FÓLIO26. Leitão Amaro revela aposta do Governo em ensino de “conteúdos essenciais” de Português

Mara Roque

Na 11ª edição do FOLIO26  participam criadores de cerca de 24 diferentes nacionalidades. Com esta diversidade Óbidos quer “mobilizar talento e criar um lugar de encontro entre pessoas com experiências e visões do mundo muito diferentes”. António Leitão Amaro marcou a abertura do Festival Literário Internacional de Óbidos, no arranque de 11 dias de programação com 450 autores e criadores, entre os quais o Nobel da literatura Jon Fosse. Até 18 de outubro cerca de 300 iniciativas, distribuídas por 26 espaços, e 13 Mesas de Autor em Óbidos.

O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, admitiu ontem,  na inauguração do FÓLIO, “ter ficado  surpreendido com a falta de choque no país com os resultados da literacia revelada pelos últimos exames do PISA”, sublinhando “uma descida muito significativa”, na última década, dos índices de literacia e de leitura por parte das crianças e jovens.

Revelou as suas experiências físicas com a leitura “para além da pele”. “Se a nossa relação com o mundo não for ler devagar, mas ler resumos, ficamos mais pobres na relação com os outros.” Numa altura que os livros já nem sequer são produzidos pelo ser humano, “o risco da IA é um empobrecimento da imaginação. Quer do escritor, quer do leitor. ”

Ler permite aprender e conhecer pessoas e experiências diferentes. “Temos de lutar por livros feitos por humanos com tempo”, frisou.

Quanto aos perigos “da dependência da tecnologia”, Leitão Amaro defendeu medidas governamentais como a limitação ou proibição de telemóveis nas escolas e as restrições à utilização de redes sociais.

No ensino  é preciso “focar mais nos conteúdos essenciais como o Português”, em detrimento do “sonho de expor a tudo, com currículos fluidos” que “faz perder a importância relativa da aprendizagem essencial da nossa língua, o nosso passaporte para a relação com os livros”.

Apaixonado pela leitura, o ministro recordou o entusiasmo de Telmo Faria, antigo presidente da Câmara de Óbidos, com a criação do festival literário, e a transformação da vila na “capital dos livros”, reconhecida como Cidade Criativa da Literatura da UNESCO, em 2015.  Destacou o FÓLIO como um “projeto de excelência”, a que deram continuidade os autarcas Humberto Marques e Filipe Daniel. “É um orgulho esta história estar a ser escrita há mais de uma década”, afirmou. “Obrigado por mostrarem a beleza dos livros.”
Joana Pinho, da Livraria Ler Devagar, parceira do FÓLIO, admitiu existir “uma certa dificuldade” em abrir um festival de literatura, “falar de livros, de autores, de encontros, quando, ao mesmo tempo, há pessoas a lutar pela sua casa, pela sua terra, pela sua liberdade. Há pessoas a fugir da guerra. Há pessoas que perderam tudo. E há um genocídio em curso”. “É difícil estarmos aqui”, assumiu, “mas talvez seja precisamente por isso que temos de estar”, acrescentou, estabelecendo a “linha da frente” de uma programação que vai “falar de território, de migrações, de fronteiras, de memória, de democracia, de desigualdade”.

Criadores de cerca de 24 diferentes nacionalidades

“Esta diversidade revela a capacidade de Óbidos para mobilizar talento e criar um lugar de encontro entre pessoas com experiências e visões do mundo muito diferentes”, afirma Filipe Daniel, Presidente da Câmara Municipal de Óbidos.

O tema desta edição, «Para Além da Pele», convida a ultrapassar a primeira impressão. “A reconhecer a pessoa para além da aparência, a história para além do preconceito e a complexidade para além da resposta fácil.
Num tempo em que se responde tantas vezes antes de escutar, a literatura oferece-nos uma liberdade essencial: a de compreender uma vida diferente da nossa. Um festival literário deve preservar esse espaço de pensamento, de descoberta e de discordância respeitosa”, disse o autarca.

Jon Fosse, Prémio Nobel da Literatura de 2023, cuja presença constitui um momento maior desta edição. Acolheremos também Leïla Slimani, Kiran Desai, Yann Martel, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares e tantos outros autores, ilustradores.

O programa cruza a literatura com a ilustração, a banda desenhada, a música, a educação e a tecnologia. Discute também a inteligência artificial e os desafios que coloca à criação.

“Queremos compreender a inovação, preservando a liberdade, a autoria e a dimensão humana do conhecimento”.

Filpe Daniel destaca a entrega do Prémio Literário Fernando Leite Couto, domingo, dia 11 de outubro, ao escritor moçambicano Crimildo Matola, com  a presença do antigo Presidente da República de Moçambique, Joaquim Chissano.

