Estávamos todos lá. Ou talvez não.

Susana Duarte, Autora

Hoje passei algumas horas na praia e, mais tarde, no parque com o meu filho. Não fui para lá observar ninguém, fui simplesmente aproveitar o dia com ele, mas comecei a reparar em pequenas coisas à minha volta.

Na praia, uma mãe fotografava o filho junto à água. Uma fotografia, depois outra, depois mais uma. O miúdo queria ir brincar e ela pediu-lhe que esperasse porque ainda não tinha ficado bem. No parque, um pai empurrava o baloiço com uma mão e segurava o telemóvel com a outra, enquanto a criança lhe dizia qualquer coisa e ele respondia “sim, sim”, sem levantar os olhos.

Não escrevo isto de um lugar superior, porque também tenho um telemóvel que me acompanha para todo o lado, também respondo a mensagens quando podiam esperar, também já fotografei um momento antes de o viver. Talvez tenha sido precisamente por isso que me incomodou.

Estamos a criar uma coisa estranha, esta necessidade de registar a vida enquanto ela acontece, como se vivê-la não fosse suficiente. Levamos os filhos à praia e queremos guardar a praia, vamos ao parque e queremos guardar o parque, fotografamos o gelado, o baloiço, os pés na areia, o pôr do sol, quase como se o momento só ficasse realmente nosso depois de passar pelo telemóvel.

Queremos tanto guardar tudo que, às vezes, somos nós que não ficamos verdadeiramente lá.

Hoje olhei para o meu filho e pensei que ele não se vai lembrar de metade das coisas que eu fotografei, mas talvez se lembre de eu ter corrido atrás dele, de uma gargalhada qualquer, de uma coisa absurda que dissemos ou simplesmente de eu estar a olhar para ele quando me chamou.

As crianças têm esta capacidade desconcertante de nos mostrar aquilo que complicámos. Elas não querem uma infância bonita para publicar, querem que nos sentemos no chão, que estejamos ali, que olhemos para elas quando falam connosco.

Talvez daqui a vinte anos eu tenha milhares de fotografias destes dias, espero ter, mas espero sobretudo que, quando o meu filho olhar para elas, não veja apenas todos os lugares onde esteve. Espero que se lembre de que eu também estive lá.

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