpretação dos acontecimentos e a compreensão do estado psicológico das pessoas. Recolher informação, escutar e interpretar as situações, para apresentar os projetos que respondem às necessidades. Esta “conjunção perfeita” é o núcleo do fenómeno carismático. O surgimento de líderes como Nelson Mandela, Vladimir Putin e Donald Trump são bons exemplos de como a emergência de lideranças carismáticas tem na sua base a conjunção de um quadro psicológico colectivo com contextos de crise social e mensagens radicais.

Um estudo conduzido por Chanoch Jacobsen e Robert House (Dynamics of charismatic leadership: a process theory, simulation model and tests, 2001) tentou compreender a evolução temporal do fenómeno carismático. Foi utilizado um modelo computacional de simulação baseado na Dinâmica de Sistemas, de Forrester, um instrumento que permite a análise de processos sociais contínuos em organizações complexas. Os autores analisaram um conjunto de variáveis relacionadas com a personalidade, os tipos de seguidores e o processo, de seis lideres carismáticos históricos. O modelo testado indica que a liderança carismática é um processo que obedece a um ciclo temporal com seis fases.

Na fase de identificação, a personalidade carismática percebe que há uma situação que exige uma mudança radical e exprime uma visão da mudança que responde aos valores e desejos de um futuro melhor. As pessoas identificam-se com a visão do líder mas mantêm-se passivas. Na fase de actividade, o líder utiliza a capacidade de comunicação para exprimir a confiança de que os passivos são capazes de produzir a mudança, induzindo uma profecia auto-cumprida que motiva os seguidores. Com o feedback positivo do líder os seguidores passivos passam da identificação com a visão, à participação na acção. Na fase de compromisso o líder dá o passo seguinte, mostrando espírito de sacrifício e correndo riscos, em demonstrações de coragem e entrega à causa colectiva. Constitui um modelo para os seguidores, levando-os a transcender os seus interesses próprios em favor do interesse comum.

É aqui que liderança carismática atinge o seu ponto mais alto e a forma como é exercida depende das motivações para o poder. Os que exercem uma liderança personalizada tendem a ser autocráticos, confrontativos e procuram o auto-engradecimento. Os que exercem uma liderança socializada tendem a ser igualitários, altruístas e procuram soluções em que todas as partes sejam ganhadoras. Na fase de desencantamento, a mudança começa a dar lugar à rotina e o carisma do líder dá lugar a símbolos e rituais.

Parte da elite comprometida perde o seu estatuto e alguns seguidores começam a desencantar-se. Novos movimentos podem atrair as pessoas para outros objectivos de mudança. Na fase de despersonalização inicia-se um processo de burocratização e uma parte dos seguidores deixam de ser participantes activos, passando a seguidores passivos. Na fase de alienação, a burocratização e a rotina fazem com que muitos do que se identificaram com a mudança percebam um desvio em relação aos objectivos traçados pelo líder. Os seguidores alienam-se do projecto e volta-se à instabilidade da situação inicial. Aceitam a nova situação porque perderam a esperança de que a visão inicial seja concretizada e conclui-se o ciclo. O carisma do líder esbate-se e o número de seguidores reduz-se.

Este modelo define um processo sequencial de fases mas a sua duração total, bem como a duração de cada fase, dependem dos múltiplos ciclos de feedback que podem ocorrer, bem como da personalidade do líder, da dinâmica do contexto social e da interferência de variáveis externas. O facto das mudanças que ocorreram se tornarem rotinas ou serem de curta duração, desvanecendo-se com o carisma do líder, depende da situação inicial, do carisma do líder e do compromisso dos seguidores. Os autores concluem que o modelo explica o ciclo da liderança carismática mas não permite prever quando ocorre nem os seus efeitos.

O mecanismo essencial do carisma, que consiste na articulação entre mensagem, situação e quadro psicológico dos seguidores, bem como as seis fases evolutivas, podem ocorrer em todos os processos de liderança aos níveis macrossocial, organizacional ou mesmo em equipas de trabalho. Contudo, os líderes de dimensão histórica protagonizam este fenómeno com abrangências e graus de impacto, que marcam profundamente o futuro da sociedade e das organizações.

A dimensão da sua liderança faz com que sejam percebidos como os “verdadeiros líderes” ou aqueles que representam o paradigma da liderança. Assim, todos os líderes, para o serem realmente, teriam que adoptar aquele modelo e partilhar pelo menos parte dos seus atributos carismáticos.

Esta é a principal razão da crença partilhada de que todos os líderes são carismáticos mas, na verdade, não têm que o ser. Há outros estilos de liderança e perfis pessoais que têm sucesso na liderança de organizações e de equipas de trabalho, como a liderança transaccional, a liderança servidora, a liderança partilhada e a liderança apoiante. A liderança carismática pode ocorrer a todos os níveis das organizações, mas há lideranças eficazes que não se ajustam nem ao perfil dos líderes carismáticos, nem ao processo que tipicamente protagonizam.

A crença de que “os verdadeiros líderes são carismáticos” está ainda associada a outras ideias. Para muitas pessoas, ser carismático é ser atrativo, insinuante, comunicar de uma forma cativante e influenciar pela via emocional. O carisma, nesta acepção, está ligado à imagem e à comunicação de imagem. Muitos líderes ditos carismáticos têm atributos externos que lhes estão associados de forma distintiva: o charuto de Churchill, a barba de Fidel de Castro, o monóculo de Spínola, a boina de Montegomery, o casaco de Mao ou o bigode de Hitler. São elementos comunicacionais icónicos que associamos às suas personalidades únicas. Para muitas pessoas, os líderes carismáticos têm de ter algo que os distinga no estilo ou na imagem. A posse de alguns destes aspetos distintivos (ou a sua exibição intencional) é, em muitos casos, a «marca» pessoal do seu carisma.

Importa, pois, distinguir entre carisma como complexo de traços e liderança carismática, como processo. Na primeira acepção referimo-nos à pessoa carismática, isto é, à pessoa que tem um conjunto de traços de personalidade (magnetismo pessoal, elevada convicção, espírito de missão, comunicação emocional, capacidade persuasiva…), e atributos físicos que definem a sua identidade pessoal. A existência destes atributos, mesmo em grau elevado, não significa que a pessoa exerça uma liderança carismática efetiva e muito menos que o faça de forma relevante.

Enquanto processo, a liderança carismática é uma forma de liderança transformadora que pressupõe uma convergência articulada entre quadro psicológico dos seguidores, contexto social e comportamento do líder, e está associada a processos de mudança.

Acreditar que todos os líderes são carismáticos é uma crença cuja funcionalidade é semelhante à crença de que a liderança é inata. Transmite a ideia de que os líderes são possuidores de características raras e a liderança é um sinal de superioridade. Reforça a admiração pelas grandes personalidades e o seu papel de modelos de referência. Apoia-se numa visão do mundo segundo a qual os acontecimentos significativos são determinados por ações individuais e em que a história, e até mesmo o sucesso das organizações, resulta do génio de figuras excecionais, fazendo-nos regressar à teoria dos heróis de Carlyle. Estas figuras têm um papel importante mas não são actores únicos da mudança.

Acreditar que a condução da sociedade e das organizações está nas mãos de líderes carismáticos favorece a ideia de que só alguns “eleitos” são realmente actores sociais relevantes, e que as pessoas individuais ou organizadas em movimentos sociais, desempenham o papel secundário de seguidores sem influenciar os processos de mudança. Esta crença é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento de uma consciência crítica, da participação activa na vida das instituições e na mudança social, e pode até ser interpretada como um instrumento de dominação social.

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