Quase 90% dos estudantes considera o trabalho um espaço de desenvolvimento de soft skills, segundo estudo académico. Os resultados revelam um desfasamento entre aquilo que os estudantes percecionam como exigência do mercado de trabalho e a confiança que têm na sua capacidade de responder a essa exigência.
Um estudo desenvolvido pela Universidade Portucalense (UPT) mostra que os estudantes reconhecem uma fasquia elevada nas competências que consideram valorizadas pelos empregadores, mas revelam menor confiança na sua própria preparação. O estudo “Students and employers perceptions differential on soft skills: An analysis for university students”, desenvolvido por Margarita Carvalho, Mónica Azevedo e Luís Pacheco, publicado em 2026 na revista científica Industry and Higher Education, analisou as perceções de 384 estudantes de Economia e Gestão da Universidade Portucalense sobre 22 competências transversais.
“Os resultados não retratam estudantes sem competências. Mostram, antes, que existe uma confiança inferior à fasquia que os próprios estudantes associam ao mercado de trabalho. Esta diferença é importante, porque a preparação para a vida profissional não depende apenas do conhecimento adquirido, mas também da capacidade de o mobilizar, comunicar e aplicar em situações concretas”, explica Margarita Carvalho, Co-coordenadora do MBA Executivo da UPT e uma das autoras do estudo.
Numa escala de um a cinco, os estudantes de Economia e Gestão inquiridos atribuíram uma média de 4,40 às competências que consideram ser esperadas pelos empregadores. Quando avaliaram as suas próprias competências, a média desceu para 4,08. E, quando questionados sobre a capacidade de corresponder às expectativas que atribuem ao mercado de trabalho, o valor voltou a baixar, para 4,04.
Estudantes reconhecem que o mercado de trabalho exige um nível elevado de competências transversais e avaliam as próprias competências num nível inferior ao que consideram ser exigido.
Com a entrada no ensino superior e o início das primeiras experiências profissionais, muitos jovens enfrentam uma questão que vai além do conhecimento técnico: estarão preparados para responder às exigências do mercado de trabalho?
O maior desfasamento entre as expectativas que atribuem aos empregadores e a sua própria preparação verifica-se na gestão do tempo e nas competências profissionais. Estudantes com mais de seis meses de experiência profissional revelam uma perceção significativamente mais positiva das suas competências profissionais do que os estudantes sem experiência.
89,74% consideram o trabalho um espaço de desenvolvimento de soft skills, enquanto 73,61% atribuem esse papel à escola. O estudo foi realizado junto de 384 estudantes de Economia e Gestão da Universidade Portucalense e analisou 22 competências transversais.
Os resultados revelam, assim, um desfasamento entre aquilo que os estudantes percecionam como exigência do mercado de trabalho e a confiança que têm na sua capacidade de responder a essa exigência. O estudo não avaliou diretamente os empregadores, pelo que os dados não permitem concluir que exista um défice objetivo de competências nos estudantes. Permitem, contudo, identificar uma diferença relevante entre a perceção das exigências profissionais e a autoavaliação dos estudantes.
A gestão do tempo surge como uma das áreas onde esse desfasamento é mais evidente. Os estudantes atribuem-lhe uma importância média de 4,61, quando questionados sobre as competências que consideram que os empregadores esperam dos jovens à saída do ensino superior, e avaliaram a sua própria competência nesta área em 3,95. Nas competências profissionais, a diferença é ainda mais acentuada: 4,22 de expectativa face a 3,48 de autoavaliação.
Também o pensamento estratégico e as competências de apresentação revelam diferenças relevantes entre aquilo que os estudantes consideram ser valorizado pelo mercado e a confiança que têm nas próprias capacidades.
“Um diploma certifica conhecimento, mas a transição para o mercado de trabalho exige também que os estudantes saibam mobilizar esse conhecimento, trabalhar com outros, tomar decisões e adaptar-se a situações novas. O papel do ensino superior passa por criar condições para que essas competências possam ser praticadas e acompanhadas ao longo do percurso académico”, afirma a investigadora.
EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL PARECE AJUDAR A CALIBRAR A PERCEÇÃO DAS COMPETÊNCIAS
A experiência profissional surge como um dos fatores associados a maiores níveis de confiança nas próprias competências. Os estudantes com mais de seis meses de experiência profissional avaliam as suas competências profissionais em 4,19, enquanto entre os estudantes sem experiência a média é de 3,13.
As diferenças verificam-se também noutras áreas, como comunicação, criatividade e apresentação. No caso das competências profissionais, a diferença entre estudantes com e sem experiência apresenta uma dimensão particularmente elevada.
Embora os resultados não permitam estabelecer uma relação de causalidade entre experiência profissional e desenvolvimento de competências, os dados sugerem que o contacto com contextos reais de trabalho pode contribuir para que os estudantes tenham uma perceção mais concreta das suas capacidades.
Esta perceção é também visível na forma como os estudantes identificam os espaços onde as soft skills são desenvolvidas. 89,74% consideram que o trabalho constitui um espaço de desenvolvimento destas competências, enquanto 73,61% atribuem esse papel à escola.
“Com o arranque de um novo ano letivo, mas também com o início de novos estágios e experiências profissionais, este é um momento particularmente relevante para repensarmos como preparamos os estudantes para o mundo do trabalho. Mais do que transmitir conhecimento, importa criar oportunidades para que possam praticar competências, testar as suas capacidades e receber feedback”, acrescenta Margarita Carvalho.
PREPARAR PARA O TRABALHO PASSA POR PRATICAR E RECEBER FEEDBACK
O estudo analisou 22 competências transversais, incluindo comunicação, pensamento crítico, liderança, trabalho em equipa, pensamento estratégico, gestão do tempo, planeamento e organização, apresentação, resolução de problemas, criatividade, flexibilidade, gestão do stress e inteligência emocional.
Os resultados apontam para a necessidade de tornar o desenvolvimento destas competências mais integrado no percurso académico, não necessariamente através da criação de uma disciplina específica de soft skills, mas através de oportunidades para as praticar, observar e avaliar.
Entre as propostas apresentadas pelos investigadores estão a integração destas competências nos objetivos de aprendizagem, a aproximação da avaliação académica a situações profissionais e a disponibilização de feedback mais explícito aos estudantes.
A colaboração entre instituições de ensino superior e empregadores poderá igualmente contribuir para tornar mais concretas competências frequentemente descritas através de conceitos genéricos como “boa comunicação”, “proatividade” ou “resiliência”, transformando-as em comportamentos observáveis e passíveis de ser desenvolvidos.


