Valores em tempo de Natal

Susana Mexia, Professora de Filosofia

Neste tempo que se aproxima, já com cheirinho a Natal, sinto que a vida, para ter sentido, precisa de ser reflectida, implicando análise crítica e espírito de discernimento.

A ideológica ilusão de um mundo sem Deus, sem espiritualidade e sem objectivos de vida originou uma deformação e degradação do comportamento humano na sociedade.

Também os nossos tempos ou, no tempo em que nos é dado viver, sentimos uma certa premência em nos determos nalgumas considerações sobre factos e acções no campo familiar, social e político, na medida em que todos eles se entrelaçam num todo.

Nenhum ser humano é uma ilha isolada, mas pertence à sociedade em que está inserido, colaborando para o seu bem-estar, se for um ser de bem, com virtudes e valores ou para a sua destruição e perdição, se substituir o bem pelo mal, se as suas acções forem ausentes de boas intenções, de referências éticas e morais sem recurso ao que o ser humano tem de mais nobre: a inteligência, a vontade e a espiritualidade.

Claramente, não é sobre o valor económico que me vou debruçar neste Natal. Embora na época natalícia seja cada vez mais assíduo o excesso de consumismo, não obstante sabermos não ser este a sua essência.
No Natal celebramos o nascimento de Jesus Cristo, Filho de Deus, que veio ao mundo para se revelar ao Homem e ao mesmo tempo revelar-lhe a grandeza da sua filiação divina.
Criados à Sua imagem e semelhança estamos preparados para algo mais, para a grandeza que nos assiste em poder e saber escolher o Bem, o Belo e a Verdade.

O “dever ser” sobrepõe-se ao ser, a Pessoa transcende a sociedade e o progresso moral só acontece quando as acções humanas são pautadas e adornadas com os Valores. Estes revelam-se de forma real na conduta das pessoas, são a essência que define o agir humano.
O dever é um imperativo ético, face a um valor moral a vontade não é livre: o bem deve fazer-se; o mal deve evitar-se.

A vida é um pressuposto para a realização do valor moral, mas, por sua vez, o valor moral é a razão de ser da vida do ser humano.

O homem é por natureza um animal ético, os seus comportamentos devem reflectir as ideias e os ideais da sociedade e da cultura em que está inserido, a qual proporciona os padrões a adoptar para uma adequada vivência.

Os valores situam-se na ordem do ideal, não na ordem do ser, mas na ordem do dever ser, no plano da elevação racional e espiritual do homem, apontam para um modo de agir superior, mais além, mais digno porque mais humano rumo à perfeição divina.

A ideológica ilusão de um mundo sem Deus, sem espiritualidade e sem objectivos de vida originou uma deformação e degradação do comportamento humano na sociedade.
O vazio axiológico ou ausência de valores conduz a um enfraquecimento da capacidade crítica com consequente facilidade de manipulação dos outros aliado à indiferença ou descomprometimento político-social face ao isolamento, ao egoísmo e à defesa dos próprios interesses.

Não nos deixemos seduzir pela terminologia relativista que nos pretende convencer que pensar ou agir com valores, está démodé, ou que a educação é um feito dum passado remoto.
Neste Natal tenhamos a certeza de que o melhor presente na celebração do nascimento do Menino Jesus, é recordarmos a todos que “aos homens, Deus provê de um modo diferente do usado com os seres que não são pessoas: não de fora através de leis da natureza física, mas de dentro mediante a razão que, conhecendo pela luz natural a lei eterna de Deus, está, por isso mesmo, em condições de indicar ao homem a justa direcção do seu agir livre”. (Enc. Veritatis Splendor)

Em busca dos Valores perdidos, a todos desejo um Santo, Valoroso e Virtuoso Natal.

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