Já alguém ouviu falar em “voto de repúdio” pela falta de profissionalismo, por exemplo, das operadoras de telecomunicações, que deixaram comunidades inteiras incontactáveis durante uma infinidade de dias? Não, pois não? E ao modo miserável como a E-Redes / EDP tratou essas populações, deixando freguesias inteiras sem energia durante um infinito mês? Também não, pois não? E aos desprezíveis charlatões governantes, a começar pelo próprio primeiro-ministro, que garantiram pagar às populações as prometidas ajudas até 5 mil euros em apenas 3 dias e até 10 mil euros em 15 dias úteis e que até agora não pagaram nada? Pois, também não houve “voto de repúdio”, pois não?
Depois dos temporais a que não estamos habituados neste recanto à beira mar plantado, pela violência e persistência com que nos atingiram, com os consequentes prejuízos pessoais e materiais de dimensão incalculável, sim incalculável, porque quando aparece um autarca dos municípios atingidos com um número, percebe-se que é atirado por impulso circunstancial, com a mesma convicção com que poderia dizer metade ou o dobro, enfim à portuguesa, eis que temos outra invenção inédita em que o português é pródigo, que são os anúncios que se multiplicam por todo o lado, de “moções de mérito”, “votos de louvor” e coisas semelhantes, com rasgados elogios às entidades envolvidas, em alguns casos incluindo mesmo executivos municipais, pasme-se.
E pasme-se, porque não se entende onde está o “mérito” de se fazer bem feito o trabalho que a cada um compete, ou seja, um profissional executa uma função para a qual é pago e tem um voto de louvor, por alma de quem? A pessoa limitou-se a cumprir a sua obrigação, nada mais. Aquele é o seu trabalho que fez bem e isso não está em causa, como por esse país fora fazem milhares de profissionais cada qual nas suas áreas de atividade. Se estivéssemos a falar de votos de louvor aos inúmeros voluntários que prestaram a sua colaboração, mudava tudo de figura, mas não é disso que se trata.
Claro que isto acontece porque temos um problema, é que em Portugal está interiorizada na sociedade a ideia, construída durante décadas, de que o que é da esfera pública é mau e quando aparece alguém que cumpre as funções que lhe compete, isto é motivo de regozijo e até de espanto, o problema é que significa uma visão da sociedade pela negativa, uma distorção das responsabilidades de cada um e do mérito que deve ser naturalmente intrínseco ao desempenho de qualquer profissão e de qualquer função.
Quando esse regozijo recai sobre responsáveis políticos, então estamos perante o anedótico, principalmente se tomarmos como exemplos os autarcas de Leiria e de Coimbra, que usaram e abusaram das catástrofes que se abateram sobre as populações em prol da sua promoção pessoal, aproveitando a constante presença da comunicação social como nunca se viu antes, veja-se a figura patética da autarca de Coimbra, quando calçou as tairocas e desatou a rasgar o ministro da agricultura, que se comportou como um verdadeiro cavalheiro, sendo a própria a única pecadora que se atrasou vinte minutos na receção ao ministro, mas que pouca vergonha teve a Abrunhosa, enfim uma triste figura perante um país inteiro.
Feito este parêntesis, importa passar à fase seguinte, que será a da crítica e assunção de responsabilidades a quem não cumpre as obrigações que lhes estão confiadas, seja por profissão, nomeação, eleição ou contrato.
Vamos a factos. Já alguém ouviu falar em “voto de repúdio” pela falta de profissionalismo, por exemplo, das operadoras de telecomunicações, que deixaram comunidades inteiras incontactáveis durante uma infinidade de dias? Não, pois não? E ao modo miserável como a E-Redes / EDP tratou essas mesmas populações, deixando freguesias inteiras sem energia durante um infinito mês, quando lhes corta o fornecimento por um atraso de dias no pagamento? Também não, pois não? E aos desprezíveis charlatões governantes, a começar pelo próprio primeiro-ministro, qual vendedor de banha da cobra, que garantiram pagar às populações as prometidas ajudas até 5 mil euros em apenas 3 dias, mediante apresentação de fotografias e até 10 mil euros em 15 dias úteis, havendo uma simples vistoria? Pois, também não houve votos de repúdio, pois não?
Pois então, há pessoas que submeteram pedidos inferiores a 5 mil euros há duas semanas e nada receberam, nem fazem ideia de quando vão receber e quanto aos 10 mil euros nem sabem ainda qual a entidade que vai ser responsável pelas vistorias, sendo que as Câmaras já afirmaram que não têm meios humanos nem técnicos para as fazer, como o ministro da INCoesão territorial pretende agora forçar.
Vamos lá portugueses mudar o chip do coitadinho, aumentar os níveis de exigência, deixar de endeusar quem se limita a fazer a sua obrigação e exigir a esta espécie de gente que nos ludibria todos os dias com maior rapidez e facilidade do que respira, que cumpra as suas obrigações para com as populações. Não são os cumpridores que merecem votos de louvor, são estes que merecem votos de repúdio.


