Ter filhos muda tudo – Pausa Mental

Bernardo Almeida

Sob forma de disclaimer e spoilers é preciso dizer que ter filhos é uma experiência inigualável e incrível onde nasce e floresce uma forma de amor que não se conhece previamente. No entanto, há partes menos boas, partes más e outras mesmo más. Este texto é sobre a minha jornada de saúde mental na primeira experiência parental.

Ter filhos muda tudo. É um clichê, uma frase feita que não tem já grande significado e é como um pano de cozinha utilizado por toda a gente que quer convir um universo incrivelmente complexo numa frase de quatro palavras.

Há 3 grupos de pessoas que se agarram a esta frase, os que não têm filhos, os que já os tiveram e já se adaptaram, e finalmente aqueles, onde eu me insiro, que estão a viver essa mudança que lhes é gigante.

Durante muitos anos eu a minha mulher vivemos um com o outro, para o outro, um do outro, com as rotinas e hábitos que a convivência traz. Ter filhos não era a nossa prioridade e poucas eram as conversas sobre isso.

Porém, fomos sendo honestos nos porquês das nossas escolhas e o que elas tinham escondido do diálogo franco. Não era já a pressão para sermos pais vinda de pares ou familiares, era sim a ansiedade e o medo.

Eu sou filho da geração boomer, uma geração que casou para sair de casa dos pais e passou de filho para marido e pai num ápice. No meu caso particular sou filho de pais separados cujo casamento acabou muitos anos antes do fim onde distanciamento e instabilidade emocional eram a norma. Sobre isso escreverei noutra altura.

Cresci com a ansiedade a dominar muitas das minhas escolhas e, portanto, quando finalmente eu e a esposa escolhemos agir e parar de pensar, a minha filha é feita e nasce. No entanto, foi em plena pandemia, o que para um ansioso, foi horrível.

Depressa os hábitos da nossa vida conjunta mudaram e o meu primeiro grande trauma aparece ao cabo das primeiras noites sem dormir, claro está exacerbado pelo clima de medo constante que se vivia na altura.

Se os dias eram vividos com o fascínio daquela sensação indescritível em resultado de olhar para os pés, mãos, olhos e bocejos da minha filha, as noites e o aproximar delas tornaram-se num catalisador de ansiedade que aniquilava o fascínio e o substituía por emoções tão negativas como a raiva, a frustração e a sensação de um buraco sem sol à vista.

Houve noites onde eu já dizia à minha recém-nascida para se calar de tal forma desesperado que eu estava e numa exaustão partilhada com a minha mulher que queria proteger e ajudar, mas que também ela era já um gatilho para todas estas emoções destrutivas.

Porém, ela cresceu e as noites, após um ano daquilo que para mim foi um flagelo noctívago, onde eu tinha já encontrado os locais onde o chão não fazia barulho, o risco de ela acordar era já minorado e eu tinha sobrevivido ao que a minha ansiedade me fez passar.

Com alguma paciência consegui começar a disfrutar de ser pai e paulatinamente sentir a todo o gás que tinha feito a melhor escolha da minha vida.

Naturalmente que as minhas preocupações não acabaram e muito menos o reflexo dos meus traumas de infância. Não sabendo nunca onde começava o exagero e o zelo eficaz, pensei muito na forma de educar a minha filha, de como a ia afectar e da jura (muitas vezes falhada) de a proteger de mim mesmo e do que passei.

Penso nisso quando me lembro das vezes que já lhe levantei a voz, das caras que ela vê quando isso acontece, da versão menos boa que o pai lhe apresenta quando pela quinta ou sexta vez consecutiva ela não me obedece e eu sinto as minhas raivas a subir.

No fim do ano escolar tivemos uma conversa com a directora da escola onde a minha filha está e foi nos dito que ela é óptima, não tem traumas nenhuns e cito, “É super resolvida”. Seria o suficiente para descansar e assumir que apesar de todas as minhas imperfeições, estou a fazer um bom trabalho.

Porém, não. Foi o suficiente para respirar fundo ao sair dessa conversa que agora é distante e a sua energia é muitas vezes desafiada pelo medo de a magoar.

Essa mesma escola onde eu há um ano a deixei pela primeira vez e liguei à minha mulher a chorar, e a chorar muito. Afinal eu estava a largar a minha filha no desconhecido, nuns dias onde eu não estaria tanto com ela, onde os meus medos se apoderavam de mim.

Apercebi-me que eu estava a reviver um dos traumas mais antigos da minha memória, o dia onde o meu pai de quase 2 metros de altura, deixou-me à porta da sala de aula do meu terceiro ano de escolaridade, mas numa escola nova. Não chorei na altura. Chorei há um ano, quase 40 anos depois.

Passado 1 ano de escola já não faço grande gestão da ansiedade pelo menos aquela que era alocada aos medos de ter a minha filha longe de mim. Continuo a ter preocupações relativas ao efeito que a minha saúde mental possa ter na construção da personalidade da minha filha e portanto mantenho-me vigilante.

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