Foi há cem anos o Golpe de Estado de 28 de Maio de 1926

Susana Mexia

Nos primeiros anos da década de 1920, terminada a Grande Guerra, a instabilidade cresceu: para além dos governos se sucederem a um ritmo alucinante (foram 23 os ministérios entre 1920 e 1926), os atentados bombistas e a forte actividade anarco-sindicalista criavam no país um clima de insurreição que fazia prever um fim próximo para o regime.

O golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, Revolução de 28 de Maio de 1926, ou Movimento de 28 de Maio de 1926, também conhecido pelos seus executores por Revolução Nacional, foi um golpe de Estado protagonizado por militares e civis antiliberais, que resultou na queda da Primeira República Portuguesa e na instauração da Segunda República Portuguesa, e por fim transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo, regime que se manteve no poder em Portugal até a 25 de Abril de 1974.

A revolução começou em Braga, comandada pelo general Gomes da Costa, sendo seguida de imediato em outras cidades como Porto, Lisboa, Évora, Coimbra e Santarém. Consumado o triunfo do movimento, a 6 de Junho de 1926, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, Gomes da Costa desfila à frente de 13 mil homens, sendo aclamado pelo povo da capital.
Anteriormente, a Primeira República Portuguesa implantada a 5 de Outubro de 1910, cedo deu sinais de instabilidade e de progressiva degradação das suas instituições.

Os atentados bombistas sucediam-se, com ataques que por vezes eram semanais. A somar aos efeitos políticos e sociais sequentes à Noite Sangrenta, em que houve motins e assassínios descriminados, nos de 1924 e 1925 a crise agudizou-se, com um crescendo do sentimento de insegurança e de instabilidade política, que frequentemente descambavam em violência e confrontos.

Os tumultos prosseguiam um pouco por todas as zonas urbanas onde existisse operariado, aparecendo constantemente novas organizações e uma crescente violência.
A carestia de vida, o ambiente de frenética intriga política que se vivia, os boatos de golpe desde há muito que corriam, sendo seguro que existiam múltiplos convites ao general Gomes da Costa para este dirigir um golpe, que salvasse a Pátria.

Em Braga preparava-se para o dia 28 de Maio um Congresso Mariano, que congregaria naquela cidade as principais figuras do conservadorismo católico, entre as quais Cunha Leal, e sabendo-se que Gomes da Costa tinha para ali partido, ficou claro que o golpe estava iminente e que o seu epicentro seria naquela cidade.
Preparando o terreno, Cunha Leal logo no dia 27 organiza em Braga, no Bom Jesus, um almoço com apoiantes, que num discurso inflamado, critica severamente, o muito desorganizado Partido Democrático. Nesse dia chega à cidade, pelas 22:00 horas, e vindo expressamente para assumir o comando do golpe, o general Gomes da Costa,
Conforme havia sido acordado, logo no dia imediato, 28 de Maio de 1926, pelas 6h00 da manhã, inicia-se a sublevação militar, com acompanhamento e apoio civil, incluindo o operariado da região, organizando-se uma coluna que marcha sobre Lisboa.

Seguindo o tradicional modelo do golpismo militar português, a partir de um pronunciamento fora da capital, neste caso em Braga, o movimento repercute-se por todo o país com um grande número de unidades militares a proclamar logo nesse dia e ainda maior número no dia seguinte, 29 de Maio, a sua adesão ao golpe.
Perante a estabilidade conseguida e ultrapassado o risco de confrontos, o general Gomes da Costa dá ordem a todas as forças militares golpistas disponíveis para avançarem sobre Lisboa.

Entretanto, de vulgar golpe militar, o movimento iniciado a 28 de Maio tinha-se transformado numa vastíssima coligação de republicanos conservadores, monárquicos e nacionalistas revolucionários com um núcleo de jovens oficiais, apoiado e aceite por todos os sectores sociais e pela esmagadora maioria dos portugueses.

A 7 de Junho o general Gomes da Costa toma posse das pastas para que fora nomeado e comanda um impressionante desfile militar de vitória ao longo da Avenida da Liberdade. Desfilam 15 000 homens perante o aplauso de centenas de milhar de pessoas. Está terminada a marcha sobre Lisboa e o novo poder está completo nas suas vertentes militar e civil.

Em consonância com os tempos que se viviam na Europa, o novo poder assumiu-se como anti parlamentar, atribuindo a responsabilidade do caos que se instalara no país à política partidária e ao funcionamento parlamentar. Assim, assume-se como uma ditadura militar, que em pouco tempo se passou, em desafio claro ao parlamentarismo, a auto denominar Ditadura Nacional, encarnando um regime militar progressivamente mais autoritário.

Para resolver a grave situação económico e financeira, o novo regime, em 1928, convidou um professor de Coimbra, António de Oliveira Salazar, para assumir as funções de Ministro das Finanças. Salazar passou a anunciar um programa financeiro, para o equilíbrio das finanças públicas e estabilidade do Escudo português, ganhando um progressivo domínio sobre a estrutura política, e depois militar, do novo regime.

A 3 de Junho, sai o primeiro ministério da Revolução – Presidência e Interior, Mendes Cabeçadas; guerra e Colónias, Gomes da Costa; Negócios Estrangeiros, General Carmona; Marinha, Comandante Jaime Afonso; Finanças, Doutor Oliveira Salazar; Justiça, Dr. Almeida Ribeiro; Instrução, Joaquim Mendes dos Remédios; Agricultura e Comércio, Ezequiel de Campos.

Assim, o nome de Salazar aparece pela primeira vez nos anais governamentais, indigitado para as Finanças. António Ferro que entrevista Costa Gomes sobre a composição do Ministério para o Diário de Notícias, regista este comentário do General na avaliação dos seus ministros:
“ O Governo foi o que se pôde arranjar num momento destes. O Ministro das Finanças é um tal Salazar, de Coimbra. Dizem que é muito bom. O Senhor conhece-o?”» *

Em consequência, Salazar foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros (Primeiro-Ministro), em 1932. Com esta nomeação, em linha com o crescente peso do nacionalismo e do fascismo na Europa, o regime foi-se estabilizando e ganhando um pendor cada vez mais autoritário e repressivo, organizando-se como um Estado corporativista.

Foi assim que iniciado como mais um levantamento no seio da Primeira República Portuguesa, o golpe de 28 de Maio de 1926 veio originar o Estado Novo, um sistema político autoritário, anti-comunista, nacionalista e corporativista, no contexto de uma lógica formalmente republicana que era concretizada, no dizer do manifesto da União Nacional de 1930, na ideia de uma República Nacional e Corporativa.
Um século volvido após o golpe de 28 de Maio de 1926, urge repensar os seus motivos, os factos e as consequências de então e as actuais, na certeza de que “o homem é sempre ele e a sua circunstância”. **

*- (ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZER – O OUTRO RETRATO, de Jaime Nogueira Pinto – 8ª edição – a esfera dos livros).
** – Ortega y Gasset

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