Candidatura de Óbidos a Capital Portuguesa da Cultura 2028

Ricardo Duque, vereador da cultura do Câmara de Óbidos, considera esta edição do FÓLIO como “um espaço de verdadeira liberdade intelectual, onde as ideias possam ser discutidas, questionadas e confrontadas. Não procuramos unanimidades. Procuramos pensamento.”

A edição 2026 do festival será ainda marcada pela criação do Conselho Estratégico da Literatura e do Conhecimento, um novo órgão consultivo do município de Óbidos, criado para “consolidar a literatura como uma verdadeira política pública e motor de desenvolvimento, preparando o território para desafios futuros e dando suporte institucional à candidatura da vila a Capital Portuguesa da Cultura 2028”, anunciada oficialmente em junho deste ano. “Uma candidatura que não pretende apenas acrescentar um novo título ao percurso do nosso concelho, mas aprofundar uma estratégia cultural, mobilizar a comunidade e desenvolver projetos capazes de deixar resultados duradouros.”

O FÓLIO Educa é uma das componentes mais relevantes deste projeto, aproximando a literatura das escolas e contribuindo para a formação de novos leitores. “Queremos que as crianças e os jovens de Óbidos cresçam num território onde o conhecimento, a criatividade e o pensamento crítico façam parte da sua experiência educativa”.

A cultura portuguesa não se faz apenas nos grandes centros urbanos. Faz-se também nos territórios que têm a coragem de construir uma identidade própria e uma ambição que ultrapassa a sua dimensão.

Anuncia a criação do Galardão José Pinho, destinado a distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído de forma particularmente relevante para a literatura, a criação artística, o pensamento e a democratização do acesso à cultura. A primeira homenagem terá lugar no próximo dia 18 de outubro e será dedicada a Zeferino Coelho, uma das figuras mais relevantes da edição portuguesa contemporânea.

Pelas 13 mesas de autor passarão ainda a escritora brasileira Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a entrar na Academia Brasileira de Letras, e dois vencedores do Prémio Booker: o canadiano Yann Martel e a indiana Kiran Desai, que em 2006 se tornou a mais jovem mulher a ser distinguida com aquele galardão.

Confirmados estão ainda Aixa de la Cruz, Catherine Millet, Vera Iaconelli, Kamel Daoud, Leila Slimani, Michael Cunningham, Mohamed El-Kurd, Michela Marzano, Anne Serre, Rachid Benzine, Martin Desrosiers e Niklas Frank.

Entre os portugueses, destacam-se Valter Hugo Mãe, que participará numa mesa com Ana Maria Gonçalves, o humorista Ricardo Araújo Pereira, o jornalista e escritor António Cabrita e o linguista Marco Neves.

O Folio Mais, com curadoria de Candela Varas, propõe ser um espaço de cruzamento de disciplinas e de experimentação em torno da literatura, contando este ano com 13 presenças internacionais, entre as quais o mexicano Emiliano Monge, a cubana Elaine Vilar Madriga, o basco Bernardo Atxaga, a espanhola Maria Sánchez, a brasileira Mariana Salomão Carrara e o italiano Stefano Mancuso, entre outros.

No Folio BD a programação será liderada pela exposição “Retaliation First”, de Christopher Sperandio (Pinko Joe), e pela entrega do Prémio Nacional de Banda Desenhada (promovido pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas Públicas, DGLAB), a que se juntam conversas com autores e visitas a outras exposições.

De entre as várias curadorias do festival, o FÓLIO Ilustra, que nesta edição reúne 175 criadores de diferentes geografias, volta a ser marcado pela “PIM!_Mostra de Ilustração Para Imaginar o Mundo”, quando se assinalam os 30 anos do Prémio Nacional de Ilustração, tradicionalmente entregue em Óbidos.

Na Folia, assegurada pela Fundação INATEL, parceira do evento desde 2016, contam-se, este ano, concertos de Ricardo Ribeiro, Máximo, Moura, Quarteto Mudo Ma Non Troppo e Mar&Ilha.

No Folio Boémia, marcado por uma programação mais alternativa, subirão ao palco Beatles For TRIo, Noiserv, O corpo que não é e Sandra Celas.

A literatura e formação de públicos nas escolas voltam a estar em foco no Folio Educa, curadoria que realiza anualmente o Seminário Internacional de Educação e que inclui este ano o V Encontro Nacional de Grupos de Leitores da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, além de atividades nas várias escolas do concelho.

O Folio Tec vai assentar sobre quatro eixos: humano, trabalho e organização; corpo, ciência e tecnologia; Inteligência Artificial (IA) e futuro; IA como mente pensante.

Organizado pelo município de Óbidos e pela empresa municipal Óbidos Criativa, o festival tem como parceiros a Fundação INATEL e a Livraria Ler Devagar.

O primeiro dia terminou com concerto de Ricardo Ribeiro no jardim do Município situado na Praça de Santa Maria.

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