Há uns dias ampliei uma fotografia minha com dois dedos. Não para ver melhor a fotografia, mas para ver melhor uma ruga. Fiquei alguns segundos a olhar para ela, numa espécie de inspeção criminal à minha própria cara. Aproximei. Afastei. Voltei a aproximar.
A ruga continuava lá. Inconvenientemente tranquila.
Tenho 42 anos. A minha cara também. E não sei exatamente em que momento comecei a achar estranho que ela soubesse disso.
Não quero voltar aos vinte. Deus me livre. Já sobrevivi uma vez aos vinte, não vejo necessidade de repetir a experiência. Também não quero voltar aos trinta. Quero estar aqui.
Só não vou fingir que recebo cada nova ruga como quem recebe uma medalha por bons serviços prestados à vida.
Dizem-nos que devemos amar as nossas rugas porque contam a nossa história. Algumas contam.
Outras, francamente, podiam ter guardado a história para elas. E é aqui que a conversa deixa de ser sobre rugas.
Passámos grande parte da vida a receber instruções contraditórias sobre o nosso corpo. Não envelheças. Mas envelhece naturalmente. Cuida de ti. Mas não sejas fútil.
Faz o que te fizer sentir bonita. Mas, se fizeres demasiado, é porque não te aceitas. Assume os cabelos brancos. Aceita as rugas. Ama a flacidez. Celebra cada mudança.
E eu pergunto: temos mesmo de celebrar tudo? Não será suficiente aceitar?
Posso gostar da mulher em que me tornei e não gostar particularmente daquela ruga.
Posso ter orgulho nos meus 42 anos e comprar um creme anti-idade.
Posso pintar o cabelo, usar maquilhagem, cuidar da pele e continuar a saber que nenhuma dessas coisas determina o meu valor.
E, se outra mulher decidir não fazer absolutamente nada, também não precisa transformar essa escolha num manifesto.
Talvez tenhamos complicado demasiado uma coisa que devia ser simples. O corpo é dela. O espelho é dela.
A decisão também devia ser.
Durante décadas disseram-nos para não envelhecer. Agora dizem-nos como devemos envelhecer.
Mudámos o discurso. Continuamos a dar ordens.
Eu não quero lutar contra o tempo. Seria uma batalha particularmente mal escolhida, até porque já sei quem ganha.
Mas também não quero que me expliquem como devo sentir-me enquanto ele passa.
Quero poder olhar para uma fotografia, descobrir uma ruga, não gostar dela e continuar perfeitamente em paz comigo.
Porque auto-estima não é apaixonarmo-nos por cada centímetro do nosso corpo todos os dias.
Às vezes, auto-estima é olhar para aquilo de que não gostamos e não permitir que isso decida aquilo que valemos.
Um dia a minha cara terá 50 anos. Depois 60. Espero que tenha muitos mais.
E espero continuar a reconhecê-la. Não porque permaneceu igual. Mas porque, por baixo de tudo aquilo que o tempo lhe acrescentou, eu continuei lá.


