Isabel de Santiago. “A falta de porta-voz de crise deixou um vazio preenchido por populismos digitais de fácil consumo”.

Marta Roque

Isabel de Santiago, Professora Auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, acompanhou as Presidenciais2026 com “rigor analítico” que o “Estado da Arte” exige, e com a “vivacidade de quem viveu o pulso mediático”. A docente ao Magazine Estado com Arte destaca que as Presidenciais de 2026 estão assentes “num minotauro de duas cabeças: um do ruído algorítmico e o outro do silêncio institucional.”

O novo elemento em comunicação política é a “economia da atenção” e o “micro-targeting”. Quanto à verticalidade do Conteúdo venceram as candidaturas que “entenderam que o debate televisivo de 60 minutos” é agora apenas “matéria-prima para reels e tik-toks de 15 segundos”.

A mensagem “fragmentada e emocional dominou sobre o programa estruturado”. No novo Contrato Comunicacional “aprendemos em 2026 que a comunicação presidencial já não é sobre “informar o país”, mas sobre “gerir comunidades” num quadro de destruição do país em tempo de campanha eleitoral.

O erro da reatividade foi fatal: muitas candidaturas “falharam por passarem 15 dias a desmentir o adversário em vez de afirmarem uma visão. Na era da pós-verdade, quem explica, perde. Quem afirma primeiro, ganha.”

Evidente foi a ausência de um “Porta-Voz de crise”, “como verificámos na recente tragédia das tempestades, a falha de comunicação do Estado contaminou as campanhas”, explica a Professora universitária.

Isabel de Santiago, Investigadora e especialista em Comunicação em Saúde e Educação e Literacia em Saúde, em entrevista ao Magazine Estado com Arte, sobre a comunicação destas eleições presidenciais26, segundo vários estudos indicam que a comunicação digital foi orientada para “alimentar os convertidos”, o que poderá explicar a comunicação da abstenção elevada antecipada para a segunda volta.

António José Seguro venceu pela sua “capacidade serena de se reapresentar como um moderador institucional”, tendo-se por isso focando em temas como a saúde e a defesa tecnológica.

Como analisa estas eleições presidenciais?
Acabou a “Era dos Afetos”. Se as presidenciais de 2016 e 2021 foram marcadas pela Hiper presença física e pelo “afeto” como capital político, 2026 marcou o divórcio entre a rua e o ecrã. A comunicação política que aqui analisamos não falhou por falta de meios, mas por excesso de ruído e falta de tradução.

O que venceu na comunicação destas presidenciais?

A “Economia da atenção” e o Micro-targeting. A verticalidade do Conteúdo: venceram as candidaturas que entenderam que o debate televisivo de 60 minutos é agora apenas matéria-prima para reels e tik-toks de 15 segundos. A mensagem fragmentada e emocional dominou sobre o programa estruturado.
A Autenticidade (mesmo que encenada): venceu quem conseguiu furar a bolha institucional. O eleitor de 2026 procurou o “candidato-humano”, aquele que comunica sem o filtro do Conselho Nacional de Comunicação.
A Mobilização pelo Medo e pela Reação: A eficácia comunicacional esteve do lado de quem soube reagir em tempo real aos factos consumados (como a gestão da Depressão Kristin), transformando a crise em palco de campanha.

O que falhou na comunicação destas eleições Presidenciais26?

A Morte da intermediação. O jornalismo como “Banquete de Curtas”: falhou a capacidade da comunicação política tradicional em pautar a agenda. Os candidatos já não falam para os jornalistas; falam através deles para as suas comunidades digitais. Verificou-se desde o primeiro dia, meios a favor e meios contra certos candidatos, mobilizando para o efeito alguns jornalistas (desempregados, o caso na CNN e mesmo na SICn) que passaram ao estatuto de comentadores ou políticos rejeitados pelo seu partido (caso de um ex ministro na CNN) que é detestado pelo PS, mas nesta campanha defendia Seguro). Os portugueses já não ligam às televisões e muito menos a este tipo de aves-raras da comunicação. Médicos que nunca exerceram ou jornalistas que aprenderam a escrever notícias e que, depois de velhos resolvem tentar ser estrelas do instagram, reelstik-toks copiando o sucesso de Ventura nesta área. Ele tem, comparativamente, cerca de 800 mil seguidores e o primeiro-ministro menos de 80 mil.

A Professora auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa diz que a “Economia da atenção” e o Micro-targeting são as novas tendências em comunicação política.

O erro da reatividade: muitas candidaturas falharam por passarem 15 dias a desmentir o adversário em vez de afirmarem uma visão. Na era da pós-verdade, quem explica, perde. Quem afirma primeiro, ganha.

A ausência de um “Porta-Voz de crise”, como verificámos na recente tragédia das tempestades, a falha de comunicação do Estado contaminou as campanhas. A falta de um porta-voz capaz de comunicar a crise friamente, e/ou uma voz técnica credível deixou um vazio que foi preenchido por populismos digitais de fácil consumo.

No novo Contrato Comunicacional aprendemos em 2026 que a comunicação presidencial já não é sobre “informar o país”, mas sobre “gerir comunidades”.

O que venceu foi a capacidade de criar um sentimento de pertença num país geograficamente unido, mas digitalmente segregado. As Presidenciais de 2026 ficaram marcadas por um número recorde de  11 candidatos e por uma comunicação política que privilegiou a manutenção de bolhas digitais em detrimento da conquista de novos eleitores.  A análise das estratégias revela uma divisão clara entre a institucionalidade resiliente e o populismo algorítmico.

