Il n’y a pas de fumée sans feu

Susana Mexia

Em “Bárbaros e Iluminados” (Dom Quixote,  2017) Jaime Nogueira Pinto procura dar-nos uma visão muito clara de como “nada acontece por acaso”. Neste livro o autor descreve a profunda crise que afecta o mundo liberal globalizado e analisa as razões da crescente rebelião dos povos contra a elite internacional no poder.
Recorrendo à História Mundial e à história do pensamento político, traça o perfil e o percurso da ideologia “hegemonizante” dos “iluminados” que nos têm governado e dos “bárbaros” que se lhe têm vindo a opor.

Os livres-pensadores e enciclopedistas, críticos dos pilares das instituições do poder temporal e religioso, dedicaram-se a divulgar algumas ideias muito próprias sobre os costumes e a moral. Recorrendo a uma literatura popular, que procuraram tornar apetecível pelo facto de ser proibida, utilizaram uma linguagem sui generis, com uns laivos de acentuado erotismo ou mesmo de pornográfico.

Uma espécie de sátira e crítica aos valores tradicionais, uma narrativa utópica sobre liberdade sexual, uma sedução para prazeres sem limite, ao sabor do desejo e da imaginação, alheios à condição humana, ao valor do sexo e do homem, reduzindo este a um mero objecto de prazer, submetido a sofisticados e requintados desvarios libertinos.

Em pleno século das Luzes, a França monárquica, foi palco desta grande e vertiginosa influência, embora só as elites tivessem acesso a ela, foi sobretudo divulgada na sociedade dos salões.
Guardado numa cela da prisão da Bastilha, o marquês de Sade, dedicava-se a escrever sobre liberdade sexual, um tema que lhe era muito querido dadas as inimagináveis perversidades que habitavam na sua mente e no seu coração, as quais ficaram para sempre ligadas ao sadomasoquismo. Justine, o seu célebre romance, foi o grande contributo para politizar o sexo e sexualizar a política, abrindo assim caminho para a revolução da liberdade sexual do sadismo até à morte.

O marquês e o iluminismo esmeraram-se na tentativa de matar Deus, a moral e a tradição da forma mais libertina possível numa inimaginável degradação humana.
Em 1748, foi publicada a obra “Thérèse philosophe”, um dos maiores best-sellers da Europa do séc. XVIII, um romance libertino de desvarios sexuais, com sofisticados diálogos de pretensão filosófica, na formação de uma jovem inocente mas disposta a pactuar com todas as lições de luxúria dos seus preceptores. A autoria do livro é duvidosa, embora alguns a atribuam a Jean Baptiste de Boyer, (1704-1771), marquês d’Argens, aristocrata e militar, protegido de Frederico da Prússia.

Sem cariz político o grande alvo era a religião Católica e o Clero, o seu objectivo era minar e corroer os valores e os princípios cristãos. A Igreja era a “infame “que ambicionavam esmagar.
A ressurreição de Sade deu-se em França no período a seguir à segunda Guerra Mundial, com a publicação da sua vida, uma série de publicações que culminou na versão de Pasoloni dos “Cento e Vinte Dias de Sodoma”.

A intelectualidade francesa e americana a partir dos anos sessenta, com o reforço de Simone de Beauvoir e alguns pensadores da nova esquerda hegeliana, estiveram na base da revolução cultural e estudantil do maio de 68, a qual rapidamente, se propagou a toda a população europeia e americana, através da literatura, da música, do cinema e da televisão.

O amor livre, a procura do nirvana, a influência de algumas práticas religiosas orientais e o acesso a drogas leves e duras, alimentados por interesses económicos muito poderosos foram, paulatinamente, desmoronando toda uma geração que passaria a rejeitar a família tradicional e os valores fundamentais da civilização ocidental.

Na senda de Freud e de Wilhelm Reich, Sartre e Marcuse foram os gurus da revolução sexual, da libertação do que eles consideravam oprimidos pela família monogâmica, pelas instituições e pela Igreja Católica. Há mais de um século que a literatura as vinha ridicularizando com algum sucesso.

Num mundo sem limites, sem dogmas, sem família e sem identidade, cresceram gerações órfãs de sentido, sozinhas e abandonadas vazias de essência, onde só o consumismo e a alienação marcam o compasso de vida.
O nihilismo, o cepticismo e a ausência duma dimensão transcendente forjou as novas vítimas, que se consideram em liberdade, mas na realidade são manietadas pelos interesses políticos e comerciais que o mercado impõe.
A crise cultural dos anos sessenta conduziu à absoluta autonomia do homem como árbitro dos valores. Impõe uma visão antropológica fechada à transcendência, mas permissiva a algumas ideias como o ecologismo, o panteísmo, a espiritualidade oriental, o materialismo científico, a defesa do consumo da droga, o movimento gay e o feminismo radical.

Imbuídos no nihilismo de Nietzsche, introduzem a psicologia de Freud muito redutora, na qual o homem não está determinado pela razão, mas pelo inconsciente com toda a sua força de impulso sexual. Alguns intelectuais alemães de formação marxista, como Reich, e outros da Escola de Frankfurt, como Marcuse e Fromm, aplicam as categorias críticas de Marx às relações sexuais, analisadas com base em Freud.

Assim se inverteram os termos da antropologia cristã. O homem deixa de ser considerado uma criação à imagem e semelhança de Deus, para passar a ser visto como uma projecção de elementos psicológicos e de líbido reprimida ficando à mercê do seu inconsciente perturbado. Não há efeito sem causa, nem ideias sem consequências.

Em “Bárbaros e Iluminados”, Dom Quixote, 2017, Jaime Nogueira Pinto procura dar-nos uma visão muito clara de como “nada acontece por acaso”. Neste livro o autor descreve a profunda crise que afecta o mundo liberal globalizado e analisa as razões da crescente rebelião dos povos contra a elite internacional no poder. Recorrendo `História e à história do pensamento político, traça o perfil e o percurso da ideologia hegemonizante dos “iluminados” que nos têm governado e dos “bárbaros” que se lhe têm vindo a opor.

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