Não foi o petismo que ganhou, foi o bolsonarismo que perdeu

Cibele Costa, jornalista brasileira, escritora e estrategista de branding verbal

Cibele Costada, da cidade de Vitória da Conquista, estado da Bahia, escreve sobre a vitória de Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras.

A jornalista brasileira, escritora e estrategista de branding verbal, tem trajetória de mais de uma década em redações jornalísticas (Rede Globo, Folha de S.Paulo). Fundou a Pedra Palavra (consultoria de branding verbal) e a Ghoster (agência boutique de ghostwriting para executivos). É autora de “Cada Palavra Importa”, o primeiro livro sobre identidade verbal escrito em português, e “Foras da Curva”, em co-autoria. É mestre em Comunicação e tem MBA em Marketing e Mídias Digitais.

Depois do primeiro turno, vi uma mudança estrondosa, não só de mobilização popular, mas na comunicação da campanha petista. Vi Lula, que nunca foi de gravar vídeo de celular, fazer vídeo-selfie para as redes sociais. Mudou muito a linguagem da campanha. Quem trabalha com palavras sabe o que isso significa.

Quase toda história (seja roteiro de filme, romance ou conto de fadas) tem um vilão. E o Brasil acaba de mudar a sua história ao impedir que um antagonista chegue ao Palácio do Planalto, a sede oficial do poder executivo federal, em Brasília.

Escrevo com uma ressalva: eu não sou analista política nem futurista. Sou jornalista de formação e trabalho com narrativas de marcas e de pessoas. Minha leitura sobre estas eleições é feita com a ferramenta que tenho – a do conhecimento sobre arquitetura narrativa – e com o que vi e li nos últimos dias.

E o que eu presenciei? Vi Lula terminar o primeiro turno das eleições brasileiras, disputado em 4 de outubro, atrás do candidato Flávio Bolsonaro (45,2% a 47%) e, no domingo, 25 de outubro, vencer o segundo com 51,8% dos votos, cerca de 4,4 milhões de votos à frente. Isso é um feito histórico. Desde 1989 ninguém tinha conseguido uma virada assim: em todas as eleições anteriores o segundo turno confirmou o líder do primeiro.

Li algumas manchetes de jornais da Europa e vi que a leitura dominante foi a de que a democracia e o multilateralismo venceram. Respeito essa leitura. Mas a minha impressão, vivendo no Brasil, vem de outro lugar. Penso que não foi o petismo que ganhou, foi o bolsonarismo que perdeu. São coisas diferentes. E vou explicar meu ponto.

Antes dos números oficiais da apuração, eu tinha percebido algumas pistas. No colégio onde eu voto, as seções estavam lotadas no primeiro turno. Enfrentei fila para votar e, nesse tempo todo, vi apenas duas pessoas – duas! – com camisetas vermelhas e o número 13, de Lula. Isso foi bem diferente de outros tempos, em que os apoiadores de Lula faziam barulho e queriam ser vistos. Ali, tive a impressão de que a esquerda estava desanimada.
E não é por acaso. Ao final deste mandato de Lula, entre 2023 e 2026 (o terceiro dele, que já foi presidente por duas vezes seguidas, entre 2003 e 2011), o Brasil vive um período bem difícil. A dívida bruta está em 82,9% do PIB. A taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano, o que mostra um Banco Central ainda preocupado com a inflação. O endividamento das famílias bateu 49,9% da renda em fevereiro, um triste recorde. E quase 84 milhões de brasileiros estão com o nome negativado, o que significa restrição de crédito por dívidas em atraso.

Depois do primeiro turno, vi uma mudança estrondosa, não só de mobilização popular, mas na comunicação da campanha petista. Vi Lula, que nunca foi de gravar vídeo de celular, fazer vídeo-selfie para as redes sociais. Mudou muito a linguagem da campanha. Quem trabalha com palavras sabe o que isso significa.

Robert McKee, autor de “Story”, o livro que é um manual clássico de roteiro de histórias, ensina que é o conflito que move qualquer narrativa e que protagonista e antagonista se definem um pelo outro. O Brasil encenou esse exato enredo por quase uma década. Em 2018, a impressão que ficou foi que o país não elegeu Jair Bolsonaro por total afinidade com seu projeto de governo, mas por rejeição ao PT. E, agora, acontece o contrário. Até parte da direita, que não se reconhece no lado extremo, parece ter votado para que um projeto de poder bolsonarista não se perpetuasse.

E há, ainda, um sinal anterior: uma pesquisa registrou alta na aprovação de Lula logo depois de o governo de Donald Trump anunciar, em julho, uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

A cientista política Flávia Biroli, da Universidade de Brasília, defendeu em artigo publicado na Folha de S. Paulo ainda no domingo, dia 25, que Lula venceu porque o PT segue com uma base social ampla, formada por setores organizados, movimentos sociais e uma juventude que foi às ruas nas últimas semanas. O PT tinha a base, de fato. O que o bolsonarismo não deu ao eleitor do meio foi um motivo para ficar. Ela lembra que, entre os dois turnos, a abstenção caiu de 21,08% para 19,21%, mas que a votação de Lula superou essa diferença, um sinal de que houve virada de votos.

O fim de um ciclo, porém, não significa necessariamente um desaparecimento. O bolsonarismo teve 48,2% dos votos e o PL (partido de Bolsonaro) elegeu a maior bancada do Congresso Nacional. O partido perdeu a Presidência, porém o país segue dividido ao meio.

Chega então o segundo ato dessa história toda. Com o suposto vilão fora do Planalto, o protagonista encara um outro antagonista muito difícil de derrotar. O Brasil sabe que o mandato será bem difícil, tanto política quanto economicamente. E é aqui que a história pode surpreender. Este é o último mandato de Lula que, pelas regras brasileiras, não pode concorrer novamente daqui a quatro anos.

Se o bolsonarismo não encontrar quem herde os votos do pai Jair ou do filho Flávio, o palco fica aberto em 2030 para alguém que não precise de um inimigo para existir. Afinal, mocinhos e vilões – naquele sentido bem estereotipado – só existem mesmo nas histórias. Um país de verdade precisa de gente de carne e osso em seu comando e um projeto que o leve para a frente.

Minha torcida é que Lula consiga corrigir seus erros nos próximos quatro anos. Que consiga colocar a economia nos trilhos, sem descuidar das pessoas, do meio ambiente e do crescimento do país. E que, em 2030, possamos ter um próximo protagonista que não dependa de um vilão para existir.

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