Os Finalistas da segunda volta: A Polarização em Direto

Como analisa o vencedor?
António José Seguro (candidatura independente e livre, apoiado mais tarde sob divisão no partido, pelo PS): apostou e concentrou-se desde o primeiro minuto numa imagem de “estabilidade e experiência”. Venceu pela sua capacidade serena de se reapresentar como um moderador institucional, tendo-se por isso focando em temas como a saúde e a defesa tecnológica. Falhou, do meu ponto de vista, em parte porém, ao ser visto como excessivamente reativo durante a crise da Depressão Kristin, que dominou a reta final da campanha.

e os vencidos?

André Ventura (Líder do Chega): dominou de forma exímia o “campo inclinado” das redes sociais. Venceu na métrica do engagement e na comunicação antissistema, utilizando o lema “Deus, pátria, família e trabalho”.

A campanha de Ventura foi uma máquina de produção de conteúdos curtos (leitura e visualização imediata em segundos ou minutos curtos) que ditaram a agenda mediática, embora tenha falhado em furar o teto eleitoral necessário para uma vitória à primeira volta. Os portugueses eleitores que o acompanham, claramente, não o desejam para Presidente da República. Antes para um potencial governo, o que acredito, virá a acontecer.

e como ficou a Direita Liberal e a Esquerda Fragmentada…..

João Cotrim de Figueiredo (apoiado desde o primeiro minuto pela IL): Teve uma performance forte em termos de clareza económica, mas ficou em terceiro lugar, sendo ultrapassado pela dinâmica de polarização entre Seguro e Ventura. O escândalo de assédio sexual (e moral) que lhe foi atribuída (perseguição dentro da IL) destruíram qualquer sonho que este candidato poderia ter nesta eleição. A sua ambição é desmesurada e maior é a sua vaidade na forma como se apresenta, até mobilizando filha e netos, quando sempre recusou fazer-se acompanhar da senhora com quem namorava.

Catarina Martins (apoiada desde o inicio pelo BE) e António Filipe (apoiada desde o inicio pelo PCP): focaram-se na efetivação de direitos fundamentais como habitação e saúde. O Povo já não corre atrás deste mundo ultrapassado de kolkhozes e sovkhozes. O modelo de reforma agrária está ultrapassado e ainda mais o expansionismo de uma esquerda conservadora (do PCP) e de uma esquerda caviar populista (do BE). Acreditaram num modelo de campanha, mas enganaram-se na eleição. Esta eleição é destinada a eleger o PR e não deputados para a AR. Venceram na fidelização do eleitorado de base, mas falharam na expansão para o centro, perdendo espaço para o voto útil em Seguro.

E quanto aos outros candidatos?

Protagonistas e Fenómenos Digitais…Henrique Gouveia e Melo: sem apoios políticos, tentou representar com a sua imagem a “ordem e autoridade”, mas a sua comunicação foi criticada por ser excessivamente rígida para o formato televisivo. Além disso, a sua escolha sugerida pelo empresário Mário Ferreira, que contratou a empresa de comunicação (que trabalha para suas empresas de barcos e lobbying) encabeçada pelo polémico Luís, que criou bernardas atrás de bernardas, e que veio do Benfica e acabou com o Sócrates (em polémico julgamento até hoje) destruíram uma imagem de liderança eficaz. Foi duro, austero e pouco empático nas formas como foi conduzindo as suas mensagens – na primeira pessoa ou através de uma estratégia de comunicação falhada. Tinha tudo a seu favor para ganhar, até adeptos fervorosos do Chega o queriam, mas a estratégia destruiu tudo.

Além disso, arrastou com ele o candidato do PSD, mas caíram juntos. Foi o “Coveiro” das Candidaturas de Direita:  a estratégia de Marques Mendes não só destruiu a imagem de Gouveia e Melo, como também “arrastou com ele o candidato do PSD”, fazendo com que ambos caíssem juntos. Apesar de construir uma imagem de liderança, a sua comunicação foi considerada “falhada”, “dura”, “austera” e “pouco empática”.

Joana Amaral Dias: Utilizou as redes sociais para uma comunicação de choque e guerrilha, conseguindo visibilidade, mas falhando na conversão dessa atenção em credibilidade presidencial. Não tem qualquer credibilidade e a sua candidatura foi rejeitada pelo Tribunal Constitucional. Tudo tão vergonhosamente gerido que, na 1ª volta entraram 14 candidatos no boletim de voto e apenas 11 estavam na corrida de forma concluída e legal.

Jorge Pinto (apoiado desde o início pelo Livre): destacou-se pelo alto nível de engagement digital, mas a sua mensagem ecológica foi “abafada” pela urgência das tempestades reais que alteraram as prioridades do eleitorado na última semana.

Luís Marques Mendes (apoiado desde o início pelo PSD): realizou uma campanha operação de bastidores e estratégia que resultou num fracasso político absoluto. Substituição da Política pelo Lobbying: É criticado por aplicar uma lógica de comunicação empresarial e de lobbying e ligações em alegados esquemas com a empresa propriedade sua e dos filhos e mulher, entrando num terreno que exigia uma sensibilidade presidencial que ele, segundo o autor, não conseguiu imprimir. A campanha de Luís Marques Mendes foi o elemento tóxico que impediu Gouveia e Melo de capitalizar o apoio que tinha, inclusive de eleitores do Chega, e que neutralizou as hipóteses do PSD nestas eleições. Não tem perfil político. É velho e está longe de ter uma imagem pura e intocável.

 Que balanço faz da Comunicação da campanha com as tempestades à mistura?

Mostrou que entre Seguro e Ventura a grande falha coletiva foi a negligência da mobilização. Existem vários estudos que nos indicam que a comunicação digital foi orientada para “alimentar os convertidos”, o que poderá explicar a abstenção elevada antecipada para a segunda volta.  Venceu quem melhor geriu o medo e a indignação, mas falhou quem tentou manter um debate programático num cenário de crise meteorológica extrema.

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