Rui Gonçalvez

DEPOIS DAS TEMPESTADES, O VOTO DE REPÚDIO

Rui Gonçalves, Arquitecto

Já alguém ouviu falar em “voto de repúdio” pela falta de profissionalismo, por exemplo, das operadoras de telecomunicações, que deixaram comunidades inteiras incontactáveis durante uma infinidade de dias? Não, pois não? E ao modo miserável como a E-Redes / EDP tratou essas populações, deixando freguesias inteiras sem energia durante um infinito mês? Também não, pois não? E aos desprezíveis charlatões governantes, a começar pelo próprio primeiro-ministro, que garantiram pagar às populações as prometidas ajudas até 5 mil euros em apenas 3 dias e até 10 mil euros em 15 dias úteis e que até agora não pagaram nada? Pois, também não houve “voto de repúdio”, pois não?

Depois dos temporais a que não estamos habituados neste recanto à beira mar plantado, pela violência e persistência com que nos atingiram, com os consequentes prejuízos pessoais e materiais de dimensão incalculável, sim incalculável, porque quando aparece um autarca dos municípios atingidos com um número, percebe-se que é atirado por impulso circunstancial, com a mesma convicção com que poderia dizer metade ou o dobro, enfim à portuguesa, eis que temos outra invenção inédita em que o português é pródigo, que são os anúncios que se multiplicam por todo o lado, de “moções de mérito”, “votos de louvor” e coisas semelhantes, com rasgados elogios às entidades envolvidas, em alguns casos incluindo mesmo executivos municipais, pasme-se.

E pasme-se, porque não se entende onde está o “mérito” de se fazer bem feito o trabalho que a cada um compete, ou seja, um profissional executa uma função para a qual é pago e tem um voto de louvor, por alma de quem? A pessoa limitou-se a cumprir a sua obrigação, nada mais. Aquele é o seu trabalho que fez bem e isso não está em causa, como por esse país fora fazem milhares de profissionais cada qual nas suas áreas de atividade. Se estivéssemos a falar de votos de louvor aos inúmeros voluntários que prestaram a sua colaboração, mudava tudo de figura, mas não é disso que se trata.

Claro que isto acontece porque temos um problema, é que em Portugal está interiorizada na sociedade a ideia, construída durante décadas, de que o que é da esfera pública é mau e quando aparece alguém que cumpre as funções que lhe compete, isto é motivo de regozijo e até de espanto, o problema é que significa uma visão da sociedade pela negativa, uma distorção das responsabilidades de cada um e do mérito que deve ser naturalmente intrínseco ao desempenho de qualquer profissão e de qualquer função.

Quando esse regozijo recai sobre responsáveis políticos, então estamos perante o anedótico, principalmente se tomarmos como exemplos os autarcas de Leiria e de Coimbra, que usaram e abusaram das catástrofes que se abateram sobre as populações em prol da sua promoção pessoal, aproveitando a constante presença da comunicação social como nunca se viu antes, veja-se a figura patética da autarca de Coimbra, quando calçou as tairocas e desatou a rasgar o ministro da agricultura, que se comportou como um verdadeiro cavalheiro, sendo a própria a única pecadora que se atrasou vinte minutos na receção ao ministro, mas que pouca vergonha teve a Abrunhosa, enfim uma triste figura perante um país inteiro.

Feito este parêntesis, importa passar à fase seguinte, que será a da crítica e assunção de responsabilidades a quem não cumpre as obrigações que lhes estão confiadas, seja por profissão, nomeação, eleição ou contrato.

Vamos a factos. Já alguém ouviu falar em “voto de repúdio” pela falta de profissionalismo, por exemplo, das operadoras de telecomunicações, que deixaram comunidades inteiras incontactáveis durante uma infinidade de dias? Não, pois não? E ao modo miserável como a E-Redes / EDP tratou essas mesmas populações, deixando freguesias inteiras sem energia durante um infinito mês, quando lhes corta o fornecimento por um atraso de dias no pagamento? Também não, pois não? E aos desprezíveis charlatões governantes, a começar pelo próprio primeiro-ministro, qual vendedor de banha da cobra, que garantiram pagar às populações as prometidas ajudas até 5 mil euros em apenas 3 dias, mediante apresentação de fotografias e até 10 mil euros em 15 dias úteis, havendo uma simples vistoria? Pois, também não houve votos de repúdio, pois não?

Pois então, há pessoas que submeteram pedidos inferiores a 5 mil euros há duas semanas e nada receberam, nem fazem ideia de quando vão receber e quanto aos 10 mil euros nem sabem ainda qual a entidade que vai ser responsável pelas vistorias, sendo que as Câmaras já afirmaram que não têm meios humanos nem técnicos para as fazer, como o ministro da INCoesão territorial pretende agora forçar.

Vamos lá portugueses mudar o chip do coitadinho, aumentar os níveis de exigência, deixar de endeusar quem se limita a fazer a sua obrigação e exigir a esta espécie de gente que nos ludibria todos os dias com maior rapidez e facilidade do que respira, que cumpra as suas obrigações para com as populações. Não são os cumpridores que merecem votos de louvor, são estes que merecem votos de repúdio.

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