A depressão não chega de rompante.
Não bate à porta com força, não anuncia que veio para ficar, não nos dá tempo para perceber o que está a acontecer.
Ela vem devagarinho.
Em passinhos pequenos.
Tão pequenos que quase não damos por eles.
Primeiro perdemos a vontade de fazer uma coisa. Depois outra. Começamos a adiar. A cancelar. A dizer que estamos cansados. Deixamos uma mensagem por responder. Depois duas. Depois dez.
Dizemos a nós próprios que amanhã fazemos.
Amanhã tomamos banho.
Amanhã arrumamos a casa.
Amanhã saímos.
Amanhã telefonamos àquela pessoa.
Amanhã voltamos a ser nós.
Só que o amanhã chega e nós continuamos exatamente no mesmo lugar.
E quando finalmente percebemos que a depressão está à porta, na verdade ela já entrou há muito tempo.
Já se instalou.
Já tomou conta da casa inteira.
A depressão é assim.
Vai minando tudo.
Quase como uma doença que lança raízes silenciosas para todo o lado. Entra na forma como pensamos, na forma como dormimos, naquilo que comemos, na vontade que temos de estar com os outros e, sobretudo, na vontade que temos de estar connosco.
Até que um dia percebemos que estamos a funcionar a 1%.
É assim que eu explico a depressão.
Como a bateria de um telemóvel quando chega a 1%.
O telefone ainda está ligado.
Ainda funciona.
Mas já não conseguimos fazer quase nada com ele.
Na depressão acontece o mesmo.
Estamos vivos.
Respiramos.
Falamos, às vezes.
Podemos até sorrir se alguém nos encontrar na rua.
Mas estamos a 1%.
E quando se está a 1%, as coisas mais básicas tornam-se gigantescas.
Eu não tenho vergonha de dizer isto: houve uma altura em que não gostava de tomar banho.
Não me apetecia.
Parecia-me uma tarefa demasiado grande.
Levantar, ir até à casa de banho, despir-me, entrar no duche, lavar o cabelo, secar-me, vestir-me outra vez.
Para alguém que está bem, isto é automático.
Para alguém que está a 1%, pode parecer uma maratona.
E houve dias em que até levantar-me para ir à casa de banho me parecia demasiado.
É difícil explicar isto a quem nunca passou por uma depressão.
Porque nós próprios, enquanto estamos lá dentro, também não conseguimos perceber.
E depois vem outra parte terrível da doença: o medo.
O medo de estarmos a enlouquecer.
Estamos medicados.
Estamos a fazer aquilo que nos disseram para fazer.
Tomamos a medicação.
Vamos às consultas.
Tentamos cumprir.
E, mesmo assim, aparecem dias negros.
Dias em que tudo parece voltar para trás.
Dias em que aquilo que ontem parecia possível hoje parece absolutamente impossível.
E então pensamos:
“Há qualquer coisa muito errada comigo.”
Foi uma das coisas que mais me assustou.
Se estou medicada, porque é que me sinto assim?
Se estava melhor, porque é que hoje estou pior?
Se ontem consegui rir, porque é que hoje não sinto absolutamente nada?
E desesperamos.
Mandamos mensagens aos profissionais que nos acompanham.
Procuramos respostas fora de horas.
Queremos desesperadamente que alguém nos explique se a medicação deixou de funcionar, se estamos a piorar, se alguma coisa correu mal.
Queremos que alguém nos diga que aquilo vai passar.
Demorei muito tempo a perceber uma coisa que gostava que me tivessem explicado logo no início:
a recuperação não é uma linha reta.
Ter um dia mau não significa que voltámos ao princípio.
Ter um dia muito negro não significa que vamos ficar naquele lugar para sempre.
O nosso corpo também conta.
O sono conta.
A alimentação conta.
O exercício conta.
O stress conta.
As hormonas contam.
A fase da vida em que estamos conta.
Há meses mais difíceis.
Há semanas piores.
Há dias em que parece que tudo se desregula ao mesmo tempo.
E isso não significa necessariamente que tudo aquilo que conquistámos desapareceu.
Às vezes é simplesmente um dia mau.
E está tudo bem.
Vai passar.
As pessoas que não têm depressão também têm dias maus.
Também choram sem saber muito bem porquê.
Também acordam sem vontade.
Também ficam irritadas.
Também precisam de se afastar.
A diferença é que quem já esteve no fundo tem medo de qualquer descida.
Ao primeiro sinal de tristeza pensamos imediatamente:
“Estou a voltar para lá.”
E nem sempre estamos.
Às vezes estamos apenas a ser humanos.
Ninguém me explicou isso.
Tal como ninguém me explicou aquilo que a depressão faria às minhas relações.
Porque a depressão também nos mostra os amigos.
Ou talvez nos mostre aquilo que algumas amizades eram realmente.
Quando estamos bem, conseguimos estar presentes.
Perguntamos pelos outros.
Ligamos.
Respondemos.
Vamos aos aniversários.
Ouvimos problemas.
Aparecemos quando alguém precisa.
Depois adoecemos.
E deixamos de conseguir fazer tudo isso.
Não porque deixámos de gostar das pessoas.
Não porque nos tornámos egoístas.
Não porque achamos que somos demasiado importantes.
Mas porque deixámos, durante algum tempo, de existir até para nós próprios.
E se nem para nós conseguimos existir, como conseguimos estar inteiramente disponíveis para os outros?
Há pessoas que percebem.
Pessoas que ficam.
Pessoas que mandam uma mensagem e não exigem resposta.
Que voltam a perguntar, dias depois:
“Como estás?”
Pessoas que aprendem a sentar-se ao nosso lado sem tentar consertar-nos.
E depois há as outras.
As que desaparecem.
As que acham que nos afastámos.
As que interpretam o nosso silêncio como desinteresse.
As que ficam ofendidas porque deixámos de ser aquela pessoa sempre presente.
E dói.
Dói descobrir que algumas pessoas só sabiam estar connosco quando nós tínhamos força para estar com elas.
Mas talvez a depressão também nos ensine isso.
Quem sabe ficar quando não temos nada para oferecer.
Hoje conheço melhor a depressão.
Conheço-lhe os passos.
Sei quando ela começa a aproximar-se.
Sei que há dias em que a bateria desce.
Sei que há alturas em que vou precisar de fazer menos.
E, sobretudo, aprendi uma coisa:
1% não é zero.
Quando estamos a 1%, não temos de conquistar o mundo.
Não temos de resolver a vida inteira.
Não temos de ser produtivos.
Não temos sequer de fingir que estamos bem.
Às vezes, a única coisa que precisamos de fazer é conseguir chegar ao dia seguinte.
E depois ao outro.
E depois ao outro.
Até a bateria começar, devagarinho, a carregar outra vez.


