Fotografia: Pedro Ferreira
As sondagens apontam para um empate técnico entre Biden e Trump, algo muito próximo daquilo que aconteceu em 2020, embora Trump “logre mais alguns pontos percentuais junto do eleitorado republicano do que Biden consegue nos eleitores democratas”, comenta em entrevista ao Estado com Arte, José Filipe Pinto, Professor Catedrático em Ciência Política da Universidade Lusófona.
A Super Terça-Feira, a 5 de março, dia em que mais de uma dúzia de estados, como a Califórnia e o Texas, alguns de grande magnitude eleitoral, vão realizar as primárias, um dia decisivo para as presidenciais americanas de 2024.
É nos processos sobre a retenção imprópria de documentos classificados e sobre a tentativa de subverter os resultados das presidenciais de 2020 na Geórgia, que Trump corre o maior risco de ser considerado culpado, com a agravante de este último ficar fora da sua competência se regressar à Casa Branca.
Como vão decorrer as primárias das eleições americanas em janeiro?
Em política, quatro meses podem parecer uma eternidade, sobretudo numa conjuntura de incerteza no que à ordem mundial diz respeito. Por isso, fazer previsões é arriscado e a margem de erro é elevada, por mais cuidado que se coloque nas afirmações.
Assim, talvez não seja abusivo dizer que, grosso modo, vigorará a tradição que garante a indicação do Presidente em exercício, pois desde 1928 que todos os presidentes elegíveis tentaram a recandidatura. Porém, isso não inviabiliza o surgimento de outras candidaturas no seio do partido democrata. Quanto ao partido republicano, é previsível que à medida que vão sendo conhecidos os resultados nos primeiros estados, a maioria dos candidatos vá desistindo da corrida.
O calendário ainda não está definido em todos os estados, mas é garantido que a «Super Terça-Feira», que cairá no dia 5 de março, será decisiva, uma vez que, nesse dia, mais de uma dúzia de estados, alguns deles de grande magnitude eleitoral, como a Califórnia e o Texas, realizarão as primárias. Como é sabido, a escolha dos delegados pode ser feita por votação tradicional ou por caucus, embora o método predominante seja o proporcional.
Na convenção republicana de julho e na democrata de agosto (de 2024), julgo que Trump e Biden não irão enfrentar dificuldades para as respetivas nomeações.
De registar que alguns partidos que sabem não dispor da mínima probabilidade de eleger o Presidente também apresentarão candidatos e há, ainda, espaço para candidaturas independentes, igualmente destinadas ao fracasso.
Quem leva mais vantagem nas sondagens democratas ou republicanos?
As sondagens vão refletindo a evolução da economia mais do que da política externa, embora se perceba que começa a haver, sobretudo do lado republicano, uma tentativa de relacionar as dificuldades internas com as verbas gastas no apoio à Ucrânia. De momento, as sondagens apontam para um empate técnico. Algo muito próximo daquilo que aconteceu em 2020, embora Trump logre mais alguns pontos percentuais junto do eleitorado republicano do que Biden consegue nos eleitores democratas.
Os democratas vão conseguir superar os republicanos com a situação judicial de Trump?
É muito duvidoso ou praticamente impossível, pois, por um lado, nada na Constituição dos EUA obriga os candidatos presidenciais a apresentar a denominada ficha limpa e, além disso, já foi possível perceber que Trump, enquanto populista e mestre na arte da vitimização, está a tirar proveito – eleitoral e financeiro – das imagens resultantes desses processos. Mais um dado a provar que Trump é uma marca.
Considera que Trump vai ser culpado dos vários processos em que está acusado? Qual a sua perspetiva?
