Quando a maioria do país se encontra a banhos, os partidos políticos, mais antigos e mais recentes, arrancam com os seus eventos de rentrée política.
É curioso que os partidos, que tanto chamam a si a capacidade e a tenacidade para fazer diferente, acabam por seguir o cardápio habitual. O CHEGA tem, tal como os partidos do arco da governação, um comício festa, enquanto a IL organiza o evento a que chama “A’gosto da liberdade”, que não é mais nem menos do que um comício festa ou se preferirem uma festa com comício. Novidade? Nenhuma.
Já o BE opta pelo modelo do fórum, em que se discutem temas considerados como atuais com personalidades do partido, mas também da sociedade civil.
O PCP não joga no mesmo campeonato dos restantes partidos. Na verdade, não compete com nenhuma das rentrées. A festa do Avante compete com os festivais que agora existem por toda a parte. É o festival de cultura mais antigo que se conhece em Portugal e termina com o discurso do seu líder.
Este ano, os dois últimos eventos referidos trazem consigo as estreias dos novos líderes, Mariana Mortágua e Paulo Raimundo, como atrações das respetivas reentres.
PS e PSD mantém os comícios de arranque nos moldes que sempre nos habituaram e as suas Jotas juntam-lhes umas universidades e academias de verão, em que os nomes que por lá passam, são inevitáveis a que se juntam os que querem ser inevitáveis.
Durante o mês de agosto, e para não nos distrairmos, as rentrées surgem paulatinamente como se houvesse acordo para que todos tenham espaço mediático.
É aqui que as armas se carregam e que se treinam argumentos para marcar o debate do orçamento de estado.
O esquema deste ano é simples de perceber. Todos contra um. A maioria parlamentar apesar de todas as sacudidelas, ataques mais ou menos organizados pelos restantes partidos políticos, não cai e isso começa a chatear quem tanto anunciou que a queda era absolutamente inevitável.
Com mais ou menos imaginação, todos afirmam ser hora de mudar, de fazer mais e de fazer diferente. Da saúde à educação, da economia à habitação passando pelas sempre necessárias reformas (ainda estou para perceber de que reformas falam quando nada mais se fez senão reformar as políticas públicas em todas as áreas…), todos assumem compromissos de mudança.
Claro que as soluções e os compromissos assumidos bebem na ideologia de cada um e no estilo que usam para catapultar a sua mensagem. Uns mais vocais, outros menos, uns mais objetivos outros mais inconsistentes nas suas propostas, mas todos usam a mesma mensagem de base.
Resolvi por isso, reler as notícias da rentrée do ano passado. Os primeiros meses de governação não foram fáceis. As mudanças de pastas (que obviamente não eram esperadas nem necessárias), inflamaram o discurso do desgaste e da incapacidade do governo mostrar energia nova para construir soluções que apoiassem as famílias e as empresas num momento de saída da pandemia e de entrada na guerra. Este argumento foi tão forte e tão usado por todos, que quando o maior partido de oposição quis marcar o espaço “incitando” o governo a tratar do Aeroporto Humberto Delgado e a discutir o programa de emergência social (como lhes chamaram), ninguém ouviu. Foi claramente uma má escolha!
Já se antevia, que este ano o grande tema seria a redução de impostos versus a alegada arrecadação de receitas excecional. Os partidos de direita construíram as suas propostas. Apresentaram medidas e até fizeram contas para demonstrar que sabem e dominam as consequências do que propõem.
O debate começou. Marcava espaço. Ganhava furor. Eis senão quando… no seu programa de comentário habitual, se pergunta ao Marques Mendes se vai ser, se tenciona ser, se pondera ser, Presidente da República.
E foi assim que nada mais se discutiu até hoje. Apenas se fala dos nomes para as Presidenciais, obrigando até a que alguns desses hipotéticos candidatos se vejam forçados a posicionar (cumprindo com objetivo deste lançamento de candidatura).
Com amigos assim, não sei mesmo, como é que a oposição se organizará para alterar as intenções de voto. O grande beneficiado, para além do putativo candidato, é o governo, que deixa de estar no centro do debate. Esta semana, veremos como correrá a rentrée do partido do governo.


