“O pequeno duplo grande amor”

Inês Montargil, Médica Dentista Membro da direção nacional do CDS-PP

Questionemo-nos. O que queremos? Satisfazer a nossa vontade de ficar com uma lembrança viva de um sonho que não poderemos jamais realizar? E a criança que nasceu? Será justo para ela nascer fora da família outrora sonhada, e com todas as suas consequências na sua formação, educação e vivências?

E lá nasceu o pequeno Hugo, fruto de um amor eterno em que longe, o pai estava perto.
Haverá maior felicidade que ter um filho? Não, não há.
Haverá maior felicidade que a possibilidade de o concretizar tendo espermatozoides ou óvulos que permitam ter um filho da pessoa amada, e permitindo assim constituir a família outrora sonhada, mas que uma doença fatal, ou um acidente mortal, não o permitiram? Talvez não haja à primeira vista. Afinal quem poderia em sua consciência negar a felicidade de um nascimento? Mas, a família outrora sonhada não volta, porque numa família deveria existir também o pai, e isso a ciência não traz de volta ou recria. Questionemo-nos. O que queremos? Satisfazer a nossa vontade de ficar com uma lembrança viva de um sonho que não poderemos jamais realizar? E a criança que nasceu? Será justo para ela nascer fora da família outrora sonhada, e com todas as suas consequências na sua formação, educação e vivências?
Como em tudo na vida não há regra sem exceção e acima de tudo a palavra, Amor.
Mas levantam-se questões como a ética médica, o direito sucessório, o direito à vida, direito à morte e direito das crianças.
Tema sensível este e muito difícil de analisar, e de até chegarmos a uma conclusão que não seja ao mesmo tempo louvada e condenada.
Vida e morte são temas complexos, sensíveis e subjetivos em pleno século em que nos encontramos.
Haverá o direito de tirar a esta mãe o desejo de ter um filho do amor da sua vida em que o desejo do pai também era esse? Mas que por uma fatalidade a vida deste homem foi substituída pela morte prematura? Ou poderá também esse desejo ser visto, ao mesmo tempo, como uma satisfação pessoal por forma a diminuir o peso da fatalidade? E o desejo de uma criança nascer no seio de uma família sonhada, como é que fica? Não poderá ela também vir a nascer dentro de uma nova fatalidade criada para ela?
Será que a forma como se realiza a conceção deverá ser justificada apenas e somente pela existência de amor entre duas pessoas, pondo de lado o ato de amor e a natureza em si, e permitindo que a ciência e pessoas “estranhas” à intimidade do casal se juntem, passando a ser um ato de ciência, e não fundamentalmente de amor?
Quantas mulheres hoje, olham para trás com o desejo infinito de ter tido esta oportunidade, e independentemente de todas as opiniões favoráveis ou desfavoráveis, como a sabedoria popular nos conta, “do convento sabe quem lá está dentro”.
Mas ao mesmo tempo que esta história se passa aqui ao nosso lado e sensibilizou muita gente, ao olharmos para o nosso país vizinho encontramos uma atriz em que o filho morreu de cancro aos 27 anos, e esta avó com 68 anos através de uma barriga de aluguer, deu à luz em Miami uma neta através da criopreservação dos espermatozoides do filho.
Não duvido da felicidade desta avó em ter uma continuidade do seu filho, mas não será um egoísmo extremo isto?
Ao abrirmos esta porta, não estaremos a correr o risco de clonagem reprodutiva tendo como objetivo no futuro criar seres humanos geneticamente idênticos a outros? Ou as técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) poderem ser utilizadas para se conseguir melhorar determinadas características não médicas do nascituro, designadamente a escolha do sexo, cor dos olhos, altura, entre outros?
Talvez alguns procedimentos causem incomodo a muitos.
Questões como, será a inseminação post mortem um projeto de família inicialmente monoparental? Igualamos isto à liberdade da mulher poder recorrer à PMA? Ou será que esta mulher escolheu dar à luz um filho do amor da sua vida, projeto a dois, mas com a fatalidade de o pai não estar presente? Será que, aos olhos da criança, a mãe terá o direito de escolher, para além de ser mãe, ser também pai? Será que outra opção como a da adoção, e o alívio da fatalidade em si que em que se encontra uma criança que o necessita, não seria também um ato enorme de amor? Será que o mais importante para se ser mãe é mesmo o progenitor ser determinada pessoa? Ou será, mais premente ter o mais profundo desejo de dar amor materno a alguém de dele desesperadamente necessita? Para pensarmos e refletirmos…
O direito e a bioética têm de caminhar juntos de mãos dadas, sempre à procura de uma abordagem eticamente sensata, responsável, sem prejuízo aos envolvidos nesta viagem.
Sempre respeitando os direitos fundamentais do ser humano, principalmente no superior interesse das crianças e dos valores da família.
E por fim, tal como o disse no início, digo que este é um tema que merece muitos debates construtivos, ouvindo todos e analisando todas as hipóteses, erros, e observando o que o futuro nos poderá reservar, em que não haverá, por certo, uma perspectiva de pensamento totalmente certa ou totalmente errada.
Muitas questões ficam no ar com muitas respostas por dar.
A verdade é que o pequeno Hugo está aqui, com o milagre da vida presente, a felicidade da mãe e uma mais que certa felicidade do pai que, com certeza, se estivesse presente entre nós, estaria radiante!

Seja Apoiante

O Estado com Arte Magazine é uma publicação on-line que vive do apoio dos seus leitores. Se gostou deste artigo dê o seu donativo aqui:

PT50 0035 0183 0005 6967 3007 2

Partilhar

Talvez goste de..

VINHO A EXPORTAR

Jack Soifer,
Consultor internacional nas áreas da gastronomia e vinhos

Apoie o Jornalismo Independente

Pelo rigor e verdade Jornalistica