Ana Cavalieri: “À Europa interessa um Irão sem o regime dos Aiatolas.”

Marta Roque

Ana Cavalieri, investigadora e especialista em política americana, no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, diz ao Estado com Arte Magazine que a primeira reação da Europa à operação militar de Trump no Irão, este sábado, “é típica da irrelevância e da fraqueza da Europa dos lideres europeus”, mas agora “parece existir uma maior cooperação com os EUA, em resposta a algumas bases britânicas e a alguns pontos estratégicos europeus que foram alvo da reação iraniana.”

Israel e Estados Unidos lançaram no sábado um ataque militar contra o Irão, para “eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano”, tendo como objetivo matar o aiatola Ali Khamenei. Enquanto Teerão responde com mísseis e drones contra bases norte-americanas na região e alvos israelitas.

O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que a operação visa “eliminar ameaças iminentes” do Irão e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, justifica a ação conjunta contra o que classificou como uma “ameaça existencial”.

“Trump sabe o que tem de evitar, nomeadamente numerosas vítimas americanas, o que pode movimentar a opinião pública contra si. O pior que lhe podia acontecer seria que atingissem um dos porta-aviões USS Abraham Lincoln ou um USS Ford”, diz Ana Cavalieri ao Estado com Arte Magazine. O porta-aviões USS Abraham Lincoln, maior porta aviões do mundo, e três contratorpedeiros lançadores de mísseis chegaram ao Médio Oriente no inicio de Fevereiro.

Para Ana Cavalieri, investigadora e especialista em política americana, “a maneira como Trump justifica a operação militar no Irão está correta.”

Todas estas semanas de preparação serviram para evitar que determinadas localizações fundamentais para os Estados Unidos da América sofressem ataques, principalmente os porta-aviões. Bem como prepararam a defesa de algumas bases que os EUA têm no Médio Oriente: Quatar, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kwait. Algumas zonas destas bases  já foram evacuadas, nomeadamente a base naval de 5a frota que está no Burein.

Facto é que até agora os E.U.A ainda não perderam nenhum navio de guerra. “Esta é a prioridade”, adianta Ana Cavalieri.
Quanto à invasão dos E.U.A no Irão “existe essa expectativa, tal como Trump disse no discurso”, diz a comentadora de politica americana da SIC Notícias.

“A penetração e infiltração dos serviços de inteligência americanos e israelitas na localização e a forma como chegaram a estes homens para os matar, são a demonstração de grande sucesso”, sendo Israel o grande parceiro dos E.U.A desta operação.

No entender da investigadora “a maneira como Trump justifica a operação está correta. As três grandes ameaças que o Irão representava:  regime Aiatola que queria de destruir os EUA e destruir Israel. Ali Khamenei descrevia os E.U.A como o “Big Satan” e Israel o “pequeno Satan”.

“O Regime Aiatola nunca esteve preocupado com a vida e segurança e prosperidade dos seus cidadãos, antes canalizou todo o seu dinheiro para tentar desenvolver potenciais meios no sentido de atingir os E.U.A e Israel. Era comum o slogan “Death to America, Death to Israel”, justifica.

Depois de várias tentativas, e de várias estratégias no sentido de conter esta ameaça, Trump identifica este momento “como o acertado para acabar de vez com o regime ou para tentar acabar com o regime de vez”.

Nos últimos anos o Irão ficou muito enfraquecido, os grupos terroristas que alimentou durante várias décadas estão muito vulneráveis: o Hamas e o Hezbollah os Houthis, um grupo rebelde xiita do Iêmen.

A operação americana em junho de 2025 destruiu grande parte da capacidade de defesa anti-aérea iraniana, e algum armazenamento de misseis que o Irão tinha.

A cientista política observa que “acima de tudo existe um ânimo de revolta de tentativa de derrubar o regime, milhões de iranianos estão fartos de viver na tirania.”

Reação da Europa

A primeira reação da Europa é típica da irrelevância e da fraqueza da Europa dos lideres europeus, mas que entretanto parece haver uma maior cooperação com os EUA em resposta a algumas bases britânicas, e relativamente a alguns pontos estratégicos europeus terem sido alvo da reação iraniana.

Para Von der Leyen, a morte de Ali Khamenei traz “uma nova esperança para o povo iraniano”. “Temos de garantir que o futuro lhes pertença e que eles possam moldá-lo”, escreveu a presidente da Comissão nas redes sociais.

Mas “ao mesmo tempo, este momento acarreta um risco real de instabilidade que pode mergulhar a região numa espiral de violência”, adiantou.

“O risco de escalada é real. É por isso que é urgente uma transição credível”, escreveu também.

“Isso deve significar o fim do programa nuclear militar iraniano e do programa de mísseis balísticos, bem como o fim dos atos de desestabilização”, sublinhou ainda.

A presidente da Comissão Europeia indicou ter conversado por telefone com o rei Abdullah II da Jordânia, o emir do Catar, xeque Tamim bin Hamad al-Thani, e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, considerou que a morte de Ali Khamenei representava “um momento decisivo na história do Irão”.
“O que se seguirá é incerto”, disse, acrescentando que “agora existe um caminho aberto para um Irão diferente” e que “o seu povo poderá ter mais liberdade para o moldar”.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, respondeu esta segunda-feira às críticas do presidente norte-americano sobre a falta de apoio à operação militar dos EUA e Israel no Irão, e insistiu que Londres não vai juntar-se aos ataques.

A NATO, por seu lado, anunciou também que iria ajustar o posicionamento das suas forças para garantir a segurança dos seus 32 Estados membros face a “potenciais ameaças”, tais como mísseis balísticos ou drones provenientes do Irão e da sua região, “ou de outras regiões”. Já o secretário-geral do Conselho da Europa, Alain Berset, apelou à união da Europa para travar o conflito no Médio Oriente e pediu respeito pelo direito internacional.

Em comunicado, Alain Berset sublinhou que o conflito que escalou no sábado é também “um teste para saber se a Europa pretende moldar a ordem que está a surgir ou se vai só observar a sua fragmentação”.

Segundo Cavalieri  já haveria “alguma cooperação da Europa com os EUA antes desta operação iraniana, mas agora os europeus estão a acertar em dar algum apoio que faltou no inicio da operação, não só a nível militar, mas mesmo ao nível diplomático, ao nível de declarações de partilha de objetivos”.

Para a Europa “interessa um Irão sem o regime dos Aytolas, que considera o seu inimigo mortal os EUA que representam a civilização ocidental e a Europa faz parte desta sociedade. Há várias células terroristas financiadas pelo Irão que vivem e que estão localizadas aqui na Europa”, admite Ana Cavalieri.

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