Rui Gonçalvez

ENTRE O ABUSO DE PODER E O TARADO SEXUAL

Rui Gonçalves, Arquiteto

O Presidente da Federação Espanhola de Futebol, um tal Rubiales, inebriado pela conquista da seleção de futebol feminina do título de campeã do mundo, durante a sessão de cumprimentos às entidades presentes, decidiu beijar na boca a jogadora Jenni Hermoso, assim, sem mais nem menos.

Na sequência de um caloroso e natural abraço, Rubiales foi mais longe e beijou a jogadora, como é costume dizer-se, “à má fila”. De imediato surgiram as mais diversas opiniões acerca da chocante atitude do presidente da federação. Os machos latinos, nos quais o dito cujo se integra, usam a habitual narrativa, segundo a qual, “ela é que se ofereceu”, porque lhe deu um grande abraço e até o levantou ao ar. E esta é a questão que entendem permitir-lhes a partir daí, “esticar a corda”.

A lógica dessa rapaziada, é simples, se me oferecem meio kilo de tremoços, então quer dizer que posso roubar a saca toda. Voltando a este tratamento, o raciocínio é óbvio, considera-se oferecida, a mulher que use uma saia mais curta ou um decote mais avantajado, o suposto, é que procure algo e como tal vamos lá investir, antes que venha outro e invista, é assim, sem tirar nem pôr.

Nunca me ocorreu, que quando uma amiga me abraça, me esteja a dar indicação de que devo avançar sem rodeios para mais do que esse abraço e por acaso são várias as amigas que o fazem. Ah pois…, mas não foram campeãs do mundo e isso faz a diferença do momento. Pois é, mas também não consta que o dito Rubiales tenha beijado na boca nenhum elemento da seleção masculina em nenhum momento ou comemoração de um sucesso.

Mas sobre a conduta do indivíduo em questão, também correm por aí fotografias dele com as mãos alarvemente nos genitais, por exemplo, ou com uma outra jogadora, ao ombro, como se fossem comportamentos aceitáveis da parte do presidente de uma federação que representa dezenas de milhares de futebolistas de todas as idades. Há condutas inaceitáveis nem que se tratasse do roupeiro da seleção, do porteiro da federação, ou mesmo do jogador da bola, que Rubiales foi.

O perfil de alarve, não se coaduna com o lugar que ocupa, as pessoas têm de perceber, que para além da conduta exigida a qualquer ser humano numa sociedade civilizada, quem ocupa lugares de destaque nessa sociedade, seja em que âmbito for, está obrigado e não é uma opção, é uma obrigação, a um dever de contenção intransponível, seja em que situação for, especialmente em público. Sim, porque alguns defensores de Rubiales, também tentaram pôr a circular a narrativa segundo qual haveria um “caso” entre o presidente da federação e a jogadora em causa, mas mesmo que isso fosse real, que se provou não ser, nunca aquela atitude poderia ter tido lugar no momento e na circunstância em que ocorreu.

Evidentemente que este indivíduo tem de ser expulso do cargo, ou a não acontecer, seria o branqueamento e a banalização da violência, do abuso de poder e do desbragamento alarve, exigindo-se as devidas consequências exemplares, que lhe permitam inclusive perceber que pensar com a cabeça que tem cérebro também é possível e civilizado.

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