Quando um país sai à rua, quem fica para o ouvir?

Susana Duarte, Autora

Há um momento na vida de um povo em que o silêncio deixa de ser uma escolha e passa a ser uma forma de resignação. Um momento em que as palavras ditas à mesa de jantar, as contas feitas ao final do mês e as preocupações partilhadas entre quatro paredes deixam de caber dentro de casa. E então as pessoas saem à rua.

Nos últimos dias, Portugal tem assistido a manifestações que nos obrigam a olhar para uma realidade que, embora conhecida, continua por resolver. Nas praças de Lisboa e do Porto, ergueram-se tendas, levantaram-se cartazes e ouviram-se vozes que reclamam algo tão elementar como uma casa onde seja possível viver.

Não uma casa de luxo. Não uma moradia com piscina ou uma varanda virada para o mar. Apenas uma casa. Um lugar onde se possa chegar depois de um dia de trabalho, fechar a porta e sentir que, pelo menos ali, existe alguma segurança.

Parece pouco. Mas, para demasiadas pessoas, tornou-se muito.

Vivemos num país onde trabalhar deixou de ser garantia de estabilidade. Onde há jovens adultos que continuam em casa dos pais, não necessariamente por comodismo, mas porque o salário não lhes permite outra escolha. Onde existem famílias que, depois de pagarem a renda, fazem contas ao supermercado como quem tenta resolver um problema matemático sem solução.

E há qualquer coisa de profundamente inquietante numa sociedade em que uma pessoa pode trabalhar todos os dias e, ainda assim, não conseguir construir uma vida autónoma.

Entretanto, discutimos as manifestações.

Discutimos as tendas, os cartazes, a intervenção policial, os confrontos e as detenções. Uns defendem o direito de protestar. Outros questionam os métodos utilizados. Há quem considere indispensável a intervenção das autoridades e quem entenda que foram ultrapassados os limites da proporcionalidade.

São questões legítimas, que devem ser discutidas com responsabilidade. O direito à manifestação não dispensa o respeito pela lei, tal como a manutenção da ordem pública não dispensa o respeito pelos direitos fundamentais.

Mas preocupa-me que, no meio de tanta discussão, nos esqueçamos da razão pela qual aquelas pessoas decidiram sair de casa.

Porque ninguém deveria precisar de dormir numa tenda, no centro de uma cidade, para que o direito à habitação merecesse atenção.

E talvez seja essa a pergunta que mais importa fazer: como chegámos a um ponto em que ter um emprego, cumprir as obrigações e procurar uma vida digna já não parece suficiente?

Não acredito em soluções simples para problemas complexos. Sei que construir habitação demora, que existem interesses diferentes e que governar implica decisões difíceis. Também sei que nenhuma medida será consensual e que as boas intenções, por si só, não resolvem crises.

Mas acredito que a responsabilidade política começa na capacidade de compreender a vida concreta das pessoas.

A vida de quem recebe o ordenado e sabe que grande parte dele já tem destino. De quem adia a decisão de ter filhos, porque não consegue garantir um quarto para uma criança. De quem permanece numa relação infeliz porque sair significaria não ter onde morar. De quem envelhece com medo de que a próxima atualização da renda lhe retire a tranquilidade dos últimos anos.

Estas pessoas existem para lá das estatísticas.

Têm nomes, histórias, famílias e sonhos que foram sendo adiados. Não pedem necessariamente uma vida extraordinária. Pedem a possibilidade de viver sem que tudo dependa de um equilíbrio financeiro permanentemente ameaçado.

E há uma diferença imensa entre viver e passar os dias a tentar sobreviver.

Também me preocupa a facilidade com que nos habituámos a olhar para o sofrimento dos outros através de uma divisão entre lados. Como se, perante uma dificuldade social, fosse obrigatório escolher imediatamente um campo, defender uma bandeira ou encontrar um culpado.

Nem todas as pessoas que se manifestam pensam da mesma maneira. Nem todas as pessoas que discordam dos protestos são indiferentes à crise da habitação. E talvez fosse mais fácil encontrar respostas se aprendêssemos a ouvir antes de transformar qualquer discussão numa batalha.

Uma democracia não se mede apenas pela liberdade de votar. Mede-se também pela possibilidade de questionar, discordar, exigir explicações e participar na construção do futuro coletivo.

Mas essa liberdade traz responsabilidades a todos: a quem protesta, a quem governa, a quem intervém para garantir a segurança e a quem observa.

Não podemos exigir respeito sem estarmos dispostos a respeitar. Nem podemos pedir diálogo enquanto recusamos escutar.

Olho para estas manifestações e penso sobretudo nos mais novos. Na geração a quem dissemos que estudasse, trabalhasse, fosse responsável e construísse o seu futuro.

Fizeram-lhe promessas que a realidade nem sempre consegue cumprir.

E pergunto-me que relação terão estas pessoas com o país onde cresceram, quando até o direito de nele permanecer com alguma estabilidade parece estar em causa.

Um país não se constrói apenas com indicadores económicos, investimentos ou discursos bem preparados. Constrói-se também com a confiança de quem nele vive. Com a possibilidade de fazer planos. Com a esperança de que o esforço de hoje possa trazer alguma tranquilidade amanhã.

Quando essa esperança começa a desaparecer, o descontentamento deixa de ser apenas uma questão política. Torna-se uma questão profundamente humana.

Talvez por isso estas manifestações mereçam mais do que opiniões apressadas e discussões inflamadas.

Merecem perguntas difíceis. Respostas sérias. E uma disponibilidade genuína para reconhecer que há pessoas que já não conseguem esperar indefinidamente.

Não sei se as tendas voltarão a ocupar as praças. Não sei que soluções serão encontradas, nem quanto tempo demorará até que alguma coisa mude de forma significativa.

Sei apenas que, por detrás de cada cartaz, pode existir alguém que gostaria de estar em casa, mas que saiu à rua precisamente porque ter uma casa se tornou o centro das suas preocupações.

E isso deveria fazer-nos pensar.

Porque, quando um país sai à rua, talvez a primeira resposta não devesse ser perguntar de que lado estamos.

Talvez devesse ser perguntar por que razão tantas pessoas sentem que já não estão a ser ouvidas.

E, sobretudo, se ainda somos capazes de escutar antes que o descontentamento se transforme em desistência.

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