A florista e a Irmã

Fátima Fonseca

Paula tinha sido lindíssima, já na escola dava nas vistas, pelo que, ao crescer, atraía olhares de  admiração, mas também olhares maus de inveja e muita cobiça. Nascera numa família pobre,  cedo começara  a vender flores pelas ruas da cidade,  e praticamente  ninguém a protegera, nem a preparara para a vida…

Por isso, também não causou grande espanto quando engravidou aos 16 anos. Logo saiu de casa e em breve estava sozinha, a vender flores, calcorreando  ruas e mercados,  com um bebé nos braços. Sem eira, nem beira,  seguiram- se toda uma série de aventuras infelizes, repetidos erros e infortúnios, que lhe deixaram cicatrizes para sempre, no corpo e na alma,  e Paula, descrente de um amor desinteressado e fiel, acabou por ficar sozinha a cuidar daquela filha, procurando que nada lhe faltasse; esta porém,  infelizmente, repetiu os mesmos erros da mãe e aos 18 anos, inesperadamente, deixou um bebé ao cuidado da avó Paula, partindo para África com outro companheiro.

Paula nunca mais quisera aventuras, e trabalhava duramente, vendendo flores e procurando melhorar o seu negócio,  para criar aquele rapazinho a quem dedicava  todo o seu carinho. O neto cresceu, fez-se um homem, forte e robusto, todo dado às artes marciais, e um dia resolveu partir com amigos à aventura para o estrangeiro e oferecer-se num exército de mercenários. A avó, horrorizada, tentou por todos os meios dissuadi-lo, mas o rapaz que desde pequeno sonhava com armas, fardas e guerras… partiu mesmo! ‘Avó, não se preocupe… que eu volto!’

Paula chorou amargamente e mais uma vez ficou sozinha. Já tinha perdido a filha, nunca mais tivera notícias dela e agora sentia-se como que a viver um novo luto. Passaram-se semanas e meses, um ano, dois anos já, e  sem notícias! Por onde andaria o seu neto? Em que guerras se teria envolvido? Estaria vivo, ferido, ou mesmo morto, e ela sem saber???

Entretanto, continuava a trabalhar  arduamente, de sol a sol, ao longo de todo o ano, indo de madrugada comprar flores ao mercado abastecedor, para fazer entregas noutras lojas e preparar arranjos florais na sua pequena  loja num vão de escada.

Paula nunca frequentara igrejas, nem era  dada à oração, mas criara, há muito, o hábito de entregar flores semanalmente no convento de Clarissas escondido lá no alto do monte nos arredores  da cidade.
Sonhara um dia, há muito tempo atrás, que aquela linda imagem branca da  Senhora do Monte a chamava insistentemente pelo seu nome, e passara a ir oferecer-lhe as rosas mais belas que conhecia. Sabia que no convento também cultivavam flores, mas aquelas rosas Juliet, cor de pêssego,  tão invulgares, só ela mesmo as arranjava.

Assim, aos sábados de manhã cedo, lá se dirigia a florista ao convento, conduzindo o seu velho carro, com o motor roncando estrada acima, serpenteando entre pinhais e eucaliptos, até ao alto da serra. À chegada, puxava a sineta, aguardava uns minutos, e quando a irmã da portaria aparecia à porta, entregava as flores, apressadamente,  dizendo apenas: ‘Bom dia, aqui estão as rosas para Nossa Senhora! Lembrem-se de mim.’

A Irmã que conhecia bem a desgraçada  vida de Paula e já ouvira  de sua própria boca, os seus desabafos, tinha um grande carinho por ela, e  sempre lhe perguntava se não queria entrar e visitar Jesus, mas ela rapidamente se afastava, alegando estar com muita pressa.

Certo dia porém, a Irmã não a deixou ir embora sem a abraçar, dizendo- lhe: ‘Paula, sei quanto sofres, mas sabes uma coisa? Aqui no convento todas estamos confiantes que o teu neto vai voltar. Aqui pedimos essa graça e quero que saibas, estou com um cancro, tenho andado em exames e tratamentos; vou ser internada amanhã e operada, mas todos os meus sofrimentos estão a ser oferecidos, desde o primeiro dia,  por ti e pelo teu neto!’

Paula partiu, desfeita em lágrimas. Gostava tanto daquela Irmã! Só sabia que se chamava Maria Belém, mas sempre pensava nela como uma amiga do coração e sentia a sua proteção! Nas semanas seguintes, continuou a fazer as entregas habituais e sempre perguntava pela Irmã Maria Belém.

Um dia, pediram- lhe que entrasse só por uns minutos na portaria,  porque tinham preparado uma surpresa. Sentada num banco de madeira, muito pálida e emagrecida, estava a Irmã Maria Belém, com o sorriso doce de sempre, à espera dela.  Abraçaram- se ternamente. Conversaram longamente. De tudo, e também do sentido da vida e do mistério da morte. ..Paula percebeu de imediato, que a Irmã Maria Belém estava muito frágil e não teria muito mais tempo de vida.
Resolveu, a partir de então, levar-lhe rosas diariamente.

Uma semana mais tarde, na manhã de um dia 15 de agosto, ao tocar a sineta, a Irmã que lhe abriu a porta, vinha de olhos vermelhos e disse- lhe:
‘Temos uma notícia … a Paula vai ficar triste : a nossa Irmã Maria Belém já partiu…hoje mesmo, mas deixou um recado para si sobre o seu neto.’

Paula não quis ouvir  mais nada. Saiu disparada, entrou no carro, e com as lágrimas correndo pela cara abaixo, meteu- se à estrada, e dirigiu-se para casa. Tinha pressa, muita pressa de chegar. À distância, já na sua rua, enquanto arrumava o carro,  viu um vulto muito magro de um  homem de costas, sentado no chão, de cabeça encostada à sua porta.

O coração bateu- lhe, acelerado. Correu para ele e ele ouvindo os passos, voltou-se, levantou-se e correu para ela, exclamando: ‘Querida Avó…voltei!’

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