Rui Gonçalvez

OS BOMBEIROS NÃO PODEM SER “CARNE PARA CANHÃO”

Rui Gonçalves, Arquiteco

As encomendas aos incendiários vão continuar, porque o negócio não pode parar, a desorganização no combate vai manter-se, o povo vai sofrer e perder os seus bens e os bombeiros vão continuar a ser “carne para canhão” e a morrer e fiquem descansados porque… para o ano estará tudo na mesma e há mais.

Dois bombeiros morreram e três estão em estado grave, na sequência do capotamento de uma viatura em que eram transportados no combate aos diversos incêndios que literalmente estão a pôr o país em chamas. Paz à sua alma e as mais sentidas condolências às respetivas famílias, restando agradecer a todos os bombeiros o enorme esforço e o risco de vida que diariamente correm para proteger as populações.

Enquanto isto, o negócio dos incêndios continua a florescer e a ter alta rentabilidade, claro. O aluguer dos helicópteros e dos aviões, cuja utilidade é exclusivamente apagar fogos, sem eles aquelas empresas fechavam. Os que comercializam todo o tipo de material para incêndios e imaginando que este ano não havia fogos, não sobreviviam, simplesmente faliam. Logo, é importante garantir que haja fogos. A madeira queimada é comercializada a um valor muito inferior, mas a utilidade depois de transformada, não tem desvalorização e como tal, o lucro é muito superior. Nunca nos esqueçamos que por detrás de uma grande tragédia, está sempre um grande negócio. É o caso.

Mas as causas e os culpados do caos em que o país se encontra, são vários e de diversos níveis e intervenientes.

A prevenção, da responsabilidade do estado e dos proprietários florestais, não existe, porque estamos naquele país em que as leis não são para cumprir e a impunidade prevalece. O estado, na qualidade de maior proprietário florestal, não limpa nem cumpre os afastamentos de proteção de estradas e caminhos, em consequência resta-lhe pouca autoridade para exigir que os particulares o façam e às autarquias, que conhecem os territórios e mais próximos estão das zonas de risco, compete-lhes tomar as medidas necessárias para que, pelo menos em torno do edificado, a limpeza e o corte sejam efetivados anualmente e em tempo útil, antes da chegada do verão e para tal forneça os meios necessários. E os guardas-florestais, com que essa iminência parda, de seu nome António Costa, acabou em 2006, não são recriados? Pois, nada acontece, até porque só se volta a falar de incêndios em julho ou agosto do ano seguinte, quando vierem as novas tragédias.

O ordenamento do território foi há décadas ignorado e temos hoje uma “monocultura”, o interior do país tem cada vez menos gente e muito mais floresta e a floresta arde, foi o (des)ordenamento que arranjámos, quando aceitámos dinheirito da europa para deixarmos de produzir, acabámos com a agricultura, enchemos o território de pinhal e eucalipto e agora temos isto.

A desorganização e o desnorte no combate aos incêndios é evidente. A ANEPC – a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, a quem parece que competia coordenar o combate aos incêndios, que além de um presidente, tem quatro direções nacionais, um comandante nacional, tem estruturas regionais e sub-regionais, uma amálgama que de facto dá emprego a muita gente, mas que se fica por aí, pelos resultados que se veem. Depois existem os bombeiros, os que de facto dão o corpo às labaredas e apagam fogos e que são politicamente maltratados todos os dias e começa o emaranhado caótico, que ninguém sabe ao certo como funciona, onde começa a autoridade e responsabilidade de quem sobre quem, até porque os egos se sobrepõem ao interesse coletivo, é a desorganização em que todos sacodem a água do capote, em que os meios de combate, sempre inflacionados, são anunciados como estando em todo o lado e nunca estão em lado nenhum, ou pior, não estão onde são necessários.

Tudo isto tem a colaboração da “justiça”, que liberta todos os criminosos que são apanhados, mesmo que em flagrante, mesmo que reincidentes na atividade incendiária, o sistema funciona sempre da mesma forma, este é o país do pasto fácil para criminosos, em que a justiça está feita para os incentivar.

Do ponto de vista político, temos nestas alturas o habitual deserto de responsabilidades, a imagem da imbecil e patética ministra da administração interna, na televisão, com aquele “vamos embora”, quando questionada pelos jornalistas, diz tudo sobre a personagem, que Deus nos livre de gente daquela espécie.

Mas não vale a pena os do PS andarem por aí armados em virgens ofendidas a atirar pedradas a este governo, porque foi em 2017, com um governo socialista do tal Costa, que morreram dezenas de pessoas, ali mesmo nas labaredas. O povo não se esqueceu e sabe que a fórmula se repete, se está o PSD no governo, o PS reclama e o inverso também é verdadeiro.

Enquanto isto, as encomendas aos incendiários vão continuar, porque o negócio não pode parar, a desorganização no combate vai manter-se, o povo vai sofrer e perder os seus bens e os bombeiros vão continuar a ser “carne para canhão” e a morrer, mas fiquem descansados, porque de setembro a junho ninguém vai falar, nem pensar, em incêndios e para o ano estará tudo na mesma e há mais.

E claro, que por detrás de uma grande tragédia, está sempre um grande negócio.

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