Nos Estados Unidos, ao contrário do que acontece – ou deveria acontecer – em Portugal, os procuradores do Ministério Público apenas se concentram na recolha do elemento probatório destinado à acusação. Além disso, apesar da nomeação ter influência partidária, o sistema denominado checks and balances funciona de forma efetiva. Por isso, é altamente provável que Donald Trump seja acusado em mais do que um dos processos, embora algumas acusações de crimes possam vir a cair. Até agora, Trump é arguido em processos criminais e civis, por motivos muito diferentes, mas que acabam por ter reflexos na dimensão política. Por exemplo, mesmo a compra do silêncio de uma atriz de filmes para adultos recai na esfera política se a despesa tiver sido contabilizada na campanha. Porém, é nos processos sobre a retenção imprópria de documentos classificados e sobre a tentativa de subverter os resultados das presidenciais de 2020 na Geórgia, que Trump corre o maior risco de ser considerado culpado, com a agravante de este último ficar fora da sua esfera de ação no caso de regressar à presidência.
Em que Estados é previsível que haja mudança de voto?
Nos Estados Unidos é habitual haver os denominados swing states, ou seja, estados que alteram o sentido de voto, tal como há estados cujo resultado coincide com o resultado nacional, ou seja, quem lá vence torna-se Presidente. No entanto, como não há regra sem exceção, qualquer uma destas realidades pode mudar. Assim, há estados que deixam de poder ser considerados swing states, porque um dos partidos se sedimentou no poder e, por outro lado, como aconteceu em 2020, a regra «as Ohio goes, so goes the nation» deixou de funcionar.
Como já foi dito, ainda é muito cedo para fazer previsões, pois há que esperar para ver como evoluciona a economia norte-americana sobretudo no que concerne à inflação e à taxa de desemprego. Porém, já há estudos, designadamente do Centro para Política da Universidade de Virgínia, que identificam quatro estados onde o resultado se apresenta como incerto: Geórgia, Wisconsin, Arizona e Nevada. Esta listagem decorre da circunstância de, na eleição presidencial de 2020, a diferença entre os dois candidatos ter sido inferior a 1%. Além desses estados, há que levar em conta a Flórida, pois o Governador, Ron DeSantis apresenta-se como o principal opositor de Donald Trump na corrida à nomeação republicana, e esse facto também poderá vir a ter repercussão negativa na votação republicana, malgrado não pareça ser suficiente para Biden recuperar os 3% com que foi derrotado nesse estado em 2020. Aliás, essa foi também a percentagem, embora favorável a Biden, em New Hampshire e Minnesota, outros dois possíveis swing states.
A popularidade de Trump está em crescendo em que Estados?
Primeiro que tudo, há que reconhecer que, apesar dos problemas com a justiça que Trump está a enfrentar, a sua popularidade mantém-se elevada entre o eleitorado republicano a nível nacional, porque continua a ser muito significativo o número daqueles que, apesar da inexistência de provas, consideram que o resultado da eleição de 2020 foi fraudulento. Um dado a que não é alheia a estratégia mediática de vitimização levada a cabo por Donald Trump. Depois, no que concerne aos estados, há estudos de opinião que mostram que, por exemplo, na Geórgia, Carolina do Norte, Ohio e Pensilvânia, cerca de 80% dos eleitores republicanos continuam a ter uma opinião altamente favorável sobre Trump.
A questão da idade de Biden vai ser impeditiva de concretizar a candidatura à presidência?
Não creio, a menos que surja alguma limitação grave em termos de saúde, apesar de haver vozes no partido democrata a lembrar que Biden já era o Presidente norte-americano mais idoso aquando da sua eleição em 2020. De igual modo não se afigura previsível que a recandidatura de Joe Biden não venha a ocorrer devido aos problemas do foro judicial que recaem sobre o seu filho, Hunter Biden. É possível que, ainda no corrente mês, a Câmara dos Representantes queira votar pelo impeachment de Biden e abrir um inquérito oficial no sentido de obter informações que, na ótica republicana, a Administração Nacional de Arquivos e Registos (NARA) não tem fornecido e que envolvem a família Biden em atividades corruptas. Uma estratégia que, a meu ver, não vai surtir efeito, a não ser se o objetivo principal passar pela tentativa de deslocar o foco da atenção pública que, até agora, tem estado sempre colocado nos processos que envolvem Donald Trump.


