Quando a Igreja troca a profecia pela ambiguidade.

Manuel Matias, Vereador da Câmara Municipal de Odemira

As recentes declarações de D. Rui Valério, Bispo de Lisboa, e o comunicado da Comissão Nacional Justiça e Paz levantam uma preocupação séria e legítima entre muitos católicos e cidadãos: a perceção de que, sob a capa de generalidades e alertas morais seletivos, existe uma crítica implícita a um dos candidatos presidenciais e, simultaneamente, um apoio implícito a outro.

A Igreja, pela sua missão e natureza, não pode permitir-se ambiguidades políticas que confundem os fiéis e instrumentalizam a sua autoridade moral. Quando um bispo ou um organismo oficial da Igreja intervém no espaço público em contexto eleitoral, tem o dever acrescido de o fazer com clareza, equilíbrio e fidelidade integral à Doutrina Social da Igreja — não apenas às partes que coincidem com determinada sensibilidade ideológica.

Causa estranheza, e não pode deixar de ser denunciado, o silêncio absoluto sobre matérias que a Igreja sempre considerou não negociáveis: a condenação clara do aborto, da eutanásia, da ideologia de género e do tráfico humano — esta nova forma de escravatura que destrói vidas, famílias e comunidades inteiras.

Estes não são temas laterais. São feridas morais profundas do nosso tempo, onde se joga a dignidade da pessoa humana. Quando a Igreja escolhe falar de uns temas e omitir outros, não está a ser prudente: está a ser parcial. E quando essa parcialidade coincide, de forma sistemática, com a agenda cultural e política do relativismo dominante, a Igreja corre o risco de abdicar da sua missão profética para assumir um papel meramente ideológico.

A Igreja não existe para confirmar o espírito do tempo, mas para o questionar. Não existe para agradar ao poder, mas para o interpelar. Não existe para orientar votos, mas para formar consciências à luz da verdade. Sempre que se afasta deste caminho, perde autoridade moral e trai aqueles que esperam dela clareza, coragem e coerência.

Num momento decisivo para o futuro de Portugal, os católicos merecem mais do que mensagens vagas e sinais ambíguos. Merecem uma Igreja que fale com a mesma firmeza contra todas as formas de injustiça, especialmente quando estas atacam diretamente a vida, a família e a dignidade humana, desde a conceção até à morte natural.
O silêncio também é uma escolha. E, neste caso, é um silêncio que pesa